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Guia do Plantonista — MEDNEIF · Versão 2.1 · Última revisão clínica: 25 Abril 2026 · Diretrizes atualizadas até 2026 · 89 prescrições auditadas

MedNeif MedNeif Guia do Plantonista
MedNeif · Publicação Clínica
Guia do
Plantonista
Vol. I·2026·Revisão 02
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Dor Torácica — Abordagem Sindrômica
Abordagem Sindrômica — Dor Torácica no PS

A dor torácica é uma das queixas mais frequentes em serviços de emergência (5–8% dos atendimentos). O objetivo inicial é identificar rapidamente causas potencialmente fatais (as "5 causas que matam"): SCA, TEP, dissecção de aorta, pneumotórax hipertensivo e tamponamento cardíaco.

Alerta — Regra dos 10 Minutos

Todo paciente com dor torácica deve ter ECG de 12 derivações em até 10 minutos da chegada ao PS. Esse é o passo mais importante da abordagem inicial.

Avaliação Inicial Sistematizada
  1. A-B-C-D-E — Estabilidade hemodinâmica: PA, FC, FR, SpO₂, nível de consciência
  2. MOV — Monitor, Oxímetro, Veia (acesso venoso periférico calibroso 18G ou 16G)
  3. ECG 12 derivações — Em até 10 minutos
  4. História direcionada — Caracterização da dor (OPQRST): Onset, Provocação/Paliação, Qualidade, Radiação, Severidade, Tempo
  5. Exames iniciais — Troponina (alta sensibilidade se disponível), hemograma, eletrólitos, creatinina, coagulograma, radiografia de tórax
Pérola Prática

A dor torácica "típica" de SCA é opressiva, retroesternal, com irradiação para MSE/mandíbula, associada a dispneia e sudorese. Mas até 30% dos IAMs se apresentam com dor atípica — especialmente em mulheres, idosos e diabéticos. Não descarte SCA só porque "a dor não é típica".

Fluxograma de Decisão
Dor Torácica no PS A-B-C-D-E + MOV + ECG 12 derivações ≤10min PA, FC, FR, SpO₂ + acesso venoso 18G Instável? (hipotensão, choque, arritmia) SIM Estabilizar ACLS / Choque NÃO Supra de ST? (ou BRE novo + Sgarbossa ⊕) SIM IAMCSST Cate ≤90min ou Fibrinólise ≤30min NÃO Troponina elevada? SIM IAMSSST Estratificação + Antitrombóticos NÃO Dor sugestiva de SCA? (clínica + risco) SIM Angina Instável Serial troponina NÃO Considerar outras causas de dor torácica Avaliar clínica + exames complementares TEP D-dímero + AngioTC Dissecção Aorta AngioTC / EcoTE Pericardite ECG difuso + Eco Pneumotórax RX / USG POCUS Causa GI DRGE / Espasmo esofágico Musculoesquelética Costocondrite / Trauma Psicogênica Pânico / Ansiedade NUNCA ESQUEÇA As 5 causas que matam: SCA • TEP • Dissecção de Aorta Pneumotórax Hipertensivo • Tamponamento Cardíaco

Diagnósticos Diferenciais

Organizados por sistema e gravidade (do mais grave para o menos grave):

Causas Cardiovasculares (Graves)
DiagnósticoCaracterísticas da DorPistas ClínicasExames-Chave
SCA (IAM / AI) Opressiva, retroesternal, >20min, irradia MSE/mandíbula Sudorese, náusea, dispneia; fatores de risco CV ECG seriado, troponina seriada
Dissecção de Aorta Lancinante ("rasgando"), início abrupto, irradia dorso Assimetria de PA >20mmHg em MMSS, sopro de insuf. aórtica AngioTC de aorta (padrão-ouro)
TEP Pleurítica, súbita, pode ser ventilatório-dependente Taquicardia, hipoxemia, TVP, imobilização recente D-dímero + AngioTC de tórax
Tamponamento Pode não ter dor; dispneia progressiva Tríade de Beck (hipotensão + jugular túrgida + bulhas abafadas) POCUS / Ecocardiograma
Pericardite Ventilatório-dependente, melhora sentado inclinado Atrito pericárdico, febre, pródromos virais ECG (supra difuso côncavo), eco
Causas Pulmonares
DiagnósticoCaracterísticasPistas ClínicasExames
Pneumotórax Pleurítica, início súbito, unilateral MV abolido unilateral, enfisema subcutâneo RX tórax, USG (ausência de deslizamento pleural)
Pneumonia Pleurítica, associada a tosse Febre, crepitações, expectoração purulenta RX tórax, hemograma, PCR
Pleurite Ventilatório-dependente, bem localizada Atrito pleural, pode ter derrame RX tórax, USG, análise de líquido
Causas Gastrointestinais
DiagnósticoCaracterísticasPistas Clínicas
DRGE / Espasmo esofágico Queimação retroesternal, piora pós-prandial, pode simular SCA Alívio com antiácidos, relação com alimentação
Ruptura de Esôfago (Boerhaave) Dor torácica intensa após vômitos forçados Enfisema subcutâneo cervical, mediastinite — EMERGÊNCIA CIRÚRGICA
Causas Musculoesqueléticas e Outras
DiagnósticoCaracterísticasComo Diferenciar
Costocondrite Reprodutível à palpação, bem localizada Piora com movimento/respiração, sem alteração em exames complementares
Herpes Zóster Dor em faixa, unilateral, dermatomérica Vesículas agrupadas (podem surgir após a dor), não cruza linha média
Transtorno de Pânico Dor difusa, associada a parestesias, tremor, sensação de morte Diagnóstico de EXCLUSÃO — só após afastar causas orgânicas
Red Flags — Sinais de Alarme em Dor Torácica
  • Dor início súbito, intensidade máxima imediata → pensar dissecção de aorta
  • Hipotensão + jugular túrgida → tamponamento ou TEP maciço
  • Supra de ST ao ECG → IAMCSST (ativar protocolo de reperfusão)
  • Assimetria de PA em MMSS >20mmHg → dissecção de aorta
  • Dispneia + hipoxemia desproporcional → TEP
  • Enfisema subcutâneo → pneumotórax ou ruptura esofágica
  • MV abolido unilateral + instabilidade → pneumotórax hipertensivo (descompressão imediata)
Pérola Prática

DRGE pode "aliviar com nitrato sublingual" — o nitrato relaxa o esfíncter esofagiano. Esse alívio NÃO confirma origem cardíaca. Da mesma forma, a dor que piora à palpação NÃO exclui SCA: até 15% dos pacientes com IAM têm componente de parede torácica reprodutível.


Conduta Inicial — Dor Torácica Indiferenciada
Medidas Imediatas (Primeiros 10 Minutos)
  1. Monitorização contínua: cardioscópio, oximetria, PA não-invasiva
  2. Acesso venoso periférico calibroso (18G ou 16G) — preferencialmente em MSE
  3. ECG 12 derivações — laudar ou buscar alterações: supra ST, infra ST, inversão T, BRE novo (aplicar critérios de Sgarbossa modificados se BRE)
  4. O₂ suplementar APENAS se SpO₂ <90% (ESC 2023 / AHA 2023). Nota: SBC 2021 usa limiar mais conservador de <94% — verificar protocolo institucional
  5. AAS 200–300mg VO (mastigar) se suspeita de SCA e sem contraindicação
Exames Complementares Iniciais
ExameJustificativaObservação
ECG 12 derivações Detectar SCA (supra/infra ST), arritmias, sobrecarga de VD (TEP) Repetir em 15-30min se ECG inicial normal e suspeita persiste; V3R-V4R se IAM inferior
Troponina Confirmar lesão miocárdica Troponina de alta sensibilidade: 0h e 1h (ou 0h e 3h). Curva ascendente define IAM
RX Tórax Pneumotórax, derrame, mediastino alargado, congestão Mediastino alargado → suspeitar dissecção (sensibilidade ~60%)
D-dímero Screening TEP (se probabilidade baixa-intermediária) Ajustado pela idade (>50 anos): corte = idade × 10. Não solicitar se alta probabilidade clínica
Hemograma + bioquímica Anemia, distúrbios eletrolíticos, função renal Creatinina é essencial antes de qualquer contraste iodado
Gasometria arterial Hipoxemia, hipocapnia (TEP), acidose (choque) Não é obrigatória em todos — solicitar se SpO₂ <94% ou dispneia significativa
POCUS (Point-of-Care US) Derrame pericárdico, disfunção VD, pneumotórax, hipovolemia Ferramenta fundamental no PS — se disponível, usar precocemente
Dica — Estratificação de Risco na Dor Torácica

HEART Score (History, ECG, Age, Risk factors, Troponin) — ferramenta validada para decisão de alta vs internação em dor torácica com suspeita de SCA:

  • 0–3 pontos: baixo risco (MACE <2%) → considerar alta com seguimento ambulatorial
  • 4–6 pontos: risco intermediário → observação, troponina seriada, avaliação cardiológica
  • 7–10 pontos: alto risco → internação, terapia antitrombótica, estratégia invasiva precoce
Quando Chamar o Especialista
  • Cardiologia: SCA confirmada ou de alto risco, arritmia instável, IC descompensada nova, tamponamento
  • Cirurgia Cardíaca / Vascular: dissecção de aorta (emergência), tamponamento traumático
  • Cirurgia Torácica: pneumotórax que necessita drenagem, suspeita de ruptura esofágica
  • Hemodinâmica (Cate): IAMCSST (ativar código infarto — cate ≤90min)
Critérios de Internação vs Alta
InternarConsiderar Alta
Qualquer SCA confirmada (supra, troponina positiva) HEART Score ≤3 + troponina seriada negativa + ECG normal
Instabilidade hemodinâmica Dor reprodutível à palpação + exames normais + baixo risco CV
ECG com alterações agudas Causa claramente não-cardíaca identificada e tratada
TEP confirmado Observação ≥6h sem eventos + reavaliação normal
Dissecção de aorta (mesmo suspeita forte)
Alerta — Erro Comum

Paciente jovem com "ansiedade" e dor torácica: NUNCA dê alta com diagnóstico de pânico sem antes excluir TEP, SCA e pneumotórax. Mulheres jovens em uso de anticoncepcional têm risco aumentado de TEP. O diagnóstico de transtorno de pânico no PS é de exclusão.


Prescrições — Abordagem Inicial da Dor Torácica

As prescrições abaixo referem-se à abordagem inespecífica inicial. Prescrições específicas para cada diagnóstico (SCA, TEP, dissecção, etc.) estão nos temas dedicados.

Ácido Acetilsalicílico (AAS)
Aspirina®, AAS®, Somalgin® — Genérico disponível
Apresentação
Comprimido 100mg e 500mg
Dose
200–300mg VO (mastigar e engolir — absorção mais rápida via mucosa oral)
Via
Via oral (mastigar). Se vômitos: AAS 300mg retal (supositório — pouco disponível no Brasil)
Intervalo
Dose de ataque única; manutenção: 100mg/dia VO
Dose Máxima
300mg (ataque); 100mg/dia (manutenção)
Contraindicações
Hipersensibilidade ao AAS; sangramento ativo; úlcera péptica ativa; suspeita de dissecção aórtica (não usar até excluir); hemofilia
Ajuste Renal
Evitar se ClCr <10 mL/min. Sem ajuste necessário em ClCr >30
Interações
Aumenta risco de sangramento com heparina e anticoagulantes orais; reduz efeito de IECA (modesto); metotrexato (risco de toxicidade)
Pérola Prática

O AAS mastigado atinge pico plasmático em ~15min vs ~60min engolido inteiro. Na suspeita de SCA, SEMPRE peça para mastigar. Se o paciente só tem AAS infantil (100mg), dê 2–3 comprimidos mastigados.

Dinitrato de Isossorbida
Isordil® — Genérico disponível
Apresentação
Comprimido sublingual 5mg
Dose
5mg sublingual; repetir a cada 5 minutos se dor persistir (máx 3 doses = 15mg)
Via
Sublingual (não engolir)
Intervalo
A cada 5 minutos (máximo 3 doses em 15 minutos)
Dose Máxima
15mg em 15 minutos (3 comprimidos)
Contraindicações
PAS <90mmHg ou queda >30mmHg da basal; uso de inibidor de PDE5 nas últimas 24h (sildenafil/vardenafil) ou 48h (tadalafil); IAM de VD (verificar V3R/V4R); estenose aórtica grave
Ajuste Renal
Sem necessidade de ajuste
Interações
CONTRAINDICAÇÃO ABSOLUTA com sildenafil (Viagra®), tadalafil (Cialis®), vardenafil (Levitra®) — risco de hipotensão refratária e fatal. SEMPRE perguntar.
Alerta Crítico

PERGUNTE ATIVAMENTE sobre uso de sildenafil ou similares. Muitos pacientes (especialmente homens >50 anos com fatores de risco CV) usam e não relatam espontaneamente. A interação com nitrato pode causar hipotensão fatal.

Morfina (Sulfato de Morfina)
Dimorf®, Morphina® — Genérico disponível
Apresentação
Ampola 1mg/mL (2mL = 2mg) e ampola 10mg/mL (1mL = 10mg)
Dose
2–4mg EV lento (em 1-2 minutos); repetir a cada 5-15min se dor persistir
Diluição
Diluir 1 ampola de 10mg em 9mL de SF 0,9% → solução 1mg/mL. Aplicar 2–4mL EV lento.
Via
Endovenosa (preferencial) ou subcutânea
Intervalo
A cada 5–15 minutos conforme resposta
Dose Máxima
10–15mg no PS (vigilância respiratória). Idosos: iniciar com 1–2mg
Contraindicações
Hipotensão (PAS <90mmHg); depressão respiratória; rebaixamento de consciência; DPOC descompensado; IAM de VD (bradicardia + hipotensão)
Ajuste Renal
ClCr <30: reduzir dose em 50% e aumentar intervalo. Diálise: usar com cautela extrema (metabólito ativo M6G acumula)
Interações
Potencializa depressão respiratória com benzodiazepínicos; hipotensão com anti-hipertensivos; sedação com outros opioides
Pérola Prática

As diretrizes recentes (AHA 2023, ESC 2023) têm reduzido a recomendação de morfina na SCA — estudos sugerem que a morfina retarda a absorção de antiplaquetários orais (ticagrelor, clopidogrel). Use com parcimônia; considere fentanil como alternativa se analgesia intensa for necessária. A morfina continua indicada para dor refratária a nitratos.

Oxigênio Suplementar
O₂ medicinal
Apresentação
Cilindro/rede de O₂; cateter nasal, máscara facial, máscara com reservatório
Dose
Cateter nasal: 1–6 L/min. Máscara com reservatório: 10–15 L/min.
Via
Inalatória
Indicação
APENAS se SpO₂ <90% ou sinais de hipoxemia. NÃO usar rotineiramente em SCA.
Alvo
SpO₂ entre 94–98%. Em DPOC: 88–92%
Contraindicações
Hiperóxia (SpO₂ >98%) — associada a vasoconstrição coronariana e aumento de mortalidade em IAM (estudo AVOID, DETO2X-AMI)
Dica

O paradigma mudou: o "MONAB" (Morfina-Oxigênio-Nitrato-AAS-Beta-bloqueador) perdeu o "O" e o "M" como rotina. O₂ só se SpO₂ <90%, e morfina com parcimônia. Foque no AAS + nitrato + heparina + dupla antiagregação na SCA.

Metoprolol (Tartarato)
Seloken® — Genérico disponível
Apresentação
Ampola 5mg/5mL (1mg/mL) — EV. Comprimido 25mg, 50mg, 100mg — VO.
Dose EV
5mg EV lento (em 2 minutos), repetir a cada 5min até 3 doses (máx 15mg EV).
Dose VO
25–50mg VO de 12/12h (iniciar após estabilização hemodinâmica)
Diluição
Não precisa diluir; administrar direto EV lento
Via
EV (urgência) ou VO (manutenção)
Dose Máxima
15mg EV (3 doses); 200mg/dia VO
Contraindicações
FC <60bpm; PAS <100mmHg; BAV 2º/3º grau; IC descompensada aguda (Killip ≥II); asma/broncoespasmo ativo; uso recente de cocaína (risco de espasmo coronariano paradoxal)
Ajuste Renal
Sem necessidade de ajuste (metabolização hepática)
Interações
Bradicardia aditiva com verapamil/diltiazem (EVITAR COMBINAÇÃO EV); potencializa hipotensão com nitratos; pode mascarar hipoglicemia em diabéticos
Pérola Prática

Na SCA, o beta-bloqueador NÃO deve ser dado nas primeiras horas se há sinais de IC, instabilidade hemodinâmica ou uso de cocaína. Use nas primeiras 24h apenas se o paciente está estável e com FC/PA adequadas. Na dúvida, comece VO com dose baixa (25mg) em vez de EV.


Referências — Dor Torácica:
ESC Guidelines for the management of acute coronary syndromes, 2023. | AHA/ACC Guideline for the Evaluation and Diagnosis of Chest Pain, 2021 (reafirmado 2023). | SBC — V Diretriz de Dor Torácica na Sala de Emergência, 2021. | HEART Score: Backus BE et al., Int J Cardiol 2013. | AVOID Trial (O₂ in STEMI): Stub D et al., Circulation 2015. | DETO2X-AMI Trial: Hofmann R et al., NEJM 2017. | ESC Guidelines on Acute Pulmonary Embolism, 2019 (atualização 2024). | SBC — Diretriz Brasileira de Síndrome Coronariana Aguda sem Supradesnível do Segmento ST, 2021.
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Síndromes Coronarianas Agudas
Síndromes Coronarianas Agudas — Visão Geral

As síndromes coronarianas agudas (SCA) representam um espectro de isquemia miocárdica aguda causada por instabilidade de placa aterosclerótica. A classificação inicial é feita pelo ECG de 12 derivações, que divide os pacientes em dois grandes grupos de manejo distinto:

ClassificaçãoECGTroponinaFisiopatologia
IAMCSST Supra de ST ≥1mm em 2 derivações contíguas (≥2mm em V1-V3) ou BRE novo com critérios de Sgarbossa modificados (Smith) positivos — BRE isolado NÃO é mais indicação automática de reperfusão (ESC 2023) Elevada (curva ascendente) Oclusão total da coronária → necrose transmural
IAMSSST Infra ST, inversão T, ou ECG normal/inespecífico Elevada (curva ascendente) Oclusão subtotal ou embolização distal → necrose subendocárdica
Angina Instável Pode ter infra ST, inversão T, ou ser normal Normal (seriada) Trombose parcial sem necrose detectável
Alerta — Tempo é Músculo

No IAMCSST, cada minuto de atraso na reperfusão aumenta a área de necrose. Metas: porta-balão ≤90 minutos (ICP primária) ou porta-agulha ≤30 minutos (fibrinolítico, se ICP indisponível em ≤120min). O ECG deve ser feito e laudado em ≤10 minutos da chegada.

Critérios Eletrocardiográficos de Supra de ST
DerivaçõesCritério de SupraParede / Artéria Provável
V1–V4≥2mm em homens ≥40a; ≥2,5mm em homens <40a; ≥1,5mm em mulheresAnterior / DA
V5–V6, DI, aVL≥1mm em 2 derivações contíguasLateral / Cx
DII, DIII, aVF≥1mm em 2 derivações contíguasInferior / CD
V3R–V4R≥0,5mm (≥1mm em homens <30a)VD / CD proximal
V7–V9≥0,5mmPosterior / Cx ou CD
Pérola Prática

IAM inferior (DII, DIII, aVF): SEMPRE faça V3R e V4R para avaliar extensão ao VD. Se supra em V3R/V4R → IAM de VD: evite nitratos e diuréticos (dependente de pré-carga), faça volume com SF 0,9% e considere dobutamina se choque.

Fluxograma de Manejo — SCA
Suspeita de SCA AAS 200-300mg + ECG ≤10min + Troponina Supra de ST ou BRE + Sgarbossa ⊕? SIM IAMCSST Reperfusão urgente ICP ≤120min? SIM ICP Primária Porta-balão ≤90min NÃO Fibrinolítico Porta-agulha ≤30min Reperfusão? (critérios 60-90min) SIM Cate 2–24h NÃO ICP Resgate Imediata NÃO SCA sem supra de ST Troponina seriada 0h/1h ou 0h/3h Troponina positiva (curva)? SIM IAMSSST Antitrombóticos Muito alto risco? (instável, choque, arritmia) SIM Cate <2h NÃO Alto risco? (GRACE >140) SIM Cate <24h NÃO Cate eletivo ou teste funcional NÃO Angina Instável ou dor torácica não-SCA Estratificação de Risco HEART Score + GRACE + clínica DUPLA ANTIAGREGAÇÃO em toda SCA confirmada AAS + P2Y12 (ticagrelor ou clopidogrel) + anticoagulação (heparina)

IAMCSST — Infarto com Supradesnível de ST
Diagnóstico

Dor torácica isquêmica (≥20min) + supra de ST no ECG (critérios acima) ou BRE presumivelmente novo. Não é necessário aguardar troponina para iniciar reperfusão.

Conduta — Reperfusão
EstratégiaIndicaçãoMeta de Tempo
ICP Primária (1ª escolha) Sempre que disponível dentro do tempo-alvo Porta-balão ≤90min (≤120min se transferência)
Fibrinolítico ICP indisponível em ≤120min + sintomas ≤12h Porta-agulha ≤30min
Contraindicações Absolutas à Fibrinólise
  • AVCh prévio em qualquer tempo ou AVCI nos últimos 3 meses
  • Neoplasia intracraniana ou malformação AV cerebral
  • Sangramento ativo (exceto menstruação)
  • Suspeita de dissecção de aorta
  • Trauma craniano/facial significativo nos últimos 3 meses
  • Cirurgia intracraniana ou intraespinhal nos últimos 2 meses
Critérios de Reperfusão Pós-Fibrinolítico (avaliar em 60–90min)
  • Redução ≥50% do supra de ST na derivação com maior elevação
  • Melhora ou resolução da dor torácica
  • Arritmia de reperfusão (RIVA — ritmo idioventricular acelerado)
  • Pico precoce de troponina/CK-MB

Se sem critérios de reperfusão → ICP de resgate imediata. Se reperfusão bem-sucedida → cateterismo em 2–24h (estratégia farmacoinvasiva).

Medidas Adjuvantes — IAMCSST
  1. AAS 200–300mg mastigado (já administrado na chegada)
  2. Inibidor P2Y12: Ticagrelor 180mg (ataque) VO — preferencial; ou Clopidogrel 300mg (600mg se ICP) VO
  3. Anticoagulação: Heparina não-fracionada (HNF) EV se ICP; Enoxaparina se fibrinolítico
  4. Nitrato SL (se PAS ≥90, sem uso de PDE5, sem IAM de VD)
  5. Beta-bloqueador VO nas primeiras 24h (se estável, sem Killip ≥II, FC >60, PAS >100)
  6. IECA/BRA iniciar nas primeiras 24h (especialmente se FE reduzida, IC, DM)
  7. Estatina de alta potência: Atorvastatina 80mg ou Rosuvastatina 40mg (iniciar precocemente)
Pérola Prática

Na UPA sem hemodinâmica: administre AAS + clopidogrel (não ticagrelor — pois se o paciente for para fibrinolítico, ticagrelor não é recomendado com trombolítico) + enoxaparina + tenecteplase. Transfira após estabilização. Essa é a realidade de muitos municípios brasileiros.

Dica — IAM de Parede Inferior + VD

Se supra em DII, DIII, aVF → solicitar V3R e V4R. Se positivo para VD: contraindicados nitratos, diuréticos e morfina (reduzem pré-carga). Tratamento: SF 0,9% em bolus (250mL em 10–15min, repetir até PAS >90) + dobutamina se refratário. Evitar betabloqueador se bradicardia.


IAMSSST — Infarto sem Supradesnível de ST
Diagnóstico

Dor torácica isquêmica + troponina elevada com curva ascendente (delta significativo entre 0h e 1h ou 0h e 3h) + ECG sem supra persistente (pode ter infra ST, inversão T, ou ser normal).

Protocolo de Troponina de Alta Sensibilidade (hs-cTn)
Algoritmo0h1h (ou 3h)Decisão
Rule-out Muito baixa (<5 ng/L) Delta <3 ng/L IAM excluído com segurança (VPN >99%)
Rule-in Elevada ou Delta ≥valor de corte* IAM confirmado → conduta de IAMSSST
Zona cinzenta Intermediária Delta intermediário Observação + nova troponina em 3h + estratificação

*Valores de corte variam conforme o ensaio (Abbott, Roche, Siemens). Consulte o valor de referência do seu laboratório.

Estratificação de Risco — Timing do Cateterismo
CategoriaCritériosTiming Cate
Muito alto risco Instabilidade hemodinâmica, choque cardiogênico, dor refratária, arritmia com risco de vida, IC aguda, infra ST >1mm em ≥6 derivações + supra aVR/V1 <2 horas (ESC 2023: estratégia invasiva imediata)
Alto risco Troponina com curva (IAMSSST confirmado), alterações dinâmicas de ST/T, GRACE >140 <24 horas
Risco intermediário DM, IRC (ClCr <60), FEVE <40%, angina pós-IAM prévio, ICP/CRVM prévias, GRACE 109–140 <72 horas
Baixo risco Nenhum dos critérios acima Teste funcional não-invasivo ou cate eletivo
Pérola Prática

GRACE Score: use a calculadora (MDCalc ou app). Os parâmetros são: idade, FC, PAS, creatinina, Killip, PCR na admissão, infra ST, troponina positiva. Score >140 = alto risco = cate em <24h. É superior ao TIMI Risk Score para estratificação de SCASSST.

Conduta Farmacológica — IAMSSST / Angina Instável
  1. AAS 200–300mg (ataque) → 100mg/dia (manutenção)
  2. Ticagrelor 180mg (ataque) → 90mg 12/12h — preferencial (ESC 2023); ou Clopidogrel 300–600mg (ataque) → 75mg/dia — se contraindicação ao ticagrelor ou alto risco de sangramento
  3. Anticoagulação: Enoxaparina 1mg/kg SC 12/12h (1ª escolha) ou HNF EV (se ICP planejada em <24h ou ClCr <15)
  4. Nitrato SL para alívio da dor (mesmas contraindicações do IAMCSST)
  5. Beta-bloqueador VO precoce (se estável)
  6. Estatina de alta potência precoce
  7. IECA/BRA (iniciar nas primeiras 24h se indicado)
Atualização AHA/ACC 2025 — Antiagregação

Ticagrelor ou prasugrel são os P2Y12 preferidos (Classe I, sem distinção entre eles). Clopidogrel apenas se contraindicação, intolerância ou custo. De-escalação: monoterapia com ticagrelor após 1 mês de DAPT é aceitável em alto risco de sangramento (AHA/ACC 2025). DAPT padrão: 1 ano pós-SCA.


Angina Instável

Dor torácica isquêmica (repouso, progressiva, ou de início recente) com troponina negativa seriada e ECG sem supra. É uma SCA sem necrose miocárdica detectável.

Critérios Diagnósticos (Braunwald)
ClasseApresentação
IAngina de início recente (<2 meses), grave, ≥3 episódios/dia, ou angina progressiva (mais frequente, mais duradoura, menor limiar)
IIAngina de repouso subaguda (último mês, mas não nas últimas 48h)
IIIAngina de repouso aguda (nas últimas 48h)

A conduta farmacológica é idêntica ao IAMSSST. A diferença é no timing do cateterismo: angina instável de baixo risco pode ser manejada com estratégia não-invasiva (teste funcional).

Critérios de Alta Segura (após observação)
  • HEART Score ≤3
  • Troponina seriada negativa (protocolo 0h/1h ou 0h/3h)
  • ECG sem alterações dinâmicas
  • Dor resolvida sem recorrência em observação ≥6h
  • Sem sinais de IC, arritmia ou instabilidade hemodinâmica

Alta com: AAS 100mg/dia + encaminhamento para cardiologia em ≤72h + orientação de retorno se recorrência.


Prescrições — Síndromes Coronarianas Agudas
Ticagrelor
Brilinta® — Verificar disponibilidade local de genérico (registro ANVISA a partir de 2024)
Apresentação
Comprimido 90mg
Dose
Ataque: 180mg VO (2 comprimidos). Manutenção: 90mg VO 12/12h
Via
Via oral (pode ser macerado e administrado via SNG se necessário)
Intervalo
12/12 horas
Dose Máxima
180mg/dia (manutenção)
Contraindicações
Sangramento ativo; AVCh prévio; insuficiência hepática grave (Child-Pugh C); uso concomitante de inibidores potentes de CYP3A4 (cetoconazol, itraconazol, ritonavir); bradicardia sintomática sem marcapasso
Ajuste Renal
Não necessita ajuste renal (inclusive em diálise)
Interações
Sinvastatina/lovastatina >40mg (aumenta risco de rabdomiólise); digoxina (aumenta nível sérico — monitorar); inibidores CYP3A4 potentes — CONTRAINDICADOS
Pérola Prática

Ticagrelor causa dispneia em ~14% dos pacientes (mediada por adenosina — é benigna, mas assusta). Oriente o paciente ANTES. Se intolerável, trocar para clopidogrel. Outra queixa: pausas ventriculares assintomáticas — evitar em pacientes com doença do nó sinusal sem marcapasso. NÃO usar com fibrinolítico.

Clopidogrel
Plavix® — Genérico disponível
Apresentação
Comprimido 75mg
Dose
Ataque: 300mg VO (4 comp) — se SCASSST. 600mg se ICP planejada. 300mg se fibrinolítico (≤75 anos); 75mg se >75 anos (sem dose de ataque). Manutenção: 75mg/dia.
Via
Via oral
Intervalo
1x/dia
Dose Máxima
600mg (ataque); 75mg/dia (manutenção)
Contraindicações
Sangramento ativo; hipersensibilidade; insuficiência hepática grave
Ajuste Renal
Sem ajuste necessário (experiência limitada em ClCr <15)
Interações
Omeprazol/esomeprazol — reduzem efeito do clopidogrel (inibição CYP2C19). Preferir pantoprazol como IBP. Aumenta risco de sangramento com anticoagulantes.
Pérola Prática

Cerca de 15–30% dos brasileiros são metabolizadores lentos de CYP2C19, o que torna o clopidogrel ineficaz. Se possível, prefira ticagrelor. Se usar clopidogrel, lembre: omeprazol NÃO, pantoprazol SIM. O clopidogrel é a escolha quando o paciente vai receber fibrinolítico.

Enoxaparina
Clexane® — Genérico disponível
Apresentação
Seringa pré-carregada: 20mg/0,2mL, 40mg/0,4mL, 60mg/0,6mL, 80mg/0,8mL
Dose SCA
1mg/kg SC 12/12h (dose plena anticoagulante). Em IAMCSST com fibrinolítico: bolus 30mg EV + 1mg/kg SC 12/12h
Via
Subcutânea (abdome). Bolus inicial: EV direto (sem diluir)
Intervalo
12/12 horas
Dose Máxima
100mg por dose (dose plena) — pesar o paciente!
Contraindicações
Sangramento ativo; plaquetas <50.000; HIT (trombocitopenia induzida por heparina); hipersensibilidade a heparina; endocardite bacteriana aguda (relativa)
Ajuste Renal
ClCr 15–30: 1mg/kg SC 1x/dia (não 12/12h). ClCr <15 ou diálise: usar HNF em vez de enoxaparina. >75 anos com fibrinolítico: sem bolus EV, 0,75mg/kg SC 12/12h (máx 75mg/dose)
Interações
Aumenta sangramento com AAS, clopidogrel, ticagrelor (esperado na SCA — monitorar); AINEs (evitar); dextrano
Pérola Prática

Em obesos (>120kg), a dose padrão pode ser insuficiente — considere monitorar anti-Xa. Em idosos >75 anos + fibrinolítico: sem bolus EV e dose reduzida (0,75mg/kg). Erro comum: não ajustar para função renal. SEMPRE checar ClCr antes da enoxaparina.

Heparina Não-Fracionada (HNF)
Hepamax®, Heparina Sódica® — Genérico disponível
Apresentação
Frasco-ampola 5.000 UI/mL (5mL = 25.000 UI). Também: 5.000 UI/0,25mL (SC profilática)
Dose SCA
Bolus: 60 UI/kg EV (máx 4.000 UI) + Infusão: 12 UI/kg/h (máx 1.000 UI/h). Alvo TTPa: 50–70 segundos (1,5–2,0× controle — AHA/ACC 2025). ⚠ Dose diferente no TEP (80 UI/kg + 18 UI/kg/h) — ver Tema 11.
Diluição
25.000 UI em 250mL SF 0,9% = 100 UI/mL. Para paciente de 70kg: cálculo = 4.200 UI, porém máx 4.000 UI → 40mL da solução EV; infusão ~840 UI/h → 8,4 mL/h
Via
Endovenosa (contínua em BIC)
Intervalo
Contínua. TTPa de controle em 6h após início/ajuste
Dose Máxima
Bolus: 4.000 UI. Infusão inicial: 1.000 UI/h. Titular conforme TTPa
Contraindicações
Sangramento ativo; HIT; plaquetas <50.000; hipersensibilidade
Ajuste Renal
Não precisa ajuste (metabolização pelo sistema reticuloendotelial). É a preferência sobre enoxaparina em ClCr <15 ou diálise
Interações
Aumenta sangramento com todos os antitrombóticos; antídoto: protamina (1mg neutraliza ~100 UI de heparina)
Dica — Protocolo de Ajuste TTPa

TTPa <35s: bolus 80 UI/kg + aumentar 4 UI/kg/h. 35–45s: bolus 40 UI/kg + aumentar 2 UI/kg/h. 46–70s: sem alteração. 71–90s: reduzir 2 UI/kg/h. >90s: parar 1h e reiniciar com redução de 3 UI/kg/h. Coletar TTPa 6h após cada ajuste.

Tenecteplase (TNK-tPA)
Metalyse® — Sem genérico
Apresentação
Frasco-ampola com pó liofilizado 40mg ou 50mg + diluente (10mL)
Dose
Ajustada por peso: <60kg: 30mg | 60–69kg: 35mg | 70–79kg: 40mg | 80–89kg: 45mg | ≥90kg: 50mg. Em >75 anos: metade da dose (ESC 2023).
Diluição
Reconstituir com o diluente fornecido (10mL). Concentração: 5mg/mL (ampola 50mg) ou 4mg/mL (40mg).
Via
EV em bolus único (5–10 segundos). Dose única — não repetir.
Intervalo
Dose única
Dose Máxima
50mg (25mg se >75 anos)
Contraindicações
Ver lista de contraindicações absolutas e relativas à fibrinólise (acima). Acrescentar: coagulopatia conhecida, gestação, punção vascular não-compressível recente
Ajuste Renal
Sem ajuste necessário
Interações
Risco aumentado de sangramento com qualquer antitrombótico (esperado — usar com enoxaparina ou HNF conforme protocolo). NÃO usar com ticagrelor ou prasugrel — usar clopidogrel como P2Y12
Pérola Prática

Tenecteplase é o fibrinolítico de escolha no Brasil (bolus único, mais prático que alteplase). Na UPA, tenha sempre um kit montado: Tenecteplase + AAS + Clopidogrel 300mg + Enoxaparina (bolus 30mg EV + 1mg/kg SC). Administre e transfira. Em >75 anos: meia-dose de TNK é opção na estratégia farmacoinvasiva (evidência STREAM-2 / ESC 2023). Nota: AHA/ACC 2025 recomenda dose plena por peso para todos os pacientes — meia-dose se aplica especificamente ao protocolo STREAM (fibrinolítico + ICP de resgate).

Atorvastatina
Lipitor®, Citalor® — Genérico disponível
Apresentação
Comprimido 10mg, 20mg, 40mg, 80mg
Dose
80mg VO 1x/dia (alta intensidade — iniciar precocemente na SCA)
Via
Via oral (qualquer horário, independente das refeições)
Intervalo
1x/dia
Dose Máxima
80mg/dia
Contraindicações
Hepatopatia ativa ou transaminases >3× LSN persistentes; gestação/lactação; hipersensibilidade
Ajuste Renal
Sem ajuste necessário
Interações
Ciclosporina, fibratos (risco de rabdomiólise); inibidores CYP3A4 potentes (claritromicina, itraconazol) — risco aumentado de miopatia; se usar com ticagrelor, evitar dose >40mg de sinvastatina (interação CYP3A4 — atorvastatina é segura)
Dica

Alternativa de alta potência: Rosuvastatina 20–40mg (Crestor® — genérico disponível). Ambas são equivalentes em alta intensidade. A estatina na SCA tem efeito pleiotrópico (estabilização de placa) além da redução lipídica — iniciar independente do LDL basal.

Fondaparinux
Arixtra® — Sem genérico no Brasil (verificar disponibilidade institucional; uso predominantemente hospitalar).
Apresentação
Seringa pré-carregada 2,5mg/0,5mL
Dose
2,5mg SC 1x/dia
Via
Subcutânea
Intervalo
1x/dia
Dose Máxima
2,5mg/dia (dose única)
Contraindicações
Sangramento ativo; peso <50kg (risco hemorrágico aumentado); HIT; endocardite bacteriana. ClCr <20 mL/min: contraindicação relativa (avaliar risco-benefício individual)
Ajuste Renal
ClCr <20: contraindicação relativa — avaliar risco-benefício, monitorar clearance renal. ClCr 20–50: usar com cautela (sem ajuste de dose). >50: sem ajuste
Interações
Aumenta sangramento com todos antitrombóticos. Se ICP planejada: associar bolus de HNF durante procedimento (risco de trombose de cateter com fondaparinux isolado)
Pérola Prática

O fondaparinux 2,5mg é a opção com menor risco de sangramento entre os anticoagulantes na SCA (estudo OASIS-5). Indicado especialmente em SCASSST de manejo conservador. Porém, não pode ser usado como anticoagulante isolado na ICP (necessário bolus de HNF adicional). Disponibilidade variável no SUS e em UPAs.


Referências — Síndromes Coronarianas Agudas:
ESC Guidelines for the management of acute coronary syndromes, 2023 (Byrne RA et al., Eur Heart J 2023). | AHA/ACC Guideline for the Management of Patients with Acute Myocardial Infarction, 2023 update. | 2025 ACC/AHA/ACEP/NAEMSP/SCAI Guideline for ACS (Circulation 2025). — DAPT default 1 ano; ticagrelor/prasugrel preferidos (Classe I); monoterapia com ticagrelor após 1 mês de DAPT (alto risco sangramento). | SBC — Diretriz Brasileira de Síndrome Coronariana Aguda com Supradesnível do Segmento ST, 2019. | SBC — Diretriz Brasileira de SCA sem Supradesnível do Segmento ST, 2021. | ESC Algorithm 0h/1h hs-cTn: Collet JP et al., Eur Heart J 2021. | STREAM-2 Trial (meia-dose TNK em idosos): Armstrong PW et al., NEJM 2023. | OASIS-5 (fondaparinux): Yusuf S et al., NEJM 2006. | PLATO Trial (ticagrelor vs clopidogrel): Wallentin L et al., NEJM 2009. | GRACE Risk Score: Fox KA et al., BMJ 2006.
3
Arritmias Cardíacas
Arritmias Cardíacas — Abordagem no PS

O paciente chega ao PS com palpitação, síncope, pré-síncope, dispneia ou parada cardíaca. A primeira decisão é: está estável ou instável? A segunda: a frequência é rápida (taquiarritmia) ou lenta (bradiarritmia)? A terceira, para taquiarritmias: o QRS é estreito ou largo?

Sinais de Instabilidade — CVE Imediata

Se qualquer taquiarritmia com sinais de instabilidade, a conduta é cardioversão elétrica sincronizada imediata (não perca tempo tentando descobrir o ritmo):

  • Hipotensão (PAS <90mmHg) ou sinais de choque
  • Dor torácica isquêmica (angina ativa)
  • Dispneia grave / edema agudo de pulmão
  • Rebaixamento do nível de consciência
Avaliação Inicial Sistematizada
  1. ABCDE + MOV — monitorização contínua, oximetria, acesso venoso
  2. ECG 12 derivações — fundamental para classificação da arritmia
  3. Identificar estabilidade hemodinâmica — PA, perfusão, nível de consciência
  4. Determinar FC: >100 bpm = taquiarritmia; <50 bpm = bradiarritmia
  5. Analisar QRS: estreito (<120ms) vs largo (≥120ms)
  6. Ritmo regular vs irregular
  7. Buscar causas reversíveis: distúrbios eletrolíticos (K⁺, Mg²⁺, Ca²⁺), hipóxia, febre/sepse, dor, hipovolemia, drogas/medicamentos, hipertireoidismo
Fluxograma — Taquiarritmias no PS
Taquiarritmia (FC >100 bpm) ECG 12 derivações + MOV Instável? (choque, angina, EAP, RNC) SIM CVE Sincronizada Sedação + choque NÃO QRS ≥120ms? (largo?) NÃO (estreito) QRS estreito <120ms Regular? SIM Manobra Vagal → Adenosina se falha Reverteu? SIM TRN / WPW Curada ou BB/BCC NÃO Flutter / TA focal Controle FC + tratar causa NÃO FA Controle FC ou ritmo CHA₂DS₂-VASc SIM (largo) QRS largo ≥120ms Regular? SIM TV Monomórfica Amiodarona ou Procainamida / CVE NÃO Irregular largo FA + aberrância ou FA pré-excitada TV Polimórfica Se Torsades → MgSO₄ REGRA DE OURO — QRS LARGO Na dúvida entre TV e TSV com aberrância: TRATE COMO TV. Tratar TV como TSV pode matar.
Fluxograma — Bradiarritmias no PS
Bradiarritmia (FC <50 bpm) ECG 12 derivações + MOV Sintomática? (hipotensão, síncope, IC) NÃO Observação Monitorizar + causa SIM Atropina 1mg EV Repetir a cada 3–5min (máx 3mg) Respondeu? SIM Monitorizar Tratar causa de base NÃO 2ª Linha (enquanto aguarda MP) Adrenalina 2–10 mcg/min EV contínuo OU Dopamina 5–20 mcg/kg/min Marcapasso Transcutâneo Iniciar 60–80mA, titular até captura Sedar/analgesia → MP transvenoso definitivo

Taquiarritmias — Classificação e Conduta
Cardioversão Elétrica Sincronizada (CVE) — Paciente Instável
ArritmiaEnergia Inicial (Bifásico)Observação
TSV / Flutter50–100JSincronizada. Se flutter não reverte com 50J, aumentar
FA120–200JSincronizada. Energia mais alta que TSV
TV monomórfica100JSincronizada. Escalar se não reverter
TV polimórfica / FV200J (desfibrilação)NÃO sincronizada (tratar como FV/PCR)
Dica — Sedação para CVE

Antes da CVE em paciente com consciência preservada: Propofol 0,5–1mg/kg EV (onset ~30s) ou Midazolam 2–5mg + Fentanil 50–100mcg EV. Ter material de via aérea preparado (VBM, laringoscópio, TOT). Em extrema urgência com instabilidade grave, não atrase a CVE para sedar.

Fibrilação Atrial (FA) — Atualizado ESC 2024

Arritmia sustentada mais comum. QRS estreito, ritmo irregularmente irregular, ausência de ondas P organizadas.

AF-CARE Pathway (ESC 2024)

Nova abordagem estruturada para todo paciente com FA:

  • C — Comorbidity: tratar HAS, IC, obesidade, DM, apneia do sono, etilismo
  • A — Avoid stroke: anticoagulação conforme CHA₂DS₂-VA
  • R — Reduce symptoms: controle de frequência e/ou ritmo
  • E — Evaluation: reavaliação dinâmica e periódica

ESC 2024 enfatiza: controle de comorbidades é tão importante quanto controle da arritmia. iSGLT2 recomendados (Classe I) para todos os pacientes com FA + IC.

EstratégiaQuandoComo
Controle de Frequência FA ≥24h ou tempo indeterminado; FA permanente; idosos com poucos sintomas; FA com resposta ventricular alta Alvo FC <110 bpm (leniente) ou <80 bpm (estrito). Metoprolol EV/VO ou Diltiazem EV. Se IC com FEVE reduzida: Amiodarona ou Digoxina
Controle de Ritmo (CVE/CVQ) FA <24h (ESC 2024); FA com instabilidade hemodinâmica; paciente jovem e sintomático; primeiro episódio CVE (120–200J bifásico) ou CVQ com Amiodarona EV ou Propafenona VO (pill-in-the-pocket). Se ≥24h: anticoagular ≥3 semanas ANTES ou EcoTE para excluir trombo no AE
Alerta — FA e Anticoagulação (CHA₂DS₂-VA — ESC 2024)

Mudança ESC 2024: O score agora é CHA₂DS₂-VA (máximo 8 pontos). Sexo feminino foi removido como fator de risco independente.

CHA₂DS₂-VA = 0: anticoagulação NÃO recomendada (Classe III). CHA₂DS₂-VA = 1: anticoagulação deve ser considerada (Classe IIa). CHA₂DS₂-VA ≥ 2: anticoagulação recomendada (Classe I).

Se cardioverter FA ≥24h sem anticoagulação prévia (ESC 2024) → obrigatório EcoTE antes (excluir trombo atrial) OU anticoagular ≥3 semanas antes + 4 semanas após.

  • C — IC ou FEVE ≤40% (1pt)
  • H — Hipertensão (1pt)
  • A₂ — Age ≥75 anos (2pts)
  • D — Diabetes (1pt)
  • S₂ — AVC/AIT prévio (2pts)
  • V — Doença vascular (IAM prévio, DAP, placa aórtica) (1pt)
  • A — Age 65–74 (1pt)

Nota: CHA₂DS₂-VASc (com "Sc" sexo feminino) permanece válido em contextos que ainda não adotaram ESC 2024. A calculadora deste guia foi atualizada para CHA₂DS₂-VA.

Pérola Prática

FA pré-excitada (WPW + FA): NUNCA use bloqueador de nó AV (betabloqueador, BCC, digoxina, adenosina) nem amiodarona EV (AHA 2025 — pode facilitar condução pela via acessória e degenerar em FV). Trate com Procainamida EV ou CVE sincronizada.

Taquicardia Supraventricular Paroxística (TSVP)

QRS estreito, regular, FC tipicamente 150–250 bpm. Geralmente TRN (taquicardia por reentrada nodal) ou TAV (via acessória). Início e término súbitos.

Conduta escalonada:

  1. Manobra vagal: Valsalva modificado (soprar em seringa 10mL por 15s, depois deitar e elevar MMII 45° por 15s — taxa de sucesso ~40% vs ~19% do Valsalva clássico, estudo REVERT)
  2. Adenosina 6mg EV em bolus rápido (flush com 20mL SF imediato) → se não reverter em 1–2min: 12mg EV → se persistir: 12mg EV
  3. Se adenosina falha: Verapamil 5mg EV ou Diltiazem 15–20mg EV ou CVE
Pérola Prática

A adenosina tem meia-vida de <10 segundos. Deve ser feita em bolus rápido seguido de flush de 20mL de SF, pela veia mais proximal possível (antecubital, não no dorso da mão). Avise o paciente que vai sentir "aperto no peito" e "sensação de morte" por 5–10 segundos — é transitório e benigno. Contraindicada em asmáticos graves e em transplantados cardíacos (usar metade da dose).

Taquicardia Ventricular (TV)

QRS largo (≥120ms), regular. Assume-se TV até prova em contrário em todo QRS largo com FC elevada (especialmente se cardiopatia estrutural).

TipoConduta Paciente EstávelConduta Paciente Instável
TV Monomórfica Sustentada (>30s ou com instabilidade) Amiodarona 150mg EV em 10min → infusão. OU Procainamida 20–50mg/min (até 17mg/kg). OU Lidocaína 1–1,5mg/kg bolus CVE sincronizada 100J → escalar
TV Polimórfica (QTc normal) Tratar como FV: desfibrilação. Amiodarona. Buscar isquemia Desfibrilação NÃO sincronizada 200J
Torsades de Pointes (QTc longo) MgSO₄ 2g EV em 10min → infusão. Corrigir QT (suspender drogas, corrigir K⁺/Mg²⁺). Overdrive pacing (isoproterenol ou MP temporário a 90–110bpm) Desfibrilação + MgSO₄
Alerta — Drogas que Prolongam QT

Antes de tratar qualquer arritmia, verifique o QTc. Drogas comuns que prolongam QT no PS: haloperidol, ondansetrona, metoclopramida, amiodarona, azitromicina, levofloxacino, fluconazol, clorpromazina. Se Torsades: pare TODAS as drogas que prolongam QT e administre MgSO₄.

Flutter Atrial

Ondas F em "dente de serra" (mais visíveis em DII, DIII, aVF e V1), frequência atrial ~300bpm, tipicamente com condução 2:1 → FC ~150bpm. A adenosina pode ajudar no diagnóstico (revela ondas F ao bloquear transitoriamente o nó AV) mas raramente reverte o flutter.

Conduta: semelhante à FA. Controle de FC (betabloqueador ou BCC) ou CVE (50–100J — flutter geralmente reverte com energias baixas). Anticoagulação seguindo CHA₂DS₂-VA (mesmas regras da FA — ESC 2024).

Pérola Prática

Se a FC no ECG está "fixa em ~150 bpm" com QRS estreito → pense em flutter atrial 2:1 antes de tudo. Faça adenosina diagnóstica (não terapêutica) para revelar as ondas F. O flutter tem taxa de sucesso de CVE muito alta com apenas 50J.


Bradiarritmias — Classificação e Conduta
TipoECGConduta
Bradicardia sinusal P antes de todo QRS, FC <50bpm, PR normal Se assintomática: observar. Se sintomática: atropina → dronotrópicos → MP
BAV 1º grau PR >200ms, toda P conduz Benigno. Observar. Não requer tratamento isolado
BAV 2º grau Mobitz I (Wenckebach) PR progressivamente mais longo até P bloqueada Geralmente benigno (doença nodal). Atropina se sintomático. Raramente precisa de MP
BAV 2º grau Mobitz II PR constante com P bloqueadas de forma súbita (2:1, 3:1) Alto risco de evolução para BAVT. Atropina pode ser ineficaz (doença infranodal). Preparar MP transcutâneo → transvenoso
BAV 3º grau (BAVT) Dissociação AV completa (P e QRS independentes) EMERGÊNCIA. Atropina (pode ser ineficaz). Dronotrópicos + MP transcutâneo imediato → transvenoso
Alerta — Quando Atropina NÃO Funciona

Atropina age no nó AV (colinérgico). Em bloqueios infranodais (Mobitz II, BAVT com escape ventricular de QRS largo), a atropina pode ser ineficaz ou até piorar (aumenta frequência sinusal sem melhorar a condução). Nesses casos: vá direto para MP transcutâneo + dronotrópicos.

Causas Reversíveis de Bradiarritmia — Buscar SEMPRE
  • Drogas: betabloqueadores, BCC (verapamil, diltiazem), digoxina, amiodarona, clonidina, opioides
  • Distúrbios eletrolíticos: hipercalemia (ondas T apiculadas, QRS alargado → tratar com cálcio EV)
  • Hipotermia
  • Hipóxia
  • IAM inferior (bradicardia por reflexo de Bezold-Jarisch)
  • Hipotireoidismo
Pérola Prática

Na intoxicação por betabloqueador: atropina geralmente falha. Tratamento: glucagon 5–10mg EV (bolus → infusão 2–5mg/h). Se refratário: adrenalina em infusão contínua + insulina regular em alta dose (1 UI/kg bolus → 1 UI/kg/h) com glicose 50%. Na intoxicação por BCC: cálcio EV + glucagon + vasopressor + insulina em alta dose.

Marcapasso Transcutâneo (MPT) — Passo a Passo
  1. Posicionar pás: anteroposterior (anterior: paraesternal esquerda; posterior: infraescapular esquerda)
  2. Modo: demanda (demand/sensed) para evitar competição com ritmo intrínseco
  3. Frequência: 60–80 bpm
  4. Corrente: iniciar com 60–80 mA, aumentar 5–10 mA até captura (espícula seguida de QRS)
  5. Confirmar captura: cada espícula deve gerar um QRS + pulso palpável (verificar femoral, pois artefato muscular pode simular pulso radial)
  6. Sedar/analgesar: Midazolam 2–5mg + Fentanil 50–100mcg EV (o MPT é doloroso)
  7. Solução definitiva: MP transvenoso → permanente conforme indicação

Prescrições — Arritmias Cardíacas
Amiodarona
Ancoron®, Atlansil® — Genérico disponível
Apresentação
Ampola 150mg/3mL (50mg/mL). Comprimido 100mg e 200mg.
Dose EV
TV estável / FA: 150mg em 100mL SG5% em 10 minutos → 1mg/min por 6h (360mg) → 0,5mg/min por 18h (540mg). Dose total 24h: ~1.050mg.
PCR (FV/TV sem pulso): 300mg EV bolus direto → 2ª dose 150mg se refratário.
Diluição
150mg (1 ampola) em 100mL de SG 5%. Para infusão: 900mg (6 ampolas) em 500mL SG5% = 1,8mg/mL. Não diluir em SF (cristalização). Usar equipo sem PVC (ftalato).
Via
EV (preferir acesso central — irrita veia periférica). VO para manutenção.
Intervalo
Infusão contínua conforme protocolo acima. VO: 200mg 3x/dia por 7 dias → 200mg 2x/dia por 7 dias → 200mg/dia
Dose Máxima
2,2g EV em 24h. VO manutenção: 200–400mg/dia
Contraindicações
Bradicardia sinusal / BAV sem MP; disfunção tireoidiana grave (hiper ou hipo descompensado); QTc prolongado; alergia a iodo; choque cardiogênico (relativa)
Ajuste Renal
Não necessita ajuste (excreção biliar/fecal). Não dialisável.
Interações
Potencializa efeito de varfarina (reduzir dose em 30–50%); aumenta nível de digoxina (reduzir em 50%); prolonga QT com outras drogas QT-prolongantes; bradicardia com betabloqueadores/BCC
Pérola Prática

Amiodarona EV em veia periférica causa flebite em até 50% dos casos — especialmente em infusão prolongada. Se possível, use acesso central. Se só periférica: diluir mais (250mL), infundir mais lentamente, e trocar o acesso a cada 24h. Na PCR, pode ser feita em bolus direto (sem diluir) no acesso mais proximal.

Adenosina
Adenocard® — Genérico disponível (adenosina trifosfato em alguns serviços)
Apresentação
Ampola 6mg/2mL (3mg/mL)
Dose
1ª dose: 6mg EV em bolus rápido → flush 20mL SF. Se não reverter em 1–2min: 2ª dose 12mg → flush. Se persistir: 3ª dose 12mg
Via
EV em bolus rápido (1–2 segundos) seguido imediatamente de flush de 20mL SF. Usar veia antecubital (a mais proximal possível)
Intervalo
1–2 minutos entre doses
Dose Máxima
30mg (dose total acumulada: 6 + 12 + 12 mg). Se sem resposta após 3 doses (30 mg), reconsiderar o diagnóstico — provavelmente não é TSV.
Contraindicações
Asma grave / broncoespasmo ativo; BAV 2º/3º grau ou doença do nó sinusal (sem MP); FA pré-excitada (WPW); transplantados cardíacos (iniciar com 3mg — sensibilidade aumentada); hipotensão grave
Ajuste Renal
Sem ajuste (meia-vida <10 segundos — metabolizada por eritrócitos e endotélio)
Interações
Dipiridamol — potencializa efeito (reduzir dose para 3mg). Teofilina/cafeína — antagonizam (pode precisar dose maior). Carbamazepina — risco de BAV prolongado
Pérola Prática

A adenosina é diagnóstica e terapêutica: se a taquicardia reverte → era TRN ou TAV (reentrada). Se não reverte mas mostra ondas P ou ondas F → flutter ou taquicardia atrial (ajuda no diagnóstico). Ter desfibrilador preparado: raramente pode induzir FA ou FV. O paciente sentirá mal-estar intenso por ~10 segundos — avise antes.

Atropina (Sulfato de Atropina)
Atropina® — Genérico disponível
Apresentação
Ampola 0,25mg/mL (1mL) e 0,5mg/mL (1mL)
Dose
1 mg EV a cada 3–5 minutos. Dose mínima por aplicação: 0,5 mg (doses <0,5 mg podem causar bradicardia paradoxal). Dose inicial de 1 mg é preferível (AHA 2025)
Via
Endovenosa (bolus direto, sem diluir)
Intervalo
A cada 3–5 minutos
Dose Máxima
3mg (total — efeito vagolítico máximo atingido). Na PCR com assistolia: mesma dose
Contraindicações
Glaucoma de ângulo fechado agudo; obstrução urinária; estenose pilórica; transplantados cardíacos (ineficaz — coração denervado). Relativas: taquicardia, hipertermia
Ajuste Renal
Sem ajuste necessário
Interações
Pode piorar taquicardia se usada em pacientes com taquibradi; efeito aditivo anticolinérgico com anti-histamínicos, antidepressivos tricíclicos, fenotiazinas
Pérola Prática

A atropina não funciona em: bloqueio infranodal (Mobitz II, BAVT), transplantados cardíacos, bradicardia por hipotermia. Nesses cenários, vá para adrenalina ou MP transcutâneo sem perder tempo. No BAVT com escape de QRS largo: atropina pode piorar (faz o sinusal ir mais rápido sem melhorar a condução ventricular).

Diltiazem
Cardizem® — Genérico disponível (apresentação EV pode ter disponibilidade limitada)
Apresentação
Ampola 25mg/5mL (EV) — disponibilidade variável. Comprimido 30mg, 60mg, 90mg, 120mg (VO)
Dose EV
1° bolus: 0,25mg/kg EV em 2min (~20mg para 70kg). Se não responder em 15min: 2° bolus: 0,35mg/kg (~25mg). Infusão contínua: 5–15mg/h
Dose VO
30–60mg VO 3x/dia (liberação imediata) ou 120–240mg/dia (liberação prolongada)
Via
EV (bolus + infusão) ou VO
Intervalo
EV: bolus + infusão contínua. VO: 8/8h ou 12/12h (conforme formulação)
Dose Máxima
Bolus EV: não exceder 25mg/dose. Infusão: 15mg/h. VO: 360mg/dia
Contraindicações
IC descompensada com FEVE reduzida (BCC deprime contratilidade); BAV 2º/3º grau sem MP; PAS <90mmHg; FA pré-excitada (WPW); uso concomitante de betabloqueador EV (risco de assistolia)
Ajuste Renal
Sem ajuste (metabolização hepática)
Interações
NUNCA associar diltiazem EV + betabloqueador EV (risco de assistolia e choque). Aumenta nível de digoxina, ciclosporina, sinvastatina. Cuidado com fentanil (hipotensão)
Dica

Diltiazem EV é excelente para controle rápido de FC na FA/flutter (onset ~3min, mais previsível que metoprolol para esse fim). Porém: não disponível em muitas UPAs brasileiras. Alternativa: metoprolol EV ou amiodarona (se IC com FE reduzida).

Adrenalina (Epinefrina) — Infusão para Bradicardia
Adrenalina®, Epinefrina® — Genérico disponível
Apresentação
Ampola 1mg/mL (1mL)
Dose
Infusão: 2–10 mcg/min EV contínuo, titulando conforme FC e PA
Diluição
1mg (1 ampola) em 250mL SF 0,9% = 4 mcg/mL. Iniciar em 0,5 mL/min (2 mcg/min) → titular até 2,5 mL/min (10 mcg/min)
Via
EV contínua em BIC (bomba de infusão contínua). Preferir acesso central.
Intervalo
Contínua — titular a cada 2–5 minutos
Dose Máxima
10 mcg/min (doses maiores aumentam muito arritmogênese)
Contraindicações
Taquiarritmia concomitante (pode piorar); feocromocitoma; uso de cocaína recente. Na bradicardia com instabilidade, os benefícios superam os riscos
Ajuste Renal
Sem ajuste
Interações
Risco de crise hipertensiva com IMAOs; arritmias com halotano; antagonismo com betabloqueadores (mas pode ser usada justamente para reverter intoxicação por BB)
Pérola Prática

Na bradicardia sintomática refratária a atropina, a adrenalina em infusão baixa (2–10mcg/min) é o vasopressor de 1ª linha enquanto se prepara o MP transcutâneo. A dopamina (5–20mcg/kg/min) é alternativa. Em muitas UPAs, a adrenalina é mais disponível que a dopamina — use o que tiver.

Sulfato de Magnésio (MgSO₄)
Sulfato de Magnésio® — Genérico
Apresentação
Ampola 50% (500mg/mL) — 10mL = 5g; Ampola 10% (100mg/mL) — 10mL = 1g
Dose
Torsades de Pointes: 2g (4mL da solução 50%) EV em 10–15 min → infusão 1–2g/h se recorrente. Hipomagnesemia: 1–2g EV em 1h
Diluição
2g (4mL a 50%) em 100mL SG5% ou SF 0,9%. Infundir em 10–15 min para Torsades (ou bolus direto na PCR)
Via
EV (diluída). Na PCR: bolus direto EV.
Intervalo
Dose única para Torsades; repetir se recorrente ou se Mg sérico persistir baixo
Dose Máxima
4–6g nas primeiras horas (monitorar nível sérico de magnésio e reflexos patelares)
Contraindicações
Miastenia gravis; BAV sem MP; hipermagnesemia. Cuidado em IRC (acúmulo)
Ajuste Renal
Reduzir dose e aumentar intervalo em IRC. Monitorar Mg sérico. Contraindicado se ClCr <15 sem monitorização
Interações
Potencializa bloqueadores neuromusculares; potencializa efeito de BCC (hipotensão); antagoniza aminoglicosídeos. Toxicidade: perda de reflexos → paralisia respiratória → PCR. Antídoto: gluconato de cálcio 1g EV
Alerta — Sinais de Hipermagnesemia

Monitorar reflexos patelares durante infusão: arreflexia = primeiro sinal de toxicidade. Progressão: hipotensão → paralisia respiratória → PCR. Antídoto imediato: Gluconato de cálcio 10% — 10mL EV em 3 min.

Procainamida
Procamide® — Disponibilidade limitada no Brasil (importação ou farmácia de manipulação). Consultar farmácia hospitalar local.
Apresentação
Ampola 100mg/mL (10mL = 1.000mg) — quando disponível
Dose
20–50mg/min EV até: reversão da arritmia, QRS alargar >50%, hipotensão, ou dose total de 17mg/kg (~1.200mg em 70kg)
Diluição
1.000mg em 250mL SF 0,9% = 4mg/mL. Infundir 5–12,5 mL/min (= 20–50mg/min)
Via
EV (infusão controlada). Monitorização contínua de ECG e PA obrigatória.
Intervalo
Infusão até resposta. Manutenção: 1–4mg/min
Dose Máxima
17mg/kg (dose de carga). Manutenção: 4mg/min
Contraindicações
QTc prolongado; Torsades de Pointes; lúpus eritematoso (induz lúpus medicamentoso); BAV 2º/3º grau; miastenia gravis
Ajuste Renal
ClCr <30: reduzir dose de manutenção em 50%. O metabólito ativo (NAPA) acumula em IR
Interações
Prolonga QT com amiodarona e outras drogas QT-prolongantes; potencializa efeito de anticoagulantes; hipotensão com anti-hipertensivos
Dica

Procainamida é a droga de escolha para TV monomórfica estável (superior à amiodarona no estudo PROCAMIO) e para FA pré-excitada (WPW). Porém, disponibilidade no Brasil é irregular. Se não disponível, use amiodarona como alternativa para TV e CVE para FA pré-excitada.


Referências — Arritmias Cardíacas:
AHA/ACC/HRS Guideline for Management of Patients with Ventricular Arrhythmias, 2017 (atualização focada 2022). | ESC Guidelines for the management of patients with supraventricular tachycardia, 2019. | Van Gelder IC et al. 2024 ESC Guidelines for the management of atrial fibrillation, Eur Heart J 2024;45(36):3314–3414. — AF-CARE pathway, CHA₂DS₂-VA. | AHA ACLS Guidelines Update, 2020 → AHA 2025 CPR/ECC Guidelines (Panchal AR et al., Circulation 2025). | SBC — Diretriz Brasileira de Arritmias Cardíacas, 2023. | SBC — Diretriz de Fibrilação Atrial, 2023. | REVERT Trial (modified Valsalva): Appelboam A et al., Lancet 2015. | PROCAMIO Trial (procainamida vs amiodarona em TV): Ortiz M et al., Eur Heart J 2017. | CHA₂DS₂-VASc: Lip GYH et al., Chest 2010.
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Insuficiência Cardíaca Descompensada
IC Descompensada — Abordagem no PS

A insuficiência cardíaca descompensada (ICD) é uma das principais causas de internação no Brasil (>200.000/ano pelo SUS). O paciente chega com dispneia, ortopneia, edema e/ou intolerância ao esforço. A abordagem inicial visa identificar o perfil hemodinâmico e tratar a causa da descompensação.

Alerta — IC Nova vs IC Crônica Agudizada

Diferencie IC de novo (primeiro episódio — investigar causa: SCA, miocardite, valvopatia, taquicardiomiopatia) de IC crônica agudizada (paciente já sabidamente cardiopata — buscar fator de descompensação). A conduta inicial é similar, mas a investigação etiológica é diferente.

Fatores de Descompensação — Buscar SEMPRE (CHAMP)
FatorDetalhes
C — Coronária (SCA)ECG + troponina em TODO paciente com ICD. SCA é a causa mais grave de descompensação
H — HipertensãoCrise hipertensiva como gatilho. Especialmente ICD com FEVE preservada (IC diastólica)
A — ArritmiaFA de alta resposta é causa clássica. Também TV, bradicardia
M — Mecânica (valvar aguda)Insuficiência mitral aguda (ruptura de cordoalha), estenose aórtica crítica
P — Pulmonar (TEP)TEP como causa de IC direita aguda. D-dímero + angioTC se suspeita

Outras causas frequentes: não-adesão a medicação/dieta (principal causa no Brasil), infecção/sepse, anemia, tireoidopatia, drogas (AINEs, BCC não-dihidropiridínicos), IRC descompensada.

Avaliação Inicial
  1. ABCDE + MOV — PA (importante para definir conduta), FC, FR, SpO₂
  2. ECG 12 derivações — buscar SCA, arritmia, sobrecarga
  3. RX Tórax — congestão, derrame pleural, cardiomegalia (índice cardiotorácico >0,5)
  4. Exames laboratoriais: BNP/NT-proBNP, troponina, hemograma, eletrólitos (Na⁺, K⁺), creatinina/ureia, função hepática, gasometria, TSH
  5. Ecocardiograma — se disponível no PS: FEVE, valvopatias, derrame pericárdico, disfunção VD
  6. POCUS — linhas B pulmonares (congestão), VCI (estimar volemia), derrame pleural/pericárdico
  7. Classificar perfil hemodinâmico (Stevenson) — congestão + perfusão
Dica — BNP / NT-proBNP

BNP <100 pg/mL ou NT-proBNP <300 pg/mL: IC muito improvável (VPN >95%). Valores elevados confirmam sobrecarga: BNP >400 ou NT-proBNP >900 (ajustado por idade: >50a: >900; >75a: >1.800). Lembre: BNP pode estar falsamente baixo em obesos e falsamente alto em IRC, FA, sepse e idosos.

Fluxograma de Abordagem — IC Descompensada
Dispneia + Suspeita de IC MOV + ECG + RX + BNP + Troponina EAP / Choque? (insuf. resp. grave / hipoperfusão) SIM Tratamento Emergencial VNI + NTG + Furosemida NÃO Classificar Perfil (Stevenson) Congestão? Perfusão? Perfil A Quente e Seco Sem congestão, boa perfusão Reavaliar diagnóstico Perfil B Quente e Úmido Congestão + boa perfusão MAIS COMUM (~70%) Perfil C Frio e Úmido Congestão + má perfusão Choque cardiogênico Perfil L Frio e Seco Sem congestão + má perfusão Hipovolemia / Volume Diurético + Vasodilatador Furosemida + NTG EV Inotrópico + Diurético Dobutamina + Furosemida Volume cauteloso SF 250mL → reavaliar SEMPRE buscar fator de descompensação (CHAMP) Coronária • Hipertensão • Arritmia • Mecânica (valvar) • Pulmonar (TEP) Outras causas frequentes Não-adesão medicação/dieta • Infecção • Anemia Tireoidopatia • AINEs • IRC • Drogas

Perfis Hemodinâmicos (Stevenson)

A classificação de Stevenson usa dois eixos clínicos para guiar o tratamento: congestão (úmido vs seco) e perfusão (quente vs frio).

Como Avaliar Congestão (Úmido?)
SinalDetalhes
Ortopneia / DPNMelhor preditor de congestão (Sp ~90%)
Turgência jugularPressão jugular >4cm acima do ângulo esternal a 45°
Crepitações pulmonares bilateraisPodem estar ausentes na IC crônica (drenagem linfática compensatória)
B3 (terceira bulha)Desaceleração abrupta do enchimento ventricular — correlaciona com PCP elevada
Edema de MMIIMenos específico (pode ser venoso, renal, hepático). Godet ≥2+
Hepatomegalia dolorosaRefluxo hepatojugular positivo. Congestão hepática
RX TóraxCefalização de vasos, linhas B de Kerley, derrame pleural bilateral
POCUS≥3 linhas B por campo pulmonar (bilateral); VCI dilatada (>2,1cm) e sem colapso >50%
Como Avaliar Perfusão (Frio?)
SinalDetalhes
Pressão de pulso estreitaPAS - PAD <25mmHg (proporcional) — sugere baixo DC
Extremidades friasTempo de enchimento capilar >3 segundos
Alteração do nível de consciênciaSonolência, confusão, agitação (hipoperfusão cerebral)
Oligúria<0,5 mL/kg/h — hipoperfusão renal
Lactato elevado>2 mmol/L — sugere metabolismo anaeróbico por hipoperfusão
Piora da função renalCreatinina em ascensão (síndrome cardiorrenal)
Pérola Prática

O Perfil B (quente-úmido) representa ~70% das admissões por ICD. São pacientes congestos mas com PA preservada. O tratamento é "simples": diurético + vasodilatador. O Perfil C (frio-úmido) é o choque cardiogênico: mortalidade hospitalar >40%. Requer inotrópicos ± suporte mecânico circulatório. Não confunda perfil L (frio-seco) com perfil C: no L, falta volume — tente SF cautelosamente antes de inotrópico.


Edema Agudo de Pulmão (EAP) — Emergência

O EAP é a apresentação mais grave da congestão pulmonar. O paciente chega com dispneia intensa, ortopneia, crepitações difusas bilaterais, expectoração rósea, SpO₂ baixa, uso de musculatura acessória. É uma emergência médica com risco imediato de vida.

Tratamento do EAP — "L-M-N-O-P"
LetraIntervençãoDetalhes
LLasix (Furosemida)0,5–1mg/kg EV em bolus. Se já usa diurético crônico: dose EV ≥ dose oral diária
MMorfina (com cautela)2–4mg EV — uso controverso (pode deprimir respiração). Reservar para ansiedade intensa refratária. ESC não recomenda rotineiramente
NNitrato (NTG)NTG SL (Nitrostat) ou NTG EV em BIC (começar 5–10mcg/min, titular até 200mcg/min). Principal droga do EAP hipertensivo. Contraindicado se PAS <90
OOxigênio / VNIVNI (CPAP 10cmH₂O ou BiPAP) é o tratamento de primeira linha para dispneia grave. Reduz intubação e mortalidade (NNT ~8). O₂ suplementar se SpO₂ <90%
PPosição sentadaCabeceira elevada a 90° (sentado com pernas pendentes). Reduz retorno venoso
Alerta — VNI é Prioridade Número 1 no EAP

A VNI (CPAP ou BiPAP) é a intervenção que mais impacta mortalidade e taxa de intubação no EAP (metanálise 3CPO, Cochrane). Comece CPAP a 10 cmH₂O ou BiPAP (IPAP 10–15 / EPAP 5–10). Se não disponível, use O₂ em máscara com reservatório. Intube se: RNC, incapacidade de proteger VA, fadiga respiratória apesar de VNI, ou PCR.

Pérola Prática

No EAP hipertensivo (PAS >140), a NTG EV é mais importante que a furosemida. O problema é redistribuição volêmica (vasoconstrição → congestão pulmonar), não necessariamente hipervolemia. O nitrato causa venodilatação e redistribui o sangue do pulmão para a periferia. Na prática brasileira: NTG 5mg/mL, diluir 10 ampolas (50mg) em 250mL SG5% = 200mcg/mL. Iniciar ~1,5mL/h (5mcg/min) e titular a cada 3–5min. (Mesma diluição do cartão de prescrição abaixo.)


Conduta por Perfil Hemodinâmico
Perfil B (Quente-Úmido) — 70% dos Casos
  1. Furosemida EV: 0,5–1mg/kg em bolus (ou dose EV ≥ dose oral habitual). Objetivo: diurese >0,5mL/kg/h nas primeiras horas
  2. Vasodilatador: Nitroglicerina EV se PAS >110 (titular). Nitroprussiato se refratário a NTG (cuidado: roubo coronariano)
  3. VNI: se dispneia grave / hipoxemia
  4. Manter/ajustar medicações crônicas: IECA/BRA/ARNI — manter se PAS tolerar. Betabloqueador — não suspender (exceto se choque ou bradicardia), mas reduzir dose se necessário
  5. Restrição hídrica: 800–1.000mL/dia se Na⁺ <130 ou congestão refratária
  6. Balanço hídrico rigoroso + peso diário
Perfil C (Frio-Úmido) — Choque Cardiogênico
  1. NÃO iniciar vasodilatador (paciente já hipotenso)
  2. Furosemida EV com cautela (pode piorar perfusão) — usar apenas se congestão grave
  3. Inotrópico: Dobutamina 2,5–20 mcg/kg/min (1ª linha). Se PAS muito baixa (<70): Noradrenalina 0,1–1 mcg/kg/min (para elevar PAS) + Dobutamina (para melhorar DC)
  4. Considerar: balão intra-aórtico (BIA), ECMO, dispositivos de assistência ventricular — se disponíveis
  5. Suspender betabloqueador (agravaria a hipoperfusão)
  6. Buscar causa tratável urgente: SCA (cateterismo emergencial), valvopatia mecânica (cirurgia)
Alerta — Betabloqueador na ICD

Perfil B: NÃO suspenda o betabloqueador (pode reduzir dose em 50% se necessário). Suspensão abrupta causa rebote adrenérgico → piora. Perfil C: SUSPENDA o betabloqueador (paciente precisa de suporte inotrópico). IC de novo: NÃO inicie betabloqueador na descompensação — aguarde estabilização e inicio em dose baixa antes da alta.

Perfil L (Frio-Seco)

Paciente com hipoperfusão mas SEM congestão. Mais raro. Pode ser hipovolemia verdadeira (excesso de diurético, desidratação) ou pré-carga inadequada.

  1. Prova de volume: SF 0,9% 250mL em 15–30min → reavaliar (ausculta, jugular, PA, FC)
  2. Se melhorou: manter hidratação cautelosa + reduzir/suspender diurético
  3. Se não melhorou ou piorou congestão → reclassificar como Perfil C → inotrópico
Critérios de Internação
  • Qualquer ICD com necessidade de EV (diurético, vasodilatador, inotrópico)
  • Perfil C (choque cardiogênico) → UTI/UCO
  • EAP → UTI/UCO
  • IC de novo (precisa investigação etiológica)
  • Hipoxemia, arritmia, SCA como causa
  • Piora da função renal (síndrome cardiorrenal)
Critérios de Alta / Compensação
  • Diurese adequada e balanço hídrico negativo sustentado
  • Sem ortopneia, sem esforço respiratório
  • FC <100 em repouso, PAS estável (>90)
  • Creatinina estável (ou melhorando)
  • Transição para diurético VO há ≥24h sem piora
  • Medicações otimizadas (IECA/BRA/ARNI + BB + espironolactona ± iSGLT2 + diurético de alça)
  • Orientação sobre restrição hídrica, pesagem diária, sinais de alarme
Pérola Prática

As 4 classes de drogas que reduzem mortalidade na IC — os "4 pilares" — devem ser otimizadas antes da alta: IECA/BRA/ARNI + Betabloqueador + Antagonista mineralocorticoide (espironolactona) + iSGLT2 (dapagliflozina/empagliflozina). Importante: iSGLT2 agora recomendados em TODA IC independente de LVEF (HFrEF, HFmrEF e HFpEF), per ESC 2023 Focused Update. Na internação, aproveite para iniciar ou titular o que falta. O iSGLT2 pode ser iniciado ainda na fase aguda (estudo EMPULSE).


Prescrições — IC Descompensada
Furosemida
Lasix® — Genérico disponível
Apresentação
Ampola 20mg/2mL (10mg/mL). Comprimido 40mg.
Dose EV
ICD aguda (ESC 2023): 20–40mg EV se naïve a diuréticos; se uso crônico: dose EV ≥ dose oral habitual diária (equivalência 1:1). A referência de 0,5–1mg/kg também é aceita (AHA).
EAP: 40–80mg EV em bolus.
Infusão contínua: 5–40mg/h (se bolus intermitente insuficiente)
Via
EV (bolus lento em 1–2min ou infusão contínua). VO para manutenção.
Intervalo
Bolus: 6/6h a 12/12h (ajustar conforme diurese). Contínua: 24h.
Dose Máxima
400–600mg/dia EV (doses altas em IC refratária). VO: 400mg/dia
Contraindicações
Anúria (sem resposta a dose teste); hipovolemia; hipocalemia grave (<2,5); encefalopatia hepática; alergia a sulfonamidas (reatividade cruzada rara mas possível)
Ajuste Renal
ClCr <30: doses maiores geralmente necessárias (resistência diurética). Sem dose máxima fixa para IRC — titular conforme resposta. Em diálise: usar para controle de volemia entre sessões
Interações
Hipocalemia → potencializa toxicidade de digoxina. Ototoxicidade aditiva com aminoglicosídeos. Piora nefrotoxicidade de AINEs (evitar). Hipotensão com IECA/vasodilatadores (monitorar)
Pérola Prática

Resistência diurética? Estratégias: (1) Aumentar dose de furosemida EV; (2) Trocar bolus por infusão contínua; (3) Associar hidroclorotiazida 25–50mg VO ou clortalidona 25mg (bloqueio sequencial do néfron — efeito sinérgico potente); (4) Associar espironolactona. Monitorar K⁺ e Na⁺ a cada 12–24h durante diurese forçada.

Nitroglicerina (Trinitrato de Glicerila)
Tridil® — Genérico disponível
Apresentação
Ampola 5mg/mL (5mL = 25mg) ou 5mg/mL (10mL = 50mg)
Dose
Iniciar 5–10 mcg/min EV. Titular a cada 3–5 min (aumentar 5–10mcg/min). Dose usual: 20–100 mcg/min. Máximo: 200 mcg/min
Diluição
50mg (2 ampolas de 25mg) em 250mL SG5% = 200 mcg/mL. Iniciar ~1,5mL/h (5mcg/min), titular. Usar frasco de vidro ou equipo sem PVC (NTG adsorve em PVC — perda de até 50% da dose)
Via
EV em BIC (infusão contínua)
Intervalo
Contínua — titular a cada 3–5 minutos
Dose Máxima
200 mcg/min. Se necessitar mais: considerar nitroprussiato
Contraindicações
PAS <90mmHg; uso de PDE5 nas últimas 24–48h; IAM de VD; estenose aórtica/mitral grave; tamponamento; hipovolemia
Ajuste Renal
Sem ajuste necessário
Interações
Sildenafil/tadalafil — ABSOLUTAMENTE CONTRAINDICADO (hipotensão fatal). Hipotensão aditiva com anti-hipertensivos. Resistência com uso prolongado >24h (taquifilaxia)
Dica — NTG vs Nitroprussiato

NTG: mais venodilatação que arteriodilatação. Ideal para congestão pulmonar e SCA. Sem risco de roubo coronariano. Nitroprussiato: vasodilatador arterial E venoso potente. Melhor para IC hipertensiva com RVP muito elevada. Risco: roubo coronariano (evitar se SCA) e acúmulo de cianeto em uso >48h ou dose >2mcg/kg/min. Na prática: comece com NTG, reserve nitroprussiato para refratários.

Dobutamina
Dobutrex® — Genérico disponível
Apresentação
Ampola 250mg/20mL (12,5mg/mL)
Dose
2,5–20 mcg/kg/min EV contínuo. Iniciar com 2,5–5 mcg/kg/min e titular conforme resposta (PA, FC, diurese, lactato)
Diluição
1 ampola (250mg) em 230mL SG5% = 1mg/mL (1.000 mcg/mL). Para 70kg a 5mcg/kg/min: ~21 mL/h
Via
EV em BIC (infusão contínua). Preferir acesso central (mas pode ser periférica se necessário)
Intervalo
Contínua — titular a cada 10–15 minutos
Dose Máxima
20 mcg/kg/min (doses maiores aumentam arritmia sem benefício proporcional)
Contraindicações
Obstrução dinâmica de VSVE (cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva); estenose subaórtica; taquiarritmia não controlada. Relativa: FA de alta resposta (pode aumentar FC)
Ajuste Renal
Sem ajuste necessário
Interações
Betabloqueadores reduzem efeito (antagonismo). Arritmias com halotano. Efeito sinérgico com milrinona (inodilator). Incompatível com soluções alcalinas (bicarbonato)
Pérola Prática

A dobutamina tem efeito atenuado em pacientes que estavam usando betabloqueador crônico (down-regulation de receptores beta). Pode ser necessário doses maiores (10–15mcg/kg/min) ou associar milrinona (inibidor de PDE3, que age independente do receptor beta). Se PAS muito baixa (<70–80): associe noradrenalina primeiro para garantir pressão de perfusão coronariana, depois inicie dobutamina.

Noradrenalina (Norepinefrina) — Choque Cardiogênico
Noradrenalina® — Genérico disponível
Apresentação
Ampola 2mg/mL (4mL = 8mg) ou 1mg/mL (4mL = 4mg) — verificar apresentação do serviço
Dose
0,1–1 mcg/kg/min EV contínuo (ex: 70kg → 7–70 mcg/min). Iniciar 0,1mcg/kg/min → titular a cada 5min para PAS >80–90 ou PAM >65
Diluição
16mg (2 ampolas de 8mg) em 234mL SG5% = 64 mcg/mL. Para 70kg a 0,2mcg/kg/min: ~13mL/h
Via
EV em BIC — acesso venoso central obrigatório (extravasamento causa necrose tecidual). Se urgência extrema: usar periférica calibrosa temporariamente (máx 2h)
Intervalo
Contínua
Dose Máxima
1–2 mcg/kg/min (doses maiores: benefício marginal com muito mais arritmia e isquemia)
Contraindicações
Hipovolemia não corrigida (corrigir antes); trombose mesentérica (piora vasoconstrição esplâncnica); uso cauteloso se arritmia ventricular
Ajuste Renal
Sem ajuste
Interações
Arritmias com halotano/ciclopropano; crise hipertensiva com IMAOs; antagonismo parcial com alfa-bloqueadores
Dica — Noradrenalina vs Dopamina no Choque Cardiogênico

O estudo SOAP II mostrou menor mortalidade com noradrenalina vs dopamina no choque cardiogênico (subgrupo). Noradrenalina é hoje o vasopressor de 1ª linha no choque cardiogênico. A dopamina em dose "renal" (2–5mcg/kg/min) não protege o rim — mito abandonado. Reserve dopamina apenas como alternativa se noradrenalina indisponível.

Nitroprussiato de Sódio
Nipride® — Genérico disponível
Apresentação
Ampola 50mg (pó liofilizado) + diluente. Reconstituir em 2–3mL de SG5%
Dose
0,3–5 mcg/kg/min EV contínuo. Iniciar 0,3mcg/kg/min → titular a cada 5min
Diluição
50mg em 250mL SG5% = 200 mcg/mL. Proteger da luz (fotossensível — envolver frasco e equipo em papel alumínio)
Via
EV em BIC (infusão contínua). Monitorização contínua de PA (idealmente PAI)
Intervalo
Contínua — titular a cada 3–5min. Desmame gradual (não parar abruptamente — rebote hipertensivo)
Dose Máxima
5 mcg/kg/min. Limitar uso a <48-72h. Se >2mcg/kg/min por >72h ou dose >4mcg/kg/min: risco de intoxicação por cianeto. Monitorar lactato e nível de tiocianato se uso prolongado.
Contraindicações
SCA (roubo coronariano); insuficiência hepática grave (acúmulo de cianeto); hipertensão intracraniana; coarctação de aorta; shunt AV significativo
Ajuste Renal
IRC: acúmulo de tiocianato (metabólito). Monitorar nível se uso >48h. Reduzir dose
Interações
Hipotensão aditiva com qualquer anti-hipertensivo. Intoxicação por cianeto → tratar com hidroxocobalamina 5g EV ou kit de cianeto (nitrito de sódio + tiossulfato)
Alerta — Toxicidade por Cianeto

Sinais de intoxicação por cianeto: acidose lática refratária, taquicardia, confusão, convulsão. Monitorar lactato. Se suspeita: suspender imediatamente + Hidroxocobalamina (Cyanokit®) 5g EV em 15min (antídoto de escolha). Prevenir: não ultrapassar 2mcg/kg/min por tempo prolongado.

Milrinona
Primacor® — Genérico disponível (uso hospitalar).
Apresentação
Ampola 1mg/mL (10mL = 10mg) ou 1mg/mL (20mL = 20mg)
Dose
Sem bolus (risco de hipotensão). Infusão: 0,375–0,75 mcg/kg/min. Iniciar 0,375 mcg/kg/min e titular.
Diluição
20mg (2 ampolas de 10mg) em 180mL SG5% = 100 mcg/mL. Para 70kg a 0,5mcg/kg/min: ~21mL/h
Via
EV em BIC (infusão contínua)
Intervalo
Contínua
Dose Máxima
0,75 mcg/kg/min
Contraindicações
Estenose aórtica/pulmonar grave (obstrução fixa — vasodilatação sem aumento de DC); IAM agudo (pode aumentar demanda de O₂); hipotensão grave
Ajuste Renal
ClCr <50: reduzir dose para 0,375 mcg/kg/min. ClCr <10: reduzir para 0,2 mcg/kg/min. Monitorar.
Interações
Hipotensão aditiva com vasodilatadores. Arritmia com digoxina (monitorar K⁺). Efeito sinérgico com dobutamina (mecanismos complementares)
Pérola Prática

A milrinona é o inotrópico de escolha em pacientes em uso de betabloqueador (age via PDE3, independente do receptor beta — não tem antagonismo). Também causa vasodilatação ("inodilator"), o que a diferencia da dobutamina. Porém: causa mais hipotensão que dobutamina, não dar bolus, e cuidado em IRC (meia-vida prolongada de 6–12h vs ~2min da dobutamina).


Referências — IC Descompensada:
ESC Guidelines for the diagnosis and treatment of acute and chronic heart failure, 2021 (McDonagh TA et al., Eur Heart J 2021) + 2023 Focused Update (McDonagh TA et al., Eur Heart J 2023). | AHA/ACC/HFSA Guideline for the Management of Heart Failure, 2022 (atualização 2023). | SBC — Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda, 2021 (atualização 2023). | EMPULSE Trial (empagliflozina na ICD): Voors AA et al., Nature Medicine 2022. | 3CPO Trial (VNI no EAP): Gray A et al., NEJM 2008. | SOAP II Trial (noradrenalina vs dopamina): De Backer D et al., NEJM 2010. | Stevenson Classification: Nohria A et al., JAMA 2005. | DOSE Trial (furosemida bolus vs infusão): Felker GM et al., NEJM 2011.
5
Crises Hipertensivas
Crises Hipertensivas — Urgência vs Emergência

Crise hipertensiva é definida como PA ≥180/120 mmHg. A diferença fundamental entre urgência e emergência hipertensiva NÃO é o número absoluto da PA, mas a presença ou ausência de lesão aguda de órgão-alvo (LOA).

Urgência HipertensivaEmergência Hipertensiva
PA ≥180/120 mmHg Geralmente ≥180/120 (pode ser menor em eclâmpsia, dissecção)
LOA aguda Ausente Presente
Tratamento VO — redução gradual em 24–48h EV — redução controlada em minutos a horas (UTI)
Local PS → alta com ajuste medicamentoso UTI/UCO com monitorização contínua
Alerta — PA Alta NÃO é Sinônimo de Emergência

Um paciente com PA 220/130 assintomático, sem LOA, NÃO é emergência hipertensiva — é urgência (ou pseudocrise). Tratar com medicação VO e ajustar ambulatorialmente. Reduzir PA agressivamente com droga EV nesse cenário pode causar isquemia cerebral, coronariana ou renal por hipoperfusão. O oposto também vale: eclâmpsia com PA 160/100 É emergência — a LOA define a conduta, não o número.

Atualização AHA/ACC 2025 — Terminologia

Mudança terminológica: O termo "urgência hipertensiva" foi substituído por "hipertensão severa sem lesão aguda de órgão-alvo" (AHA/ACC 2025). Esses pacientes NÃO necessitam de redução rápida da PA nem de drogas EV — intensificar terapia oral e acompanhar ambulatorialmente.

BARKH — Avaliação rápida de lesão de órgão-alvo: Brain (cérebro), Arteries (aorta), Retina, Kidney (rins), Heart (coração). Se qualquer BARKH positivo → emergência hipertensiva → tratar com anti-hipertensivos EV.

Lesões de Órgão-Alvo — O que Procurar
ÓrgãoLOA AgudaComo Avaliar
CérebroAVCi, AVCh, encefalopatia hipertensiva, PRESExame neurológico (força, fala, nível consciência), TC crânio
CoraçãoSCA, EAP, dissecção de aortaECG, troponina, RX tórax, dor torácica, dispneia
RinsIRA hipertensiva, hematúria, proteinúriaCreatinina, EAS, relação prot/creat
VasosDissecção de aortaDor torácica lancinante + assimetria PA → angioTC
OlhosRetinopatia hipertensiva aguda (hemorragias, exsudatos, papiledema)Fundoscopia direta
Útero/PlacentaPré-eclâmpsia grave / eclâmpsia / HELLPGestante com PA ≥160/110 + proteinúria + sintomas (cefaleia, epigastralgia, escotomas)
Fluxograma — Crises Hipertensivas
PA ≥180/120 mmHg Anamnese + exame físico direcionado Lesão de Órgão-Alvo? (cérebro, coração, rim, vasos, olho) SIM EMERGÊNCIA Droga EV + UTI Meta: reduzir PAM ≤25% na 1ª hora 160/100 em 2–6h Normal em 24–48h (exceto: AVCi, dissecção — metas próprias) NÃO Dor, ansiedade, não-adesão, gatilho? SIM Pseudocrise Tratar gatilho + observar URGÊNCIA Droga VO + observação Meta: PA <160/100 em 24–48h Captopril 25mg VO ou Clonidina 0,1–0,2mg VO Observar 2–4h → alta com ajuste ambulatorial Emergências com Metas Especiais AVCi: PA ≤185/110 se trombolítico; ≤220/120 se não trombólise AVCh: PAS alvo <140 mmHg na 1ª hora (INTERACT-2) Dissecção Aorta: PAS 100-120 + FC <60 ideal (BB primeiro!) Eclâmpsia: PAS <160 / PAD <110 + MgSO₄ + parto
Pérola Prática

A maior parte dos pacientes que chegam ao PS com "PA alta" NÃO tem crise hipertensiva verdadeira. São pseudocrises: PA elevada por dor, ansiedade, uso irregular de medicação, bexiga cheia, ou simplesmente um hipertenso mal-controlado. Nesses casos: trate a causa (analgésico, ansiolítico, esvaziamento vesical), observe 30–60min, reavalie PA, e ajuste tratamento ambulatorial. NÃO dê "Captopril SL" de rotina — isso não é tratamento baseado em evidência.


Emergências Hipertensivas — Conduta por Órgão-Alvo
EmergênciaMeta de PADroga de EscolhaObservações
Encefalopatia Hipertensiva Reduzir PAM 20–25% em 1h Nitroprussiato EV ou Labetalol EV Cefaleia, confusão, vômitos, papiledema. Excluir AVC antes (TC). Quadro reversível com controle da PA
AVCi (sem trombólise) NÃO tratar se PA <220/120. Tratar se PA >220/120: reduzir ~15% nas primeiras 24h Labetalol EV ou Nicardipina EV ou NTG EV PA "alta" no AVC é mecanismo compensatório. Redução agressiva → piora isquemia. Evite nitroprussiato (aumenta PIC)
AVCi (para trombólise) PA <185/110 antes e <180/105 por 24h após Labetalol EV ou Nicardipina EV Se PA não controla → contraindicação ao trombolítico
AVCh PAS <140 mmHg na 1ª hora (INTERACT-2) Labetalol EV ou Nicardipina EV ou NTG EV Redução rápida é segura e reduz expansão do hematoma (INTERACT-2, ATACH-2). Evite nitroprussiato (aumenta PIC)
SCA (IAM/AI) com PA elevada Reduzir PA gradualmente com alívio da isquemia NTG EV + Betabloqueador (metoprolol) O controle da isquemia (AAS, heparina, nitrato) geralmente controla a PA. Evite nitroprussiato (roubo coronariano)
EAP hipertensivo Reduzir PAS 25% na 1ª hora NTG EV (principal) + Furosemida + VNI NTG é vasodilatadora venosa — redistribui volemia. NTG > Nitroprussiato neste cenário. VNI é mandatória
Dissecção de Aorta PAS <120 + FC ≤60 bpm (ideal, ESC 2024) a ≤80 bpm (aceitável) o mais rápido possível Esmolol EV (1ª linha) ou Labetalol EV. Depois: Nitroprussiato se necessário BB PRIMEIRO, vasodilatador DEPOIS. Vasodilatador isolado → taquicardia reflexa → aumenta cisalhamento aórtico. Meta mais agressiva de todas as emergências
Pré-eclâmpsia grave / Eclâmpsia PA <160/110 Hidralazina EV (5mg bolus, repetir a cada 20min) ou Nifedipino 10mg VO. MgSO₄ obrigatório (prevenção/trat. convulsão) Labetalol EV é alternativa. IECA/BRA CONTRAINDICADOS na gestação. Tratamento definitivo: PARTO
Feocromocitoma / Crise adrenérgica Controle gradual com alfa-bloqueio Fentolamina EV (2–5mg bolus) ou Nitroprussiato. NUNCA BB isolado (crise paradoxal) Suspeitar se crises paroxísticas + cefaleia + sudorese + palpitação. BB só APÓS alfa-bloqueio adequado
Alerta — Dissecção de Aorta: BB ANTES do Vasodilatador

Na dissecção de aorta, a ordem é BB primeiro → vasodilatador depois. Se você der nitroprussiato ou NTG sem betabloqueador, a queda da PA causa taquicardia reflexa → aumenta a velocidade de ejeção (dP/dt) → propaga a dissecção. Esmolol EV é ideal (meia-vida curta, fácil de titular). Meta: FC <60 bpm (ideal) a ≤80 bpm (aceitável) + PAS 100–120 mmHg o mais rápido possível (ESC 2024).


Urgência Hipertensiva — Conduta

PA ≥180/120 SEM lesão de órgão-alvo aguda. Paciente pode estar assintomático ou com queixas inespecíficas (cefaleia leve, ansiedade). Inclui a maioria dos atendimentos por "PA alta" no PS.

Conduta
  1. Excluir LOA: exame neurológico, ausculta pulmonar, ECG, fundoscopia (se disponível), creatinina, EAS
  2. Identificar e tratar gatilhos: dor, ansiedade, bexiga cheia, uso irregular de medicação
  3. Ambiente calmo — reavaliar PA após 30–60min de repouso (PA pode cair espontaneamente)
  4. Se PA persistir ≥180/120 após repouso: medicação VO
  5. Observar por 2–4h — meta: PA <160/100 antes da alta (não precisa normalizar)
  6. Alta com: ajuste da medicação crônica + retorno ambulatorial em 7 dias + orientação sobre adesão
Opções de Medicação VO
DrogaDoseInícioQuando Preferir
Captopril25–50mg VO (engolir, NÃO sublingual)15–30min1ª escolha geral. Evitar se K⁺ alto, IRC grave, gestação
Clonidina0,1–0,2mg VO; repetir 0,1mg/h (máx 0,6mg)30–60minBoa opção se IECA contraindicado. Causa sonolência (pode ser útil em ansioso). Cuidado: rebote se parada abrupta
Anlodipino5–10mg VO1–2hBoa opção para ajuste crônico na alta. Não é ideal para controle agudo (onset lento)
Nifedipino retard20mg VO20–30minUsar formulação retard (OROS/retard). NUNCA usar nifedipino de ação rápida (cápsula mordida) — queda abrupta → isquemia
Alerta — Captopril Sublingual: Mito a Abandonar

Captopril sublingual NÃO tem absorção sublingual clinicamente relevante — o fármaco é absorvido pela mucosa gástrica após ser deglutido com a saliva. Estudos farmacocinéticos mostram biodisponibilidade igual à VO. Dizer "captopril sublingual" dá falsa sensação de urgência ao ato. Prescreva Captopril 25mg VO — é o mesmo efeito, sem o ritual desnecessário.

Pérola Prática

A principal causa de "crise hipertensiva" no PS brasileiro é não-adesão ao tratamento. Antes de acrescentar mais uma droga, pergunte: "O senhor está tomando os remédios certinho?", "Faltou algum?", "Acabou a receita?". Muitas vezes, retomar a medicação habitual resolve. Encaminhar para acompanhamento ambulatorial é mais importante que resolver a PA naquele momento.

Quando NÃO Dar Alta
  • Qualquer LOA identificada (mesmo sutil)
  • PA persistente ≥180/120 após 4–6h de tratamento VO
  • Sintomas progressivos (piora de cefaleia, déficit neurológico novo, dispneia)
  • Fundo de olho com papiledema, hemorragias ou exsudatos
  • Creatinina em elevação
  • Paciente sem condições de seguimento ambulatorial

Prescrições — Crises Hipertensivas
Nota

Nitroprussiato de sódio e Nitroglicerina EV já foram descritos no Tema 4 (IC Descompensada). Consulte as prescrições detalhadas naquela seção. Abaixo, as prescrições específicas adicionais para crises hipertensivas.

Esmolol
Brevibloc® (Baxter) — Uso hospitalar. Genérico disponível.
Apresentação
Ampola 100mg/10mL (10mg/mL) e frasco 2.500mg/250mL (10mg/mL — pronto para infusão)
Dose
Bolus: 500 mcg/kg EV em 1 min (~35mg para 70kg). Infusão: 50–300 mcg/kg/min. Iniciar 50 mcg/kg/min → titular a cada 4min (aumentar 50 mcg/kg/min). Repetir bolus a cada escalonamento se necessário.
Diluição
Usar frasco pronto (10mg/mL) em BIC. Se diluir ampolas: 5.000mg em 500mL SF = 10mg/mL
Via
EV em BIC (infusão contínua). Pode ser feito em veia periférica (concentração ≤10mg/mL)
Intervalo
Contínua — titular a cada 4 minutos
Dose Máxima
300 mcg/kg/min (doses acima não adicionam benefício e aumentam hipotensão)
Contraindicações
Bradicardia grave (<50bpm); BAV 2º/3º grau; choque cardiogênico; asma/broncoespasmo; feocromocitoma sem alfa-bloqueio
Ajuste Renal
Sem ajuste (metabolizado por esterases eritrocitárias — meia-vida ~9 minutos)
Interações
Bradicardia com BCC e digoxina; hipotensão com outros anti-hipertensivos; prolonga efeito de succinilcolina
Pérola Prática

Esmolol é o betabloqueador EV ideal para dissecção de aorta: meia-vida ultracurta (~9min), fácil de titular, para de agir rápido se houver hipotensão. Se não disponível (comum em UPAs): use metoprolol EV (5mg a cada 5min, máx 15mg) como alternativa, sabendo que a meia-vida é mais longa (~3–7h). Labetalol EV é outra alternativa excelente.

Labetalol
Trandate® — Disponibilidade irregular no Brasil (importação ou farmácia hospitalar). Alternativa: esmolol ou metoprolol EV.
Apresentação
Ampola 100mg/20mL (5mg/mL) — quando disponível
Dose
Bolus: 10–20mg EV em 2min. Repetir 20–80mg a cada 10min (dose total máx: 300mg). Infusão: 0,5–2mg/min
Diluição
200mg em 200mL SG5% = 1mg/mL (para infusão)
Via
EV (bolus ou infusão contínua)
Intervalo
Bolus: cada 10min. Infusão: contínua
Dose Máxima
300mg (cumulativa em bolus). Infusão: 2mg/min
Contraindicações
Asma/DPOC grave (tem componente beta-bloqueador); BAV 2º/3º grau; bradicardia grave; IC descompensada aguda; feocromocitoma SEM alfa-bloqueio prévio adequado (proporção alfa:beta do labetalol é 1:3 — insuficiente para antagonizar descarga catecolaminérgica)
Ajuste Renal
Sem ajuste necessário (metabolismo hepático)
Interações
Bradicardia com BCC/digoxina; hipotensão com outros anti-hipertensivos; pode mascarar hipoglicemia em diabéticos
Dica

O labetalol é alfa E beta-bloqueador (proporção alfa:beta = 1:3 EV). É a droga de escolha para emergências neurológicas (AVCi para trombólise, AVCh): não aumenta PIC, início rápido (2–5min), boa previsibilidade. Problema no Brasil: disponibilidade limitada. Alternativa prática: metoprolol EV + nitroprussiato (se AVCh) ou NTG EV.

Captopril
Capoten® — Genérico disponível
Apresentação
Comprimido 12,5mg, 25mg e 50mg
Dose
25mg VO como dose inicial preferível (engolir com água, NÃO sublingual). Pode-se usar 50mg em pacientes sem risco de hipotensão. Repetir em 60min se necessário. Cuidado com hipotensão de 1ª dose em depletados/diuretizados.
Via
Via oral
Intervalo
Dose única; pode repetir após 60min. Manutenção: 25–50mg 8/8h
Dose Máxima
150mg/dia (50mg 3x/dia)
Contraindicações
Gestação (teratogênico); hipercalemia (K⁺ >5,5); estenose bilateral de artérias renais; angioedema prévio por IECA; ClCr <15 sem diálise (cautela)
Ajuste Renal
ClCr 30–60: iniciar 12,5mg. ClCr 10–30: 6,25–12,5mg. Diálise: administrar após sessão. Monitorar K⁺
Interações
Hipercalemia com espironolactona, suplementos de K⁺, BRA; hipotensão com diuréticos (especialmente 1ª dose); reduz excreção de lítio (toxicidade)
Pérola Prática

O captopril tem onset ~15–30min por VO e pico em ~60–90min. É a droga mais usada para urgência hipertensiva no Brasil por custo e disponibilidade. Lembre: a 1ª dose pode causar hipotensão em pacientes desidratados ou usando diurético em alta dose — comece com 25mg e observe. Se o paciente já usa IECA/BRA, provavelmente a medicação precisa de ajuste, não de uma dose extra de captopril.

Clonidina
Atensina® — Genérico disponível
Apresentação
Comprimido 0,1mg, 0,15mg e 0,2mg
Dose
0,1–0,2mg VO. Repetir 0,1mg a cada hora se necessário. Dose total máxima na emergência: 0,6–0,8mg
Via
Via oral
Intervalo
Dose inicial; repetir a cada 1h (máx 0,6–0,8mg em 24h). Manutenção (após controle agudo, para seguimento ambulatorial): 0,1–0,3mg 12/12h
Dose Máxima
0,8mg/dia (urgência). 0,6mg/dia (manutenção)
Contraindicações
Bradicardia grave; doença do nó sinusal; depressão grave; uso concomitante de BB (risco de bradicardia e rebote hipertensivo na retirada)
Ajuste Renal
Reduzir dose em IRC grave. Iniciar 0,1mg. Monitorar PA e FC
Interações
Bradicardia com BB/BCC/digoxina; sedação com opioides, benzodiazepínicos e álcool; reduz efeito de levodopa. NUNCA suspender abruptamente — causa hipertensão de rebote grave
Alerta — Rebote Hipertensivo da Clonidina

Se o paciente usa clonidina cronicamente e parou de tomar: a PA pode subir acima do basal por rebote adrenérgico. Tratamento: reintroduzir a clonidina (não trocar por outra droga). Se crise grave por rebote: labetalol EV ou fentolamina EV. Ao prescrever clonidina na urgência, lembre que o paciente precisa ter acompanhamento para desmame adequado se for retirada.

Hidralazina
Apresolina® — Genérico disponível
Apresentação
Ampola 20mg/mL (1mL). Comprimido 25mg e 50mg.
Dose EV
5mg EV lento (em 1–2min). Repetir 5–10mg a cada 20–30 minutos (máx 20–30mg)
Dose IM
10mg IM (se acesso venoso indisponível)
Diluição
Pode ser feita em bolus EV direto (sem diluição) ou diluir em 10mL SF para melhor titulação
Via
EV, IM ou VO
Intervalo
A cada 20–30 min (EV). VO: 25mg 8/8h
Dose Máxima
30mg por episódio (EV). VO: 200mg/dia
Contraindicações
Dissecção de aorta (taquicardia reflexa); lúpus (induz lúpus medicamentoso em uso crônico); taquicardia grave; estenose mitral reumática grave
Ajuste Renal
ClCr <30: aumentar intervalo. Administrar após diálise. Monitorar PA
Interações
Taquicardia reflexa (associar BB quando possível, exceto em gestante); hipotensão com diuréticos e outros anti-hipertensivos
Pérola Prática

Hidralazina EV é a droga clássica da pré-eclâmpsia grave / eclâmpsia no Brasil: amplamente disponível, segura na gestação, experiência de décadas. Porém: onset imprevisível (10–30min), meia-vida longa, risco de hipotensão tardia e taquicardia reflexa. Alternativa cada vez mais usada na prática: nifedipino retard 20mg VO (onset ~20min, mais previsível, sem acesso venoso necessário). Ambas são aceitas pelas diretrizes.


Referências — Crises Hipertensivas:
ESC/ESH Guidelines for the management of arterial hypertension, 2023. | AHA/ACC Guideline for the Prevention, Detection, Evaluation, and Management of High Blood Pressure in Adults | 2017 → AHA/ACC 2025 Guideline (Circulation 2025). Terminologia atualizada. BARKH. PREVENT risk equations. | SBC — 8ª Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial, 2020. | SBC — Diretriz de Emergências Hipertensivas, 2019. | INTERACT-2 Trial (PA no AVCh): Anderson CS et al., NEJM 2013. | ATACH-2 Trial: Qureshi AI et al., NEJM 2016. | AHA/ASA Guidelines for the Management of Spontaneous Intracerebral Hemorrhage, 2022. | ACOG — Hypertensive Disorders of Pregnancy, Practice Bulletin 2020 (atualização 2023). | Captopril sublingual (mito): Martin JFV et al., Arq Bras Cardiol 2008.
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Emergências em Anticoagulação
Emergências em Anticoagulação — Abordagem no PS

O cenário clássico: paciente anticoagulado chega com sangramento ativo (TGI, intracraniano, retroperitoneal, pós-operatório) ou precisa de cirurgia/procedimento de urgência. A decisão central: reverter ou não reverter o anticoagulante, e com o quê.

Avaliação Inicial
  1. ABCDE + MOV — estabilidade hemodinâmica, sinais de choque hemorrágico
  2. Identificar o anticoagulante: qual droga, dose, última tomada (crucial para escolha do reversor)
  3. Classificar gravidade do sangramento: leve, moderado ou grave/com risco de vida
  4. Exames: hemograma, coagulograma (TAP/INR, TTPa, fibrinogênio), função renal, tipagem + reserva de hemácias
  5. Localizar e tratar a fonte: EDA, colonoscopia, TC, arteriografia — conforme indicação
  6. Reposição volêmica e hemoderivados: conforme protocolo de transfusão maciça se necessário
Classificação da Gravidade do Sangramento
GravidadeCaracterísticasConduta Anticoagulante
Leve Sangramento menor (epistaxe controlável, equimoses, hematúria microscópica). Sem repercussão hemodinâmica Suspender anticoagulante temporariamente. Compressão local. Reavaliação ambulatorial
Moderado Queda de Hb >2g/dL, necessidade de transfusão 1–2 CH, hematúria macroscópica com coágulos, melena/hematoquezia com estabilidade hemodinâmica Suspender anticoagulante. Suporte transfusional. Considerar reversão parcial conforme contexto
Grave / Risco de vida Hemorragia intracraniana, sangramento com choque, queda >5g/dL de Hb, necessidade de >2 CH, sangramento em sítio crítico (retroperitoneal, intraocular, intra-articular, pericárdico) Reversão completa IMEDIATA + suporte + hemoderivados + tratar fonte
Fluxograma — Reversão de Anticoagulantes
Sangramento em Paciente Anticoagulado ABCDE + Identificar droga + Coagulograma Grave / Risco de vida? NÃO Suspender droga + suporte local SIM Qual anticoagulante? + Suspender droga + Hemoderivados Varfarina INR elevado Vitamina K + CCP (ou PFC se CCP indisponível) Dabigatrana Anti-IIa direto Idarucizumabe (Praxbind® 5g EV) Rivaroxabana Apixabana Anti-Xa diretos Andexanet alfa (ou CCP se indisponível) Heparina HNF ou HBPM Protamina (1mg por 100UI de HNF) EM TODOS OS CASOS — simultaneamente: Ácido Tranexâmico 1g EV (se sangramento ativo) • Hemoderivados conforme necessidade Cirurgia de Urgência em Anticoagulado Mesmas estratégias de reversão + coordenar com cirurgião e anestesista DOACs: se última dose <2–4h, considerar carvão ativado (50g VO se sem contraindicação)
Alerta — Pergunte SEMPRE

Qual anticoagulante? Qual a dose? Quando foi a última tomada? Tem função renal normal? (Dabigatrana é excretada 80% renal — meia-vida muito prolongada em IRC). Essas informações mudam completamente a conduta.


Reversão de Varfarina

A varfarina inibe os fatores dependentes de vitamina K (II, VII, IX, X). Monitorizada pelo INR. A reversão depende do INR e da gravidade do sangramento.

CenárioINRConduta
INR elevado sem sangramento 3,0–4,5 Reduzir dose ou suspender 1 dose. Rechecar em 1–2 dias
INR elevado sem sangramento 4,5–10 Suspender varfarina. Vitamina K 1–2,5mg VO (se alto risco de sangramento)
INR >10 sem sangramento >10 Suspender varfarina + Vitamina K 2,5–5mg VO. Rechecar em 24h
Sangramento grave / risco de vida Qualquer CCP 4 fatores (25–50 UI/kg EV) + Vitamina K 10mg EV lento (em 30min). Se CCP indisponível: PFC 15–20mL/kg
Cirurgia urgente (<6h) Qualquer elevado CCP 4 fatores + Vitamina K 10mg EV. Rechecar INR 15–30min após CCP
Pérola Prática

CCP 4 fatores (Beriplex®, Octaplex®) é muito superior ao PFC para reversão de varfarina: age em minutos (vs horas do PFC), volume muito menor (50–100mL vs 800–1.200mL de PFC), sem risco de sobrecarga volêmica, sem necessidade de tipagem/compatibilidade. Porém: custo alto e disponibilidade limitada em muitas UPAs. Se não tiver CCP: PFC 15–20mL/kg + Vitamina K — é o que tem para o momento.

Dica — Vitamina K: Via de Administração

VO: onset 6–10h. Usar quando não há urgência (INR alto sem sangramento). EV: onset 1–2h (mas efeito pleno em 6–8h). Usar quando há sangramento grave — SEMPRE associar CCP/PFC (Vitamina K sozinha é lenta). IM: EVITAR (absorção errática + risco de hematoma em anticoagulado). SC: absorção imprevisível — evitar.


Reversão de DOACs (Anticoagulantes Orais Diretos)

Os DOACs (dabigatrana, rivaroxabana, apixabana, edoxabana) têm meia-vida curta (8–17h com função renal normal). Em muitos sangramentos leves/moderados, a suspensão e o suporte são suficientes. A reversão ativa é necessária em sangramentos graves ou cirurgias de urgência.

DOACMecanismoMeia-vidaReversor EspecíficoAlternativa
Dabigatrana (Pradaxa®) Anti-trombina (IIa) direto 12–17h (até 28h se ClCr <30) Idarucizumabe (Praxbind®) 5g EV CCP 4 fatores 50 UI/kg. Diálise (remove ~60%)
Rivaroxabana (Xarelto®) Anti-Xa direto 5–13h Andexanet alfa (Ondexxya®)sem registro ANVISA; disponível apenas via importação excepcional CCP 4 fatores 50 UI/kg (evidência limitada mas melhor opção disponível)
Apixabana (Eliquis®) Anti-Xa direto 8–15h Andexanet alfa* CCP 4 fatores 50 UI/kg
Edoxabana (Lixiana®) Anti-Xa direto 10–14h Andexanet alfa* (off-label) CCP 4 fatores 50 UI/kg

* Andexanet alfa (Ondexxya®) não possui registro ANVISA até a data de elaboração deste guia — disponível apenas via importação excepcional. Na prática brasileira, CCP 4 fatores é a alternativa recomendada.

Alerta — DOACs e Coagulograma

Os testes de coagulação convencionais (TAP/INR, TTPa) NÃO são confiáveis para monitorar DOACs. Um INR normal NÃO exclui efeito de rivaroxabana. Um TTPa normal NÃO exclui efeito de dabigatrana (pode estar normal em até 50% dos casos). Testes específicos: tempo de trombina diluído (dTT) ou tempo de ecarina (ECT) para dabigatrana; anti-Xa calibrado para rivaroxabana/apixabana. Na emergência: se não tem teste específico, trate baseado na história (droga, dose, última tomada, função renal).

Conduta Prática para DOACs — Sangramento Grave
  1. Suspender o DOAC
  2. Carvão ativado 50g VO se última dose <2h (para rivaroxabana e apixabana) ou <4h (dabigatrana) — reduz absorção
  3. Ácido Tranexâmico 1g EV em 10min (antifibrinolítico — adjuvante)
  4. Reversor específico se disponível: Idarucizumabe para dabigatrana; Andexanet alfa para anti-Xa
  5. Se reversor indisponível: CCP 4 fatores 50 UI/kg EV. Se CCP indisponível: CCP ativado (FEIBA®) 50 UI/kg
  6. Hemoderivados conforme necessidade: CH, plaquetas (se <50.000), crioprecipitado (se fibrinogênio <150)
  7. Dabigatrana em IRC grave: considerar hemodiálise (remove ~60% em 4h) — porém logisticamente difícil em emergência
Pérola Prática

Na realidade do PS brasileiro: Idarucizumabe (Praxbind®) geralmente disponível apenas em hospitais terciários. Andexanet alfa tem disponibilidade ainda mais limitada. Na maioria dos cenários, a reversão de DOACs será feita com CCP 4 fatores (se disponível) ou suporte + esperar a meia-vida da droga. Conheça o que seu serviço tem disponível ANTES da emergência acontecer.


Reversão de Heparinas
HeparinaReversorDoseObservações
HNF (Heparina Não-Fracionada) Protamina 1mg para cada 100 UI de HNF administrada nas últimas 2–3h. EV lento (em 10min). Máx 50mg por dose. Neutralização completa (~100%). Meia-vida da HNF: ~60–90min (pode não precisar reverter se parou há >3–4h)
Enoxaparina Protamina 1mg para cada 1mg de enoxaparina (se <8h da dose). Se >8h: 0,5mg para cada 1mg. Máx 50mg. Neutraliza ~60% do efeito anti-Xa (menos eficaz que para HNF). Se sangramento persiste: repetir 0,5mg/mg
Fondaparinux Sem reversor específico Protamina NÃO funciona. Considerar CCP ativado (FEIBA®) ou rFVIIa. Meia-vida longa (17–21h) — suporte.
Alerta — Reação à Protamina

A protamina pode causar hipotensão, bradicardia e reação anafilactoide — especialmente se infundida rápido. Risco aumentado em: alergia a peixe (protamina é derivada de esperma de salmão), uso prévio de insulina NPH (contém protamina), vasectomizados. Infundir em 10 minutos mínimo. Ter adrenalina preparada.


Prescrições — Emergências em Anticoagulação
Vitamina K (Fitomenadiona)
Kanakion® — Genérico disponível
Apresentação
Ampola 10mg/mL (1mL). Comprimido 10mg (disponibilidade variável). Solução oral pediátrica 2mg/0,2mL
Dose
Sangramento grave: 10mg EV lento (em 30min, diluída). INR alto sem sangramento: 1–2,5mg VO (INR 4,5–10) ou 5–10mg VO (INR >10)
Diluição
Diluir 10mg em 50mL SF 0,9% ou SG5%. Infundir em 30 minutos (nunca em bolus direto)
Via
EV (diluída, lenta) ou VO. EVITAR IM (hematoma em anticoagulado) e SC (absorção errática)
Intervalo
Dose única. Rechecar INR em 6–12h. Repetir se necessário
Dose Máxima
10mg EV por dose. Pode repetir em 12h se INR persistir elevado
Contraindicações
Hipersensibilidade (rara). A via EV rápida pode causar reação anafilactoide (por isso infundir lento). Não usar IM em anticoagulado
Ajuste Renal
Sem ajuste necessário
Interações
Antagoniza efeito da varfarina (esse é o objetivo). Se o paciente precisa de anticoagulação a longo prazo, doses altas de Vit K (>5mg) podem dificultar a re-anticoagulação por dias
Pérola Prática

Vitamina K EV demora 6–8h para normalizar INR (precisa que o fígado sintetize novos fatores). No sangramento grave: dê Vitamina K E CCP/PFC simultaneamente. O CCP fornece fatores prontos (efeito imediato), a Vitamina K garante produção sustentada (previne rebote de INR). Se deu apenas CCP sem Vit K, o INR vai subir novamente em 12–24h.

Concentrado de Complexo Protrombínico 4 Fatores (CCP)
Beriplex®, Octaplex® — Disponibilidade hospitalar
Apresentação
Frasco-ampola com pó liofilizado 500 UI ou 1.000 UI (contém fatores II, VII, IX, X + proteínas C e S)
Dose
Varfarina: INR 2–4: 25 UI/kg | INR 4–6: 35 UI/kg | INR >6: 50 UI/kg. DOACs (off-label): 50 UI/kg (máx 5.000 UI)
Diluição
Reconstituir conforme bula do fabricante. Infundir EV: velocidade ≤3 UI/kg/min (~8mL/min)
Via
EV (infusão lenta)
Intervalo
Dose única. Rechecar INR em 15–30min. Repetir se necessário
Dose Máxima
50 UI/kg (máx absoluto 5.000 UI — NÃO exceder). Doses acima aumentam significativamente risco tromboembólico. Monitorar INR 30 min após infusão
Contraindicações
HIT (contém traços de heparina); CIVD (relativa — risco trombótico); hipersensibilidade. Risco de trombose (TEP, TVP, IAM) especialmente em doses altas
Ajuste Renal
Sem ajuste necessário
Interações
Risco trombótico aumentado com ácido tranexâmico em altas doses (usar com cautela conjunta). Não misturar com outros medicamentos na mesma linha
Dica — CCP vs PFC

CCP 4 fatores: volume ~50–100mL, onset <15min, não precisa tipagem, contém fatores concentrados. PFC: volume 800–1.200mL (15–20mL/kg), onset ~30–60min, precisa tipagem ABO, risco de TRALI e sobrecarga. CCP é vastamente superior. PFC só quando CCP absolutamente indisponível.

Idarucizumabe
Praxbind® — Sem genérico. Disponibilidade em hospitais terciários
Apresentação
Frasco-ampola 2,5g/50mL (2 frascos = dose total de 5g)
Dose
5g EV (2 frascos de 2,5g), administrados consecutivamente por infusão de 5–10min cada, ou em 2 bolus consecutivos
Via
EV (infusão ou bolus)
Intervalo
Dose única. Pode repetir (5g) se sangramento recorrer ou cirurgia adicional
Dose Máxima
10g (2ª dose se recorrência)
Contraindicações
Hipersensibilidade ao idarucizumabe. Intolerância hereditária à frutose (excipiente sorbitol). Sem contraindicação significativa em emergência (benefício >> risco)
Ajuste Renal
Sem ajuste (o próprio idarucizumabe é eliminado renalmente, mas na emergência não há ajuste)
Interações
Específico APENAS para dabigatrana (não reverte outros DOACs, varfarina ou heparina). Após reversão, pode reiniciar anticoagulação em 24h se necessário
Pérola Prática

O idarucizumabe reverte completamente o efeito da dabigatrana em <5 minutos (estudo RE-VERSE AD). É um anticorpo monoclonal que se liga à dabigatrana com afinidade 350× maior que a trombina. Após a reversão, a anticoagulação pode ser reiniciada com qualquer anticoagulante em 24h. Problema prático: custo elevado (~R$ 10.000–15.000 por dose) e estoque limitado.

Ácido Tranexâmico
Transamin®, Hemoblock® — Genérico disponível
Apresentação
Ampola 250mg/5mL (50mg/mL). Comprimido 250mg e 500mg
Dose
1g (4 ampolas) EV em 10 minutos. Pode repetir 1g em 8h ou iniciar infusão de 1g em 8h (por 24h). Trauma: 1g EV em 10min + 1g em 8h (protocolo CRASH-2)
Diluição
1g em 100mL SF 0,9%. Infundir em 10 minutos (NÃO em bolus rápido — risco de hipotensão e convulsão)
Via
EV (diluída). VO para sangramento de mucosa (menorragia, epistaxe)
Intervalo
8/8h EV ou VO (conforme indicação)
Dose Máxima
3–4g/dia EV. VO: 3g/dia
Contraindicações
Doença tromboembólica ativa (TVP, TEP, trombose arterial) — contraindicação relativa em emergências hemorrágicas; AVCi agudo (risco tromboembólico aumentado); CIVD com predomínio de trombose (sem hiperfibrinólise predominante); convulsão prévia por ácido tranexâmico; hematúria por sangramento de vias urinárias (risco de coágulo obstrutivo ureteral)
Ajuste Renal
ClCr 30–60: 50% da dose. ClCr <30: 25% da dose ou aumentar intervalo para 12/12h
Interações
Risco teórico de trombose com CCP/fatores concentrados (usar com cautela). Pode reduzir eficácia de fibrinolíticos (não usar se planejando trombólise)
Pérola Prática

O ácido tranexâmico é um antifibrinolítico barato e amplamente disponível. Pode ser usado como adjuvante em qualquer sangramento grave, independente do anticoagulante em uso. No trauma: administrar nas primeiras 3h do evento (CRASH-2 — após 3h, pode aumentar mortalidade). Também útil em: epistaxe (tópico embebido em algodão), menorragia (VO), sangramento pós-extração dentária (enxágue local).

Protamina (Sulfato de Protamina)
Protamina® — Genérico disponível (hospitalar)
Apresentação
Ampola 10mg/mL (5mL = 50mg)
Dose
HNF: 1mg de protamina para cada 100 UI de heparina nas últimas 2–3h. Se >3h: reduzir dose (meia-vida HNF ~60min). Enoxaparina: 1mg para cada 1mg de enoxaparina (se <8h). Se 8–12h: 0,5mg para cada 1mg. Se >12h da última dose: protamina geralmente desnecessária (anti-Xa já indetectável).
Diluição
Diluir a dose calculada em 50mL SF. Infundir EV lento — máx 5mg/min (= máx 50mg em 10min)
Via
EV lenta (em pelo menos 10 minutos). NUNCA em bolus rápido
Intervalo
Dose única. Rechecar TTPa em 5–15min. Pode repetir se TTPa persistir prolongado
Dose Máxima
50mg por dose (dose única)
Contraindicações
Alergia a protamina, peixe/derivados de peixe, insulina NPH (contém protamina). Vasectomizados (podem ter anticorpos anti-protamina)
Ajuste Renal
Sem ajuste necessário
Interações
Excesso de protamina tem efeito anticoagulante paradoxal (a protamina per se tem fraca atividade anticoagulante). Não ultrapassar a dose calculada
Alerta — Protamina em Excesso Piora o Sangramento

A protamina em excesso tem atividade anticoagulante própria. Dose EXATA é importante. Calcule cuidadosamente a dose de heparina recebida. Se parou HNF há mais de 3h: a dose de protamina deve ser proporcionalmente menor (metade ou menos). Para enoxaparina: a neutralização é parcial (~60% do anti-Xa) — se sangramento persistir, considere CCP ou FEIBA® como adjuvante.


Referências — Emergências em Anticoagulação:
AHA/ACC/HRS 2023 Update: Management of Patients on Antithrombotic Therapy with Active Bleeding or Requiring Surgery. | ESC Practical Guide on NOACs | 2021 → atualização 2024. | SBC — Diretriz Brasileira de Anticoagulação, 2019. | RE-VERSE AD Trial (idarucizumabe): Pollack CV et al., NEJM 2017. | ANNEXA-4 Trial (andexanet alfa): Connolly SJ et al., NEJM 2019. | CRASH-2 Trial (ácido tranexâmico): Shakur H et al., Lancet 2010. | ISTH Guidelines on Reversal of DOACs, 2022. | Tomaselli GF et al., 2020 ACC Expert Consensus Decision Pathway on Management of Bleeding in Patients on Oral Anticoagulants.
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Parada Cardiorrespiratória — ACLS
Parada Cardiorrespiratória — ACLS Atualizado

A PCR é o cenário de máxima urgência. A sobrevida depende diretamente da qualidade da RCP e do tempo até a desfibrilação (em ritmos chocáveis). O algoritmo ACLS (AHA 2025) é a base da conduta.

Atualização AHA 2025

Principais mudanças: Cadeia de sobrevivência agora unificada (6 elos). Acesso IV é preferencial sobre IO — IO apenas se IV não puder ser obtido rapidamente. Compressões: 100–120/min, profundidade 5–6cm (max 6cm / 2.4"). Epinefrina 1mg a cada 3–5min mantida. Amiodarona/lidocaína mantidos para FV/TV refratários sem distinção clara de superioridade entre eles.

Os 3 Pilares da Sobrevida na PCR
  • RCP de alta qualidade — compressões fortes (5–6cm), rápidas (100–120/min), com retorno total do tórax, mínima interrupção
  • Desfibrilação precoce — em FV/TV sem pulso, cada minuto sem choque reduz sobrevida em ~10%
  • Tratar causas reversíveis — os 5H e 5T
RCP de Alta Qualidade — Parâmetros
ParâmetroMeta
Frequência das compressões100–120 por minuto
Profundidade5–6 cm (adultos). Não exceder 6cm
Retorno do tóraxPermitir retorno completo entre compressões (não apoiar sobre o tórax)
Relação compressão:ventilação30:2 (sem via aérea avançada). Contínua + 1 ventilação a cada 6s (com tubo/supraglótico)
Fração de compressão torácica>80% do tempo (minimizar interrupções — máx 10s para checar ritmo)
RodízioTrocar compressor a cada 2 minutos (fadiga reduz qualidade)
Capnografia (EtCO₂)Manter EtCO₂ >10 mmHg (indica RCP eficaz). Se >40 → considerar RCE
Algoritmo ACLS — Fluxograma
PCR Confirmada Sem resposta + sem pulso + sem respiração INICIAR RCP + Desfibrilador Compressões imediatas + pedir DEA/monitor Ritmo chocável? SIM FV / TVsp Chocável CHOQUE 200J (bifásico — dose máx) RCP 2 minutos Acesso EV/IO Chocável? SIM 2° CHOQUE 200J + RCP 2min + Adrenalina 1mg EV 3° CHOQUE 200J + RCP 2min + Amiodarona 300mg EV Repetir ciclos NÃO AESP / Assis Não chocável RCP 2 minutos + Adrenalina 1mg EV (o mais precoce possível) Chocável? NÃO RCP 2min + Adrenalina 3–5min SIM → FV/TV TRATAR CAUSAS REVERSÍVEIS 5H e 5T — durante TODA a RCP 5H Hipóxia Hipovolemia Hipotermia Hipo/Hipercalemia Hidrogênio (acidose) 5T Trombose coronariana (IAM) Trombose pulmonar (TEP) Tensão (pneumotórax hipert.) Tamponamento cardíaco Tóxicos (intoxicações) RCE — Retorno da Circulação Pulso + PA + EtCO₂ >40 → Cuidados Pós-PCR

FV / TV sem Pulso — Ritmo Chocável

São os ritmos com melhor prognóstico na PCR: sobrevida de 25–40% com tratamento adequado. O fator determinante é a desfibrilação precoce.

Sequência do Algoritmo
CicloAçãoMedicação
Choque 200J (bifásico) → RCP 2minObter acesso EV/IO
Checar ritmo → se ainda FV/TV: Choque 200J → RCP 2minAdrenalina 1mg EV/IO
Checar ritmo → se FV/TV: Choque 200J → RCP 2minAmiodarona 300mg EV bolus
Checar → Choque → RCP 2minAdrenalina 1mg EV (repetir a cada 3–5min)
Checar → Choque → RCP 2minAmiodarona 150mg EV (2ª dose — última)
6° em dianteContinuar ciclos: choque + RCP + adrenalina a cada 3–5minAdrenalina apenas. Sem mais amiodarona
Pérola Prática

Na FV/TV sem pulso, a adrenalina entra após o 2° choque, durante o 2° ciclo de RCP. Não atrase o 1° choque para pegar acesso venoso ou preparar drogas. Choque primeiro, droga depois. A amiodarona entra no 3° ciclo (após o 3° choque sem resposta). A lidocaína 1–1,5mg/kg é alternativa à amiodarona (mesma eficácia — estudo ALPS).

Dica — Desfibrilação

Bifásico: 200J (ou dose máxima do aparelho). Monofásico: 360J. Pás anterolateral (padrão) ou anteroposterior (pode ser superior em obesos e em PCR prolongada). Maximizar contato (gel/pás adesivas). Evitar sobre marca-passo/CDI — afastar ≥8cm. Choques empilhados (sem RCP entre eles) NÃO são recomendados — sempre fazer RCP entre choques.

FV/TV Refratária — O que Fazer
  • Reavaliar qualidade da RCP: profundidade, frequência, retorno, fração de compressão
  • Trocar posição das pás: anteroposterior
  • Aumentar energia se disponível (dose escalonada em alguns aparelhos)
  • Dupla desfibrilação sequencial (com 2 desfibriladores): considerar em FV refratária (evidência limitada, mas cada vez mais usada)
  • Tratar 5H e 5T — FV refratária frequentemente tem causa não tratada
  • Lidocaína 1–1,5mg/kg EV se não usou amiodarona (ou como alternativa se amiodarona falhou)
  • Considerar ECPR (ECMO na PCR) se disponível em centros terciários

AESP / Assistolia — Ritmo Não Chocável

Atividade Elétrica Sem Pulso (AESP) e assistolia têm pior prognóstico que FV/TV (sobrevida ~10–15%). A chave é identificar e tratar a causa reversível. Sem causa tratável, a RCP isolada raramente reverte esses ritmos.

AESP — Atividade Elétrica Sem Pulso

O monitor mostra algum ritmo organizado (pode parecer sinusal) mas NÃO há pulso palpável. O coração tem atividade elétrica mas não gera débito mecânico eficaz.

Causa (5H/5T)Como Identificar na PCRTratamento Imediato
HipovolemiaTrauma, sangramento visível, veias colabadasSF 0,9% em bolus + hemoderivados + controle de sangramento
HipóxiaCianose, via aérea comprometida, afogamentoIntubação + ventilação com O₂ 100%
HipotermiaExposição ao frio, temperatura axilar/esofágica baixaReaquecimento ativo (fluidos aquecidos, lavagem peritoneal)
HipercalemiaIRC, diálise, ECG com onda T apiculada/QRS largoGluconato de Cálcio 10% 10–20mL EV + Bicarbonato + Insulina+Glicose
H⁺ (Acidose)DM, IRC, intoxicação (metanol, etilenoglicol)Bicarbonato de sódio 8,4% 1mEq/kg EV (se pH <7,1 ou hipercalemia)
TEP maciçoTVP conhecida, imobilização, gravidez, dispneia préviaFibrinolítico na PCR: Alteplase 50mg EV bolus (ou Tenecteplase). RCP por mais 60–90min após. Segunda dose de 50 mg NÃO recomendada rotineiramente (off-label — sem endosso AHA/ESC)
IAMDor torácica prévia, alterações ECG, fatores de riscoICP de resgate pós-RCE. Considerar ECPR
Pneumotórax hipertensivoMV unilateral abolido, desvio traqueal, enfisema SC, traumaDescompressão imediata: punção 2° EIC linha hemiclavicular com jelco 14G (ou 5° EIC linha axilar anterior) → drenagem torácica
TamponamentoJugular túrgida (difícil ver na PCR), POCUS (derrame)Pericardiocentese de urgência (guiada por USG se possível)
TóxicosHistória de ingesta, pupilas, odor, contextoAntídoto específico + medidas de suporte. Naloxone, flumazenil, gluconato de cálcio, emulsão lipídica (intox por anestésico local)
Assistolia

Ausência completa de atividade elétrica. NÃO desfibrilar assistolia. Confirmar: checar cabos, ganho do monitor, 2 derivações diferentes. Se dúvida entre assistolia e FV fina: tratar como assistolia (FV fina não responde a choque).

Alerta — Quando Parar a RCP

Não há regra absoluta, mas considere encerrar se: assistolia/AESP por >20 minutos sem causa reversível identificada, EtCO₂ persistente <10 mmHg após 20min de RCP de boa qualidade, nenhuma atividade elétrica organizada. A decisão de parar é do líder da equipe e deve considerar causa, circunstâncias e tempo de RCP. Registrar horário e comunicar à família.

Pérola Prática

POCUS na PCR (protocolo CASA — Cardiac Arrest Sonographic Assessment): durante a checagem de ritmo (pausa de 10s), faça POCUS subcostal. Identifica: tamponamento, hipovolemia (VCI vazia), disfunção VD grave (TEP), pneumotórax. Não deve atrasar compressões — faça apenas na pausa planejada de checagem de ritmo.


Cuidados Pós-PCR (Pós-RCE)

Após o retorno da circulação espontânea (RCE), o paciente entra em uma fase crítica com alta mortalidade. Os cuidados pós-PCR são determinantes para desfecho neurológico e sobrevida.

Metas dos Cuidados Pós-PCR
ParâmetroMetaComo Atingir
Via aéreaIntubação + ventilação mecânicaConfirmar posição do tubo (capnografia contínua). FiO₂ titulada
SpO₂94–98%Evitar hiperóxia (FiO₂ 100% → titular para menor FiO₂ que mantenha SpO₂ >94%)
PaCO₂35–45 mmHgEvitar hipo e hipercapnia. Normoventilação
PAPAS >90 ou PAM ≥65Volume + vasopressor (noradrenalina). Evitar hipotensão — lesão neurológica secundária
TemperaturaControle direcionado de temperatura (TTM): manter ≤37,5°C por 24h (ou hipotermia terapêutica 32–36°C)Dispositivos de resfriamento, SF gelado não é recomendado em bolus EV pré-hospitalar (Kim et al., JAMA 2014)
Glicemia140–180 mg/dLEvitar hipo e hiperglicemia. Insulina regular se necessário
ConvulsãoTratar agressivamenteEEG contínuo se disponível. Levetiracetam ou valproato
CoronariografiaImediata se supra ST; precoce se alta suspeita de SCACate emergencial se IAMCSST. Se sem causa óbvia: considerar cate precoce
Dica — Controle de Temperatura (TTM)

O estudo TTM2 (2021) mostrou que hipotermia a 33°C NÃO é superior a normotermia (≤37,5°C). A recomendação atual (AHA 2025, ILCOR 2025): prevenir febre ativamente (manter ≤37,5°C por pelo menos 24h) em todos os pacientes comatosos pós-PCR. Hipotermia moderada (32–34°C) permanece como opção, especialmente se ritmo inicial FV/TV.

Pérola Prática

Após o RCE, o paciente frequentemente desenvolve síndrome pós-PCR: disfunção miocárdica (stunning — pode precisar de inotrópico transitório), lesão cerebral anóxica, resposta inflamatória sistêmica (símile de sepse), e disfunção orgânica múltipla. Trate como um paciente de UTI de alta complexidade. A causa da PCR deve ser identificada e tratada (cate se SCA, TC de crânio se AVCh, angioTC se TEP, etc.).


Prescrições — PCR / ACLS
Adrenalina (Epinefrina) — PCR
Adrenalina® — Genérico disponível
Apresentação
Ampola 1mg/mL (1mL)
Dose
1mg EV/IO a cada 3–5 minutos durante a PCR. Dose fixa — NÃO é por peso
Diluição
Não diluir na PCR — administrar 1mL (1mg) em bolus direto EV/IO seguido de flush de 20mL SF
Via
EV ou IO (intraóssea). Flush de 20mL SF após cada dose. Elevar o membro por 10–20s
Intervalo
A cada 3–5 minutos (a cada 2 ciclos de RCP). FV/TV: 1ª dose após 2° choque. AESP/Assistolia: o mais precoce possível
Dose Máxima
Não há dose máxima definida na PCR. Manter a cada 3–5min enquanto a RCP continuar
Contraindicações
Nenhuma contraindicação absoluta na PCR
Ajuste Renal
Não aplicável na PCR
Interações
Na PCR: não há interações clinicamente relevantes que contraindiquem seu uso
Pérola Prática

Na FV/TV sem pulso: choque primeiro, adrenalina depois (a partir do 2° ciclo). Na AESP/Assistolia: adrenalina o mais precoce possível — cada minuto de atraso piora o desfecho (estudo PARAMEDIC2). Prepare as seringas de adrenalina ANTES que a PCR comece (kit de emergência). Via IO (tibial ou umeral) é tão eficaz quanto EV — use se não conseguir acesso venoso em 60–90s.

Amiodarona — PCR (FV/TV refratária)
Ancoron® — Genérico disponível
Apresentação
Ampola 150mg/3mL (50mg/mL)
Dose
1ª dose: 300mg EV bolus (após 3° choque). 2ª dose: 150mg EV bolus (após 5° choque). Máximo 2 doses na PCR
Diluição
Na PCR: pode ser administrada em bolus direto da ampola, sem diluição (AHA 2025). Opcionalmente diluir em 20mL SG5% (NÃO em SF). Seguido de flush 20mL SF
Via
EV ou IO. Bolus rápido (diferente do uso fora da PCR, que é em 10min)
Intervalo
1ª dose no 3° ciclo. 2ª dose no 5° ciclo. Total: 450mg
Dose Máxima
450mg (300 + 150) durante a PCR. Pós-RCE: infusão de manutenção — diluir 900mg (6 ampolas) em 500mL SG5% (1,8 mg/mL). Fase 1: 1 mg/min por 6h (≈33 mL/h = 360 mg). Fase 2: 0,5 mg/min por 18h (≈17 mL/h = 540 mg). Total 24h: ~900 mg
Contraindicações
Nenhuma contraindicação absoluta na PCR. Se Torsades de Pointes: preferir MgSO₄ em vez de amiodarona (amiodarona prolonga QT)
Ajuste Renal
Não aplicável na PCR
Interações
Na PCR: sem interações relevantes. Pós-RCE: atenção a interações com varfarina, digoxina e drogas QT-prolongantes
Dica — Amiodarona vs Lidocaína na PCR

O estudo ALPS (2016) mostrou que amiodarona e lidocaína têm eficácia similar na FV/TV refratária. Ambas são aceitáveis pelo ACLS. A lidocaína pode ser opção se amiodarona indisponível: 1–1,5mg/kg EV (1ª dose) → 0,5–0,75mg/kg a cada 5–10min (máx 3mg/kg).

Bicarbonato de Sódio 8,4%
Bicarbonato de Sódio® — Genérico disponível
Apresentação
Ampola 8,4% — 10mL = 10 mEq. Frasco 250mL = 250 mEq
Dose
1 mEq/kg EV (dose inicial). Para 70kg: ~70 mEq = 7 ampolas de 10mL. Pode repetir metade da dose em 10min se necessário
Diluição
Pode ser feito em bolus direto EV. Se em infusão: não misturar com cálcio ou adrenalina (precipitação)
Via
EV em bolus ou infusão. NÃO misturar na mesma linha com cálcio ou catecolaminas (flush entre drogas)
Indicação na PCR
NÃO usar rotineiramente. Indicado em: hipercalemia pré-existente, acidose metabólica severa (pH <7,1) pré-PCR, intoxicação por tricíclicos ou bloqueadores de canais de sódio, PCR prolongada (>10min) com gasometria disponível
Dose Máxima
Guiar por gasometria. Evitar alcalose metabólica iatrogênica
Contraindicações
Alcalose metabólica; hipocalemia grave (bicarbonato piora hipocalemia); insuficiência respiratória sem ventilação adequada (gera CO₂)
Ajuste Renal
Cuidado com sobrecarga de sódio em IRC/anúria
Interações
Precipita com cálcio (nunca na mesma via). Inativa adrenalina se misturados. Alcaliniza urina (pode afetar excreção de drogas)
Alerta — Bicarbonato NÃO é Rotina na PCR

A acidose da PCR é predominantemente respiratória (acúmulo de CO₂). O tratamento é ventilação eficaz + RCP de qualidade, não bicarbonato. O bicarbonato gera CO₂, que piora a acidose intracelular. Use apenas nas indicações específicas acima. Dar bicarbonato de rotina pode piorar o desfecho.

Gluconato de Cálcio 10%
Gluconato de Cálcio® — Genérico disponível
Apresentação
Ampola 10% — 10mL = 1g (93mg de cálcio elementar). Alternativa: Cloreto de Cálcio 10% — 10mL = 1g (272mg de cálcio elementar — 3× mais potente)
Dose
PCR por hipercalemia: Gluconato de Cálcio 10–30mL (1–3g) EV em bolus, repetir a cada 5–10min conforme ECG (dose acumulada pode chegar a 60mL/6g). Cloreto de Cálcio 10–20mL (1–2g) EV como alternativa mais potente. Hipercalemia sem PCR: 10–20mL de gluconato 10% EV em 2–3min
Via
EV (preferencialmente acesso central para Cloreto de Cálcio — irrita veia periférica). Gluconato pode ser dado em periférica.
Intervalo
Pode repetir em 5min se ECG persistir com alterações de hipercalemia
Dose Máxima
Não há limite rígido na emergência. Guiar por ECG e cálcio sérico
Indicação
Hipercalemia com alterações de ECG (T apiculada, QRS largo, bradicardia); PCR por hipercalemia; intoxicação por BCC; hipocalcemia grave; hipermagnesemia
Contraindicações
Hipercalcemia; intoxicação digitálica (cálcio potencializa toxicidade → risco de FV). Relativa: uso de digoxina
Interações
NUNCA misturar com bicarbonato (precipitação). Potencializa toxicidade de digoxina. Antagoniza BCC (é o antídoto)
Pérola Prática

O cálcio na hipercalemia estabiliza a membrana miocárdica (não baixa o potássio). Efeito em ~1–3min, duração ~30–60min. Para realmente baixar o K⁺: insulina regular 10UI + glicose 50% 50mL EV (onset ~15min), beta2-agonista inalatório (salbutamol 10–20 gotas nebulizado), e resina de troca (Sorcal® — efeito em horas). Na emergência: cálcio + insulina/glicose é o combo mais eficaz.


Referências — PCR / ACLS:
AHA Guidelines for CPR and Emergency Cardiovascular Care | Panchal AR et al., Circulation | 2020 → AHA 2025 CPR/ECC Guidelines (atualização completa). | AHA 2025 Guidelines: cadeia de sobrevivência unificada, acesso IV preferencial sobre IO, compressões max 2.4 polegadas. | ILCOR CoSTR (Consensus on Science and Treatment Recommendations), 2023. | SBC — Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar e Cuidados Cardiovasculares de Emergência, 2019. | TTM2 Trial (temperatura pós-PCR): Dankiewicz J et al., NEJM 2021. | PARAMEDIC2 Trial (adrenalina na PCR): Perkins GD et al., NEJM 2018. | ALPS Trial (amiodarona vs lidocaína): Kudenchuk PJ et al., NEJM 2016. | Protocolo CASA (POCUS na PCR): Defined by multiple observational studies.
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Síncope

Abordagem Sindrômica

Definição — ESC 2018: Perda transitória de consciência (PTC) com início rápido, duração breve, recuperação espontânea e completa, causada por hipoperfusão cerebral global transitória. Se não houve perda real de consciência → não é síncope.

Cenário típico no PS

Paciente trazido após "desmaio" — frequentemente já está acordado, lúcido, normotenso. O desafio não é reanimar, mas estratificar risco: quem vai pra casa e quem precisa ficar.

Perguntas-chave na anamnese (os "5 Ps")

1. Posição — Em pé, sentado, deitado? (Deitado → pensar em cardíaca)
2. Provocação — Exercício, emoção, tosse, micção, rotação cervical, ortostase prolongada?
3. Pródromos — Náusea, sudorese, visão turva (vasovagal) vs. sem pródromos (cardíaca)?
4. Palpitações — Antes do evento? (Arritmia)
5. Passado — Cardiopatia estrutural? Síncope prévia? Morte súbita familiar?

Red flags para síncope cardíaca: síncope durante exercício ou em decúbito, sem pródromos, palpitações precedendo, sopro cardíaco novo, história familiar de morte súbita <50 anos, ECG anormal, cardiopatia estrutural conhecida, anemia grave.
Dica prática: Testemunhas são ouro. Movimentos tônico-clônicos breves (<15 s) podem ocorrer em síncope convulsiva (por hipoperfusão) — não significa epilepsia. Perguntar sobre mordedura lateral de língua, incontinência prolongada e confusão pós-ictal (>5 min), que favorecem crise epiléptica.

Fluxograma de Avaliação

PTC — Perda transitória de consciência É síncope verdadeira? (hipoperfusão cerebral global) Não Epilepsia, AIT, psicogênica, queda Sim Avaliação inicial: ECG 12 derivações + anamnese detalhada + PA ortostática Causa identificada? (ECG diagnóstico ou reflexa clara) Sim Tratar causa Não Estratificação de risco Canadian Syncope Risk Score / EGSYS / clínica BAIXO RISCO Alta com orientações Seguimento ambulatorial Baixo ALTO RISCO Internação + monitorização Eco + Holter ± EEF Alto Se ECG anormal (BAV 2°/3°, QTc >500 ms, Brugada, WPW, TV) → internação independente do score Troponina e BNP se suspeita de SCA ou IC associada

Diagnósticos Diferenciais

A. Síncope Reflexa (Neuromediada) — ~60% dos casos

Vasovagal: a mais comum. Pródromos típicos (náusea, sudorese, visão turva), gatilho emocional ou ortostático. Geralmente benigna, prognóstico excelente.

Situacional: pós-miccional, pós-tosse (ictus tussis), pós-deglutição, pós-exercício.

Hipersensibilidade do seio carotídeo: homens >60 anos, ao barbear ou girar pescoço. Pausa >3 s ou queda de PAS >50 mmHg na massagem do seio carotídeo (fazer apenas com monitorização e acesso venoso).

B. Síncope por Hipotensão Ortostática — ~15%

Clássica: queda de PAS ≥20 mmHg ou PAD ≥10 mmHg em 3 min de ortostase. Causas: desidratação, medicamentos (anti-hipertensivos, diuréticos, antidepressivos tricíclicos, alfa-bloqueadores), neuropatia autonômica (diabetes, Parkinson, amiloidose).

Inicial: queda nos primeiros 15 s (medir PA com equipamento beat-to-beat).

Teste de hipotensão ortostática no PS: PA e FC em decúbito (após 5 min), depois em ortostase (1 min e 3 min). Interpretar: se PA cai sem aumento compensatório de FC → falência autonômica. Se FC sobe >30 bpm (ou >120 bpm) sem hipotensão → considerar POTS (síndrome de taquicardia postural).

C. Síncope Cardíaca — ~15-20%

Arrítmica (mais comum): bradiarritmias (BAV avançado, doença do nó sinusal), taquiarritmias (TV, TV polimórfica, torsades), disfunção de dispositivo (MP/CDI).

Estrutural: estenose aórtica grave, CMHO, mixoma atrial, TEP maciço, dissecção de aorta, tamponamento, hipertensão pulmonar grave.

Mortalidade: Síncope cardíaca tem mortalidade em 1 ano de ~18-33%. Síncope reflexa <2%. Isso justifica a agressividade na investigação quando há suspeita cardíaca.

D. Não-síncope (PTC não sincopal)

Epilepsia (confusão pós-ictal prolongada, movimentos clônicos rítmicos >30 s), AIT vertebrobasilar (raro causar PTC isolada), hipoglicemia, intoxicação, psicogênica (pseudossíncope — duração prolongada, olhos fechados com resistência à abertura, sem alteração hemodinâmica).

Estratificação de Risco

Canadian Syncope Risk Score (CSRS) — validado para PS

Aplicar em pacientes com síncope e avaliação inicial sem causa definida:

Variáveis (pontuação):
Predisposição vasovagal: −1
Doença cardíaca na história ou ECG anormal: +1 cada
Troponina elevada (acima do percentil 99): +2
PAS <90 ou >180 mmHg no PS: +2
Diagnóstico de síncope vasovagal no PS: −2

Risco de evento adverso grave em 30 dias:
≤ −2: muito baixo (~1%)
−1: baixo (~3%)
0 a 1: médio (~5-8%)
2 a 3: alto (~12-15%)
≥ 4: muito alto (~25%+)

Critérios de internação (ESC 2018 / SBC)

Internar se qualquer um presente:

— ECG anormal sugestivo de arritmia (BAV 2°/3°, bloqueio bifascicular, QTc >500 ms, padrão de Brugada, pré-excitação, TV não sustentada)
— Síncope durante exercício
— Síncope em decúbito
— Palpitações precedendo síncope
— Cardiopatia estrutural grave conhecida (FE <35%, EAo grave, CMHO)
— Anemia significativa (Hb <9)
— Distúrbio eletrolítico grave
— Trauma significativo decorrente da síncope
— História familiar de morte súbita <50 anos
— Dispositivo cardíaco (MP/CDI) com suspeita de disfunção
— PAS persistente <90 mmHg

Alta segura do PS: paciente jovem (<40 anos), sem cardiopatia, ECG normal, síncope com pródromos típicos vasovagais e gatilho identificável, exame físico normal, sem trauma. Orientar: hidratação, evitar gatilhos, manobras de contrapressão, procurar PS se recorrência.

Manejo no PS

Avaliação inicial obrigatória (todos os pacientes)

— ECG de 12 derivações (obrigatório em 100% dos casos)
— Monitorização cardíaca contínua se suspeita de arritmia
— PA em decúbito e ortostase (teste formal)
— Glicemia capilar
— Hemograma (excluir anemia)
— Eletrólitos (K, Na, Mg, Ca) se suspeita clínica
— Troponina se suspeita de SCA concomitante
— BNP/NT-proBNP se suspeita de IC

Manejo conforme etiologia

Vasovagal no PS: Repouso, hidratação EV se desidratado, orientação sobre manobras de contrapressão isométrica (cruzar pernas e contrair, handgrip). Não há indicação de medicação de rotina no PS para vasovagal. Evitar atropina para vasovagal simples (uso apenas se bradicardia sintomática sustentada).

Hipotensão ortostática: Hidratação EV (SF 0,9% 500-1000 mL se desidratação), revisar e ajustar/suspender medicamentos causadores (diuréticos, anti-hipertensivos, alfa-bloqueadores), meias elásticas, orientar levantar-se gradualmente. Se grave e refratária: fludrocortisona ou midodrina (iniciar ambulatorialmente).

Bradicardia sintomática (BAV avançado, pausa sinusal): Atropina 1 mg EV (ver prescrição abaixo). Se refratária: marcapasso transcutâneo provisório. Contato com cardiologia/eletrofisiologia para avaliação de MP definitivo.

Taquiarritmia identificada: Tratar conforme Tema 3 (Arritmias). TV sustentada → cardioversão. TSV → manobras vagais → adenosina.

Suspeita de causa estrutural: Ecocardiograma (preferencialmente nas primeiras 24h se internado). Se estenose aórtica grave → evitar vasodilatadores, manter volume.

Não fazer: Massagem do seio carotídeo no PS sem monitorização e acesso venoso — risco de assistolia prolongada. Contraindicada se sopro carotídeo, AVC/AIT recente (<3 meses), ou arritmia ventricular conhecida.
Síncope + ECG normal + jovem + vasovagal típica = alta. Não solicitar eco, Holter ou exames adicionais no PS nesses casos — seguimento ambulatorial é suficiente. Excesso de exames gera custos, ansiedade e internação desnecessária.

Prescrições

Atropina — Bradicardia Sintomática

IndicaçãoBradicardia sintomática com hipotensão ou síncope (BAV de 2° grau tipo I, pausa sinusal). Primeira linha no PS enquanto aguarda marcapasso.
MedicamentoSulfato de Atropina
ApresentaçãoAmpola 0,25 mg/mL (1 mL) ou 0,5 mg/mL (1 mL)
Dose1 mg EV em bolus (AHA 2025). Repetir a cada 3-5 min se necessário. Dose máxima: 3 mg. Doses <0,5 mg podem causar bradicardia paradoxal.
Diluição / PreparoPode ser feita pura (sem diluir) EV em bolus rápido. Se ampola de 0,25 mg/mL, usar 2 mL por dose.
Via / VelocidadeEV em bolus rápido. Não fazer lento (ineficaz e pode piorar bradicardia paradoxalmente em doses <0,5 mg).
Efeitos adversosTaquicardia sinusal, boca seca, retenção urinária, midríase, agitação. Em idosos: confusão mental, retenção urinária aguda.
Ajuste renalSem ajuste necessário em dose de emergência.
InteraçõesEfeito anticolinérgico aditivo com anti-histamínicos, antipsicóticos, antidepressivos tricíclicos. Pode antagonizar efeito de betabloqueadores (desejável neste contexto).
Marca referência BRAtropina genérica (diversas — Hypofarma, Isofarma). Não há marca de referência única.
Pérola clínicaDoses <0,5 mg podem causar bradicardia paradoxal por estimulação vagal central. Dose inicial recomendada: 1 mg (AHA 2025). Sempre usar ≥0,5 mg por dose. Ineficaz em BAV de 2° tipo II e BAV total (infranodais) — nesses casos, ir direto para marcapasso transcutâneo.

Marcapasso Transcutâneo Provisório

IndicaçãoBradicardia instável refratária a atropina (BAV 2° tipo II, BAVT, bradicardia com choque). Ponte para marcapasso transvenoso.
MedicamentoNão é fármaco — é dispositivo. Incluído aqui por ser conduta de emergência no contexto de síncope por bradicardia.
ApresentaçãoDesfibrilador com função de marca-passo externo (ex.: Zoll, Physio-Control/Lifepak). Eletrodos adesivos.
DoseFrequência: iniciar com 60-80 bpm. Corrente: iniciar com 0 mA e aumentar gradualmente até captura (geralmente 50-100 mA). Usar a menor corrente com captura consistente + margem de 10%.
Diluição / PreparoPosicionar eletrodos: anteroposterior (esterno e dorso) é preferível. Conectar ao desfibrilador no modo "Pacer". Garantir bom contato (pele seca, sem excesso de pelos).
Via / VelocidadeTranscutâneo. Verificar captura mecânica (pulso palpável com cada spike) — captura elétrica no monitor não garante débito.
Efeitos adversosDor significativa (contrações musculares torácicas), queimaduras cutâneas (uso prolongado), falha de captura, inibição por artefato.
Ajuste renalNão aplicável.
InteraçõesEvitar posicionar eletrodo sobre gerador de MP/CDI implantado. Sedação/analgesia recomendada se paciente consciente (midazolam 1-2 mg + fentanil 25-50 mcg EV).
Marca referência BRZoll M2, Lifepak 20e (equipamentos de desfibrilação com função pacer presentes em PS de referência).
Pérola clínicaSempre verificar pulso mecânico — o monitor pode mostrar complexos de captura, mas sem débito cardíaco efetivo (dissociação eletromecânica). Se consciente, sedar antes: dor é intensa e causa movimentação que dificulta captura.

Hidratação Venosa — Hipotensão Ortostática

IndicaçãoSíncope por hipotensão ortostática com sinais de desidratação. Também usado como suporte em síncope vasovagal com hipotensão persistente no PS.
MedicamentoSoro Fisiológico 0,9% (NaCl 0,9%)
ApresentaçãoBolsa 250 mL, 500 mL ou 1000 mL
Dose500-1000 mL em infusão rápida (30-60 min) se desidratação. Reavaliar clínica e PA ortostática após. Máximo guiado por clínica — se IC conhecida, volume cauteloso (250 mL com reavaliação).
Diluição / PreparoInfusão direta da bolsa. Sem diluição adicional.
Via / VelocidadeEV periférico. 500 mL em 30-60 min (ou mais rápido se choque hipovolêmico). Se IC: 250 mL em 60 min com ausculta pulmonar seriada.
Efeitos adversosHipervolemia, congestão pulmonar (em IC), hipernatremia (raro com dose única), edema periférico.
Ajuste renalUsar com cautela em DRC estágio 4-5 (TFG <30) — risco de hipervolemia. Monitorar débito urinário.
InteraçõesCuidado ao associar com drogas nefrotóxicas. Ajustar se uso concomitante de diuréticos (pode ser necessário suspender o diurético).
Marca referência BRSF 0,9% — Baxter, Fresenius Kabi, Eurofarma, Halex Istar (genérico institucional).
Pérola clínicaApós hidratação, repetir PA ortostática em 1h. Se normalizar e paciente sem red flags → alta com orientação de hidratação oral (2-2,5 L/dia), aumento de ingesta de sal (se não hipertenso), e meias elásticas de compressão 20-30 mmHg.

Midodrina — Hipotensão Ortostática Refratária

IndicaçãoHipotensão ortostática sintomática refratária a medidas não farmacológicas. Início no PS raramente necessário — prescrição para seguimento ambulatorial. Útil em neuropatia autonômica.
MedicamentoCloridrato de Midodrina
ApresentaçãoComprimidos de 2,5 mg e 5 mg
DoseIniciar 2,5 mg VO 2-3x/dia (manhã, almoço, e no máximo até 16h). Titular até 10 mg 3x/dia conforme resposta e tolerância. Não administrar à noite — risco de hipertensão supina.
Diluição / PreparoVia oral, sem diluição. Tomar com água.
Via / VelocidadeVO. Início de ação: ~1 hora. Pico: 1-2 horas. Duração: ~4 horas. Por isso, última dose até 16h.
Efeitos adversosHipertensão supina (principal — monitorar PA deitado), piloereção, prurido do couro cabeludo, retenção urinária, parestesias.
Ajuste renalIniciar com dose menor (2,5 mg 1-2x/dia) se TFG <30 mL/min. Contraindicada em DRC dialítica sem orientação do nefrologista.
InteraçõesEfeito aditivo hipertensor com IMAO, vasopressores, ergotamínicos. Antagoniza efeito de alfa-bloqueadores (doxazosina, tansulosina). Bradicardia reflexa pode ser potencializada por betabloqueadores e digitálicos.
Marca referência BRGutron® (Takeda). Genérico: Cloridrato de Midodrina (Eurofarma, Teuto).
Pérola clínicaOrientar o paciente a medir PA deitado antes de dormir. Se PAS >180 mmHg em supino → suspender dose. A maioria dos plantonistas não inicia midodrina no PS — encaminhar com prescrição para ajuste ambulatorial. No PS, a prioridade é hidratação + suspensão de drogas causadoras.

Fludrocortisona — Hipotensão Ortostática (alternativa)

IndicaçãoHipotensão ortostática refratária, especialmente em falência autonômica (Parkinson, neuropatia diabética, amiloidose). Alternativa ou adjunto à midodrina. Prescrição ambulatorial.
MedicamentoAcetato de Fludrocortisona
ApresentaçãoComprimido de 0,1 mg (Florinef®)
DoseIniciar 0,1 mg VO 1x/dia pela manhã. Titular até 0,3 mg/dia conforme resposta. Dose usual: 0,1-0,2 mg/dia.
Diluição / PreparoVia oral, sem diluição. Tomar com água, preferencialmente pela manhã.
Via / VelocidadeVO. Início de ação: dias a semanas para efeito pleno (retenção de sódio e expansão volêmica progressiva). Não é droga de resgate agudo.
Efeitos adversosHipocalemia (monitorar K+), edema periférico, hipertensão supina, insuficiência cardíaca em predispostos, cefaleia, ganho de peso.
Ajuste renalUsar com cautela em DRC — risco de hipervolemia e hipocalemia. Monitorar eletrólitos semanalmente no início.
InteraçõesRisco de hipocalemia com diuréticos de alça, tiazídicos e anfotericina B. Efeito reduzido por rifampicina e fenitoína (indutores enzimáticos). Potencializa toxicidade da digoxina (por hipocalemia).
Marca referência BRFlorinef® (Aspen Pharma — importado, disponibilidade irregular no BR). Pode necessitar de importação ou farmácia de manipulação.
Pérola clínicaNão iniciar no PS. Prescrição ambulatorial. O efeito leva dias/semanas. Monitorar K+ semanalmente nas primeiras 4 semanas. Contraindicada em IC com FE reduzida (piora congestão). Associar suplementação de potássio se necessário (KCl 600 mg 1-2x/dia).

Referências

1. Brignole M, Moya A, de Lange FJ et al. 2018 ESC Guidelines for the diagnosis and management of syncope. Eur Heart J. 2018;39(21):1883-1948. doi:10.1093/eurheartj/ehy037

2. Shen WK, Sheldon RS, Benditt DG et al. 2017 ACC/AHA/HRS Guideline for the Evaluation and Management of Patients With Syncope. J Am Coll Cardiol. 2017;70(5):e39-e110.

3. Thiruganasambandamoorthy V et al. Development and validation of the Canadian Syncope Risk Score. CMAJ. 2016;188(12):E289-E298.

4. Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz de Síncope — SBC. Arq Bras Cardiol. 2019.

5. Costantino G et al. Short- and long-term prognosis of syncope. Europace. 2014;16(suppl 1):i34-i40.

6. Sutton R, Brignole M. Twenty-eight years of research permit reinterpretation of tilt-testing: hypotensive susceptibility rather than diagnosis. Eur Heart J. 2014;35(33):2211-2212.

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Dissecção de Aorta

Abordagem Sindrômica

Emergência tempo-dependente: Mortalidade da dissecção tipo A não operada é ~1-2% por hora nas primeiras 48h. Suspeita clínica → estabilização + imagem IMEDIATA. Não esperar resultado de D-dímero para solicitar imagem.

Cenário típico no PS

Paciente (geralmente hipertenso, 50-70 anos) com dor torácica de início súbito, "rasgando" ou "dilacerante", irradiação para dorso, máxima intensidade desde o início. Diferente da SCA, onde a dor é em crescendo.

Tríade clássica (nem sempre completa)

1. Dor torácica aguda lancinante — início abrupto, intensidade máxima imediata ("a pior dor da vida"), irradiação para dorso (tipo A e B) ou abdome (tipo B descendente).
2. Assimetria de pulsos ou PA — diferença de PAS >20 mmHg entre membros superiores (presente em ~30% tipo A).
3. Sopro de insuficiência aórtica — novo, diastólico, em foco aórtico (tipo A com envolvimento valvar).

Classificação de Stanford (a que importa no PS)

Tipo A: envolve aorta ascendente (independente do ponto de entrada). Tratamento: cirurgia de emergência.
Tipo B: aorta descendente apenas (distal à subclávia esquerda). Tratamento: clínico (controle de PA/FC) ± intervenção se complicada.

Dica prática: Dor torácica + déficit neurológico (AVC, paraparesia) + hipertensão = pensar em dissecção de aorta até provar o contrário. Até 20% dos tipos A simulam AVC por obstrução de carótida.
Fatores de risco: HAS (presente em 70-80%), Marfan, Ehlers-Danlos, válvula aórtica bicúspide, coarctação de aorta, cocaína/anfetaminas, gestação (3° trimestre), cirurgia cardíaca prévia, aortite, trauma.
Nova Classificação TEM (ESC 2024)

A ESC 2024 introduz a classificação TEM para síndromes aórticas agudas:

  • T (Type): Stanford modificado — A (aorta ascendente), B (descendente), não-A não-B (arco)
  • E (Entry): localização do tear — 0: indeterminado/HIM; 1: ascendente; 2: arco; 3: descendente
  • M (Malperfusion): 0: ausente; 1: coronariana; 2: troncos supra-aórticos; 3: visceral/medular/membros. Sinal: − ou +

Dissecção tipo B complicada: TEVAR é 1ª linha (Classe I/B). Tipo B não complicada: TEVAR na fase subaguda (IIa/B).

Fluxograma de Avaliação

Dor torácica aguda lancinante início súbito, irradiação dorso Avaliação inicial rápida PA em 4 membros · Pulsos · Sopro Ao · ECG · Rx tórax ADD Risk Score ≥1? (condições + dor + exame) Não (0) Baixa prob. D-dímero Sim AngioTC de aorta (1ª escolha) ou ETE se instável / alergia contraste Dissecção confirmada? Tipo A Tipo B CIRURGIA emergência CLÍNICO PA + FC Enquanto aguarda cirurgia: PAS 100-120 · FC <60 ideal Esmolol / Labetalol + analgesia Complicado? (isquemia, ruptura, expansão rápida) TEVAR / cirurgia Não Manter clínico + UTI Metas: PAS 100-120 mmHg · FC <60 (ideal), ≤80 (aceitável) — ESC 2024 · BB ANTES de vasodilatador Analgesia agressiva (morfina) — dor aumenta PA e propaga dissecção

Diagnósticos Diferenciais

SCA/IAM: Dor em crescendo (não máxima no início), alteração de ECG segmentar, troponina positiva. Atenção: dissecção tipo A pode causar IAM (oclusão de coronária) — solicitar ECG e troponina, mas não trombolisar nem anticoagular sem excluir dissecção.

TEP maciço: Dispneia predomina, hipoxemia, D-dímero elevado, taquicardia. AngioTC diferencia.

Pneumotórax hipertensivo: Dispneia aguda, MV abolido unilateral, desvio de traqueia. Rx tórax diferencia.

Ruptura esofágica (Boerhaave): Dor torácica após vômitos, enfisema subcutâneo, derrame pleural à esquerda.

Cólica biliar/pancreatite: Se dor irradia para dorso em tipo B descendente, pode mimetizar abdome agudo.

Armadilha mortal: Dissecção tipo A com oclusão de coronária direita → supra de ST em parede inferior → paciente recebe trombolítico → hemorragia fatal. Sempre considerar dissecção antes de trombolisar IAM com dor atípica ou fatores de risco.

Manejo no PS

Estabilização imediata (antes da imagem)

— 2 acessos venosos periféricos calibrosos (16-18G)
— Monitorização contínua (PA invasiva se disponível)
— PA em 4 membros (diferença >20 mmHg = red flag)
— Tipagem sanguínea + reserva de hemoderivados (4-6 CH)
— ECG (excluir IAM concomitante / identificar supra por dissecção coronariana)
— Analgesia imediata com opioide (dor propaga dissecção via descarga adrenérgica)
— Controle agressivo de PA e FC: meta PAS 100-120 mmHg e FC <60 bpm ideal, ≤80 aceitável (ESC 2024)

Sequência de drogas — regra do "beta PRIMEIRO"

1° Betabloqueador EV (esmolol ou labetalol) — reduz FC e dP/dt (força de cisalhamento). Iniciar ANTES de vasodilatador.
2° Se a PAS persistir >120 → associar nitroprussiato de sódio (ver Tema 4).
3° Analgesia → morfina EV (reduz dor + reduz descarga adrenérgica).

Nunca usar vasodilatador isolado (nitroprussiato, NTG) sem betabloqueador: vasodilatação causa taquicardia reflexa → aumenta dP/dt → propaga dissecção. Betabloqueador primeiro, sempre.

Imagem confirmatória

AngioTC de aorta: exame de escolha. Sensibilidade ~95-100%, rápido, disponível. Avalia extensão, envolvimento de ramos, presença de malperfusão.
ETE: alternativa se instabilidade impede transporte para TC, ou alergia ao contraste. Boa para tipo A.
Rx tórax: alargamento de mediastino (>8 cm) em 60-70%, mas Rx normal NÃO exclui dissecção.

Conduta definitiva

Tipo A → Cirurgia de emergência. Acionar cirurgia cardiovascular imediatamente. Manter controle de PA/FC enquanto aguarda centro cirúrgico.
Tipo B não complicado → Tratamento clínico. UTI, controle rigoroso de PA (transição para VO em 48-72h), monitorização com imagem seriada.
Tipo B complicado (malperfusão visceral/renal/membros, ruptura iminente, expansão rápida, dor refratária) → TEVAR (endoprótese) ou cirurgia aberta.

Prescrições

Esmolol — Controle de FC e PA (1ª linha)

IndicaçãoControle agudo de FC e PA na dissecção de aorta. Beta-1 seletivo de ultracurta ação — ideal para titulação fina em cenário instável.
MedicamentoCloridrato de Esmolol
ApresentaçãoAmpola 2.500 mg/250 mL (10 mg/mL) pronto para uso, ou ampola 100 mg/10 mL para diluição.
DoseBolus: 500 mcg/kg EV em 1 min (opcional — pode iniciar direto na infusão). Infusão: iniciar 50 mcg/kg/min. Titular a cada 4-5 min em incrementos de 50 mcg/kg/min. Dose máxima: 300 mcg/kg/min. Meta: FC <60 bpm ideal, ≤80 aceitável; PAS 100-120 mmHg (ESC 2024).
Diluição / PreparoSolução pronta 10 mg/mL: usar direto em bomba de infusão (BIC). Se ampola concentrada (100 mg/10 mL): diluir em SF 0,9% ou SG 5% para concentração final de 10 mg/mL.
Via / VelocidadeEV em BIC exclusiva. Meia-vida: ~9 minutos (ultracurta) — efeito cessa em minutos após desligar.
Efeitos adversosHipotensão (comum se bolus rápido), bradicardia excessiva, broncoespasmo (raro, beta-1 seletivo em doses baixas), flebite no sítio de infusão.
Ajuste renalSem ajuste. Metabolizado por esterases plasmáticas, não por via renal/hepática.
InteraçõesBradicardia aditiva com diltiazem, verapamil, digoxina. Hipotensão aditiva com nitroprussiato (esperado neste contexto — monitorar). Evitar com cocaína (risco teórico de espasmo coronariano sem oposição alfa).
Marca referência BRBrevibloc® (Baxter). Genérico: Cloridrato de Esmolol (Eurofarma, Blau).
Pérola clínicaVantagem principal: meia-vida ultracurta. Se hipotensão → desligar BIC e em 5-10 min o efeito some. Ideal quando o status hemodinâmico é incerto. Se não disponível, usar labetalol EV como alternativa.

Labetalol — Alternativa ao Esmolol

IndicaçãoControle de PA e FC na dissecção de aorta quando esmolol não está disponível. Bloqueio alfa + beta combinado.
MedicamentoCloridrato de Labetalol
ApresentaçãoAmpola 100 mg/20 mL (5 mg/mL)
DoseBolus: 20 mg EV em 2 min. Repetir 20-80 mg a cada 10 min (dose máxima cumulativa: 300 mg). Infusão contínua: 0,5-2 mg/min após bolus. Meta: mesma (PAS 100-120, FC <60 ideal/≤80 aceitável — ESC 2024).
Diluição / PreparoBolus: pode ser feito puro (lento). Infusão: diluir 200 mg (2 ampolas) em 200 mL SF 0,9% → 1 mg/mL. Correr em BIC.
Via / VelocidadeEV. Bolus em 2 min (não fazer rápido — risco de hipotensão grave). Infusão contínua em BIC. Meia-vida: 5-8 horas (muito mais longa que esmolol — cuidado na titulação).
Efeitos adversosHipotensão ortostática, bradicardia, broncoespasmo (menos seletivo que esmolol), náusea, fadiga, tontura. Hepatotoxicidade (raro, uso crônico).
Ajuste renalSem ajuste necessário (metabolização hepática). Cautela em hepatopatia grave.
InteraçõesPotencializa hipotensão com outros anti-hipertensivos e nitratos. Bradicardia aditiva com BCC não-diidropiridínicos. Mascara hipoglicemia em diabéticos (menos que propranolol, mas cuidado).
Marca referência BRTrandate® (importado — disponibilidade limitada). Labetalol manipulado EV pode ser obtido em hospitais de referência.
Pérola clínicaMeia-vida longa é a principal desvantagem: se causar hipotensão, o efeito demora horas para passar (vs. minutos do esmolol). Na prática brasileira, esmolol é preferível quando disponível. Se nenhum dos dois existir, usar metoprolol EV 5 mg a cada 5 min (máx 15 mg) — menos ideal mas aceitável.

Morfina — Analgesia na Dissecção

IndicaçãoAnalgesia na dissecção de aorta. Dor intensa causa descarga adrenérgica → aumenta PA e FC → propaga dissecção. Analgesia é terapêutica, não apenas conforto.
MedicamentoSulfato de Morfina
ApresentaçãoAmpola 10 mg/mL (1 mL) ou 1 mg/mL (2 mL)
Dose2-4 mg EV lento, repetir a cada 5-15 min até alívio adequado (máximo 15-20 mg nas primeiras 30 min, monitorar frequência respiratória). Titular conforme dor e nível de consciência.
Diluição / PreparoDiluir 1 ampola (10 mg) em 9 mL SF 0,9% → 1 mg/mL. Facilita titulação (cada mL = 1 mg).
Via / VelocidadeEV lento (1-2 mg por minuto). Manter paciente monitorizado. Ter naloxona disponível (0,4 mg EV) para reversão se depressão respiratória.
Efeitos adversosDepressão respiratória (principal), hipotensão (liberação histamínica), náusea/vômito, prurido, retenção urinária, constipação.
Ajuste renalTFG <30: reduzir dose em 50% e aumentar intervalo. Metabólito ativo (M6G) acumula em DRC → risco de depressão respiratória prolongada. Preferir fentanil em DRC grave.
InteraçõesPotencializa depressão do SNC com benzodiazepínicos, propofol, outros opioides. Hipotensão aditiva com betabloqueadores e vasodilatadores (monitorar — neste contexto, alguma hipotensão é desejável).
Marca referência BRDimorf® (Cristália). Genérico: Sulfato de Morfina (diversas).
Pérola clínicaNa dissecção, não tenha medo de usar morfina suficiente. Subtratar dor = manter PA alta = propagar dissecção. Se dor refratária a morfina → considerar fentanil EV (50-100 mcg em bolus, depois infusão) ou associar cetamina em dose subdissociativa (0,3 mg/kg).

Referências

1. Erbel R, Aboyans V, Boileau C et al. 2014 ESC Guidelines on the diagnosis and treatment of aortic diseases. Eur Heart J. 2014;35(41):2873-2926. → Substituída por: ESC 2024 Guidelines for PAD and Aortic Diseases (Mazzolai L et al., Eur Heart J 2024). Classificação TEM. TEVAR tipo B complicada Classe I.

2. Isselbacher EM et al. 2022 ACC/AHA Guideline for the Diagnosis and Management of Aortic Disease. J Am Coll Cardiol. 2022;80(24):e223-e393.

3. Hiratzka LF et al. 2010 ACCF/AHA/AATS/ACR/ASA/SCA/SCAI/SIR/STS/SVM Guidelines for the Diagnosis and Management of Patients With Thoracic Aortic Disease. Circulation. 2010;121(13):e266-e369.

4. Nienaber CA, Clough RE. Management of acute aortic dissection. Lancet. 2015;385(9970):800-811.

5. Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz de Doenças da Aorta. Arq Bras Cardiol. 2020.

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Tamponamento Cardíaco

Abordagem Sindrômica

Emergência cirúrgica: Tamponamento é uma causa reversível de choque obstrutivo e de PCR (o "T" de tamponamento nos 5T's). Diagnóstico clínico + POCUS → pericardiocentese de alívio se instabilidade.

Definição e fisiopatologia (resumo prático)

Acúmulo de líquido no espaço pericárdico em volume ou velocidade suficiente para comprometer o enchimento diastólico → queda do débito cardíaco → choque obstrutivo. A velocidade importa mais que o volume: 150-200 mL agudos podem tamponar; derrames crônicos de 1-2 L podem ser tolerados.

Tríade de Beck (tamponamento agudo)

1. Hipotensão (queda do débito cardíaco)
2. Turgência jugular (aumento da PVC por restrição ao enchimento)
3. Bulhas cardíacas hipofonéticas (líquido pericárdico abafa sons)

Dica prática: A tríade de Beck completa está presente em <30% dos casos. Turgência jugular + hipotensão inexplicada já deve levantar suspeita. Pulso paradoxal (queda de PAS >10 mmHg na inspiração) é o sinal mais sensível (presente em ~80%), mas difícil de aferir em paciente instável.

Etiologias principais no PS

Trauma: penetrante (arma branca/fogo) ou contuso — causa mais comum no trauma. Hemopericárdio.
Neoplásico: metástases pericárdicas (pulmão, mama, linfoma, melanoma) — causa mais comum de tamponamento não-traumático.
Pós-IAM: ruptura de parede livre (raro, catastrófico) ou pericardite pós-IAM com derrame.
Iatrogênico: pós-cateterismo, pós-ablação, pós-implante de MP/CDI, pós-cirurgia cardíaca.
Infeccioso: pericardite viral, tuberculose (comum no Brasil), pericardite purulenta.
Urêmico: DRC em diálise inadequada.
Dissecção de aorta tipo A: ruptura para saco pericárdico.

Fluxograma de Avaliação

Choque + turgência jugular ± bulhas hipofonéticas · ± pulso paradoxal POCUS / Eco beira-leito Subcostal ou paraesternal — derrame pericárdico? Derrame com sinais de tamponamento? Não Outras causas de choque Sim Instável / choque? Sim PERICARDIO- CENTESE de alívio Não Monitorizar Eco seriado Estabilizou? → Eco formal + investigar causa Não estabilizou / trauma → Toracotomia / janela Sinais eco de tamponamento: colapso diastólico de AD > colapso de VD > variação respiratória exagerada do fluxo mitral (>25%) · VCI dilatada sem colapso

Diagnósticos Diferenciais

Pneumotórax hipertensivo: Também causa choque obstrutivo com turgência jugular, mas MV abolido unilateral, desvio de traqueia, hipertimpanismo. POCUS diferencia (ausência de deslizamento pleural vs. derrame pericárdico).

TEP maciço: Choque obstrutivo com turgência jugular, mas VD dilatado sem derrame pericárdico significativo. POCUS: VD>VE, septo paradoxal, sem derrame.

ICC direita descompensada: Turgência jugular + hipotensão, mas geralmente subagudo, sem pulso paradoxal, eco mostra disfunção de VD sem derrame significativo.

Pericardite constritiva: Apresentação crônica com sinais de IC direita. Diferencia-se por espessamento pericárdico (TC/RNM) e hemodinâmica com sinal da raiz quadrada.

Manejo no PS

Medidas imediatas

— Monitorização contínua + 2 acessos calibrosos
Expansão volêmica agressiva: SF 0,9% 500-1000 mL em bolus rápido. Aumentar pré-carga é a ponte até a drenagem — melhora temporariamente o DC
NÃO usar diuréticos (reduzem pré-carga), betabloqueadores (paciente depende de taquicardia compensatória), PEEP alta em ventilação mecânica (reduz retorno venoso)
— Manter paciente sentado ou semi-sentado (melhora retorno venoso vs. decúbito)
— Evitar sedação profunda e intubação se possível (VPP reduz retorno venoso → colapso hemodinâmico)

Intubação no tamponamento = risco de PCR. A VPP elimina a pressão negativa intratorácica que mantém o retorno venoso. Se inevitável: preparar para pericardiocentese ANTES de intubar, expandir volume agressivamente, usar cetamina para indução (mantém tônus simpático).

Pericardiocentese de emergência

Indicação: Tamponamento com instabilidade hemodinâmica.
Técnica de Seldinger guiada por eco (preferível): Abordagem subxifoide, agulha 18G angulada 30-45° em direção ao ombro esquerdo, aspiração contínua. Ao obter líquido, passar fio-guia e cateter pigtail para drenagem contínua.
Se eco não disponível: técnica às cegas pela via subxifoide — aceita em emergência extrema.
Volume de alívio: Retirar 20-50 mL iniciais frequentemente já melhora hemodinâmica dramaticamente (relação pressão-volume exponencial do pericárdio).

Dica prática: Se o líquido aspirado for sangue, colocar em gaze: sangue pericárdico crônico geralmente NÃO coagula (desfibrinado pelo movimento cardíaco). Sangue ventricular inadvertido coagula. Isso ajuda a confirmar posição.

Após pericardiocentese

— Enviar líquido para: citologia, cultura, BK, ADA, bioquímica (proteínas, LDH, glicose), celularidade
— Manter dreno pericárdico se produção >25 mL/dia
— Eco de controle pós-drenagem
— Investigar etiologia (ver lista acima)
— Se tamponamento traumático → toracotomia de emergência (pericardiocentese é ponte)

Prescrições

Expansão Volêmica — Ponte para Drenagem

IndicaçãoTamponamento cardíaco com hipotensão. Objetivo: aumentar pré-carga para manter DC até pericardiocentese.
MedicamentoSoro Fisiológico 0,9% (NaCl 0,9%) ou Ringer Lactato
ApresentaçãoBolsa 500 mL ou 1000 mL
Dose500-1000 mL em bolus rápido (sob pressão ou squeeze bag). Repetir conforme resposta clínica. Não há limite fixo — guiar-se por PA e perfusão.
Diluição / PreparoInfusão direta da bolsa. Usar pressurizador para acelerar infusão.
Via / VelocidadeEV periférico calibroso (14-16G) ou acesso central. O mais rápido possível. Aquecer fluidos se volumes grandes (prevenir hipotermia).
Efeitos adversosHipervolemia sistêmica (aceitável neste contexto — a prioridade é manter DC). Monitorar após resolução do tamponamento para evitar congestão.
Ajuste renalSem ajuste em emergência. DRC em diálise com tamponamento urêmico: drenar o tamponamento é a prioridade; diálise depois.
InteraçõesNão relevantes em emergência.
Marca referência BRSF 0,9% ou RL — Baxter, Fresenius Kabi, Eurofarma.
Pérola clínicaVolume é a medida mais importante enquanto não drena. Resposta parcial à expansão + piora com diurético = pensar em tamponamento em paciente com derrame pericárdico conhecido. Se hipotensão refratária a volume → noradrenalina (0,1-0,5 mcg/kg/min) como ponte, mas a drenagem é o tratamento definitivo.

Cetamina — Indução para IOT no Tamponamento

IndicaçãoIndução de sequência rápida para intubação no tamponamento, quando IOT é inevitável. Cetamina mantém tônus simpático e PA — droga de escolha neste contexto.
MedicamentoCloridrato de Cetamina
ApresentaçãoFrasco 500 mg/10 mL (50 mg/mL)
Dose1-2 mg/kg EV em bolus lento (60-90 s). Dose típica para adulto 70 kg: 70-140 mg. Usar a menor dose que permita laringoscopia.
Diluição / PreparoPode ser feita pura ou diluir 500 mg em 10 mL SF (50 mg/mL) e administrar volume calculado. Para dose de 100 mg = 2 mL da solução pura.
Via / VelocidadeEV em bolus lento (60-90 s). Início de ação: 30-60 s. Duração: 10-15 min.
Efeitos adversosHipertensão (geralmente desejável aqui), taquicardia, hipersalivação (associar atropina 0,01 mg/kg se preocupação), emergência disfórica (associar midazolam 1-2 mg se tempo permitir), laringoespasmo (raro).
Ajuste renalSem ajuste necessário.
InteraçõesEvitar associar com teofilina (risco de convulsão). Efeito simpaticomimético aditivo com vasopressores (monitorar). Em pacientes em uso crônico de benzodiazepínicos, pode ser necessária dose maior.
Marca referência BRKetamin® (Cristália), Ketalar® (Pfizer — importado). Genérico: Cloridrato de Cetamina.
Pérola clínicaRegra do tamponamento: DRENAR ANTES de intubar quando possível. Se precisar intubar primeiro, usar cetamina + baixo volume corrente + menor PEEP possível. Ter seringa de pericardiocentese pronta durante a IOT. Colapso hemodinâmico pós-IOT = drenagem imediata.

Noradrenalina — Ponte Vasopressora

IndicaçãoChoque refratário a volume no tamponamento, como ponte para pericardiocentese. Não substitui a drenagem — é medida temporária.
MedicamentoHemitartarato de Norepinefrina (Noradrenalina)
ApresentaçãoAmpola 4 mg/4 mL (1 mg/mL) ou 8 mg/4 mL (2 mg/mL)
DoseIniciar 0,1-0,2 mcg/kg/min. Titular a cada 5 min conforme PA. Dose usual: 0,2-0,5 mcg/kg/min. Neste contexto, manter como ponte até drenagem pericárdica (tratamento definitivo). Doses muito baixas (<0,1 mcg/kg/min) podem ser insuficientes no choque por tamponamento.
Diluição / PreparoDiluir 4 ampolas (16 mg) em 234 mL SG 5% → 64 mcg/mL. Para paciente de 70 kg a 0,1 mcg/kg/min = 7 mcg/min ≈ 6,5 mL/h.
Via / VelocidadeEV em BIC, preferencialmente por acesso central. Acesso periférico calibroso aceitável em emergência (monitorar extravasamento). Diluição mais concentrada se periférico.
Efeitos adversosIsquemia periférica (extravasamento), arritmias, hipertensão reflexa após drenagem (desligar rapidamente após pericardiocentese).
Ajuste renalSem ajuste. Metabolização hepática (COMT/MAO).
InteraçõesEfeito potencializado por IMAO e antidepressivos tricíclicos. Arritmogênico com halotano (evitar em anestesia). Após drenar tamponamento, desligar/titular para baixo imediatamente — PA tende a subir rápido.
Marca referência BRHyponor® (Hypofarma), Norepine® (Blau). Genérico: Hemitartarato de Norepinefrina.
Pérola clínicaVasopressor no tamponamento é "comprar tempo" — minutos, não horas. Se precisa de noradrenalina, a drenagem é urgentíssima. Após drenar com sucesso, desligar vasopressor rapidamente — a PA normaliza em segundos a minutos. Manter infundindo causa hipertensão desnecessária.

Referências

1. Adler Y, Charron P, Imazio M et al. 2015 ESC Guidelines for the diagnosis and management of pericardial diseases. Eur Heart J. 2015;36(42):2921-2964. → Vide ESC 2025 Guidelines for Myocarditis and Pericarditis para recomendações atualizadas.

2. Spodick DH. Acute cardiac tamponade. N Engl J Med. 2003;349(7):684-690.

3. Ristic AD et al. Triage strategy for urgent management of cardiac tamponade. Eur Heart J. 2014;35(34):2279-2284.

4. Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz de Doenças do Pericárdio. Arq Bras Cardiol. 2013.

5. Imazio M, Adler Y. Management of pericardial effusion. Eur Heart J. 2013;34(16):1186-1197.

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Tromboembolismo Pulmonar (TEP)

Abordagem Sindrômica

TEP é camaleão: Apresentação variável — de assintomático a PCR. Pensar em TEP em toda dispneia aguda inexplicada, dor torácica pleurítica, taquicardia ou hipotensão sem causa clara. "Se você não pensar em TEP, você não diagnostica TEP."

Apresentações clínicas no PS

TEP não-maciço: Dispneia aguda (mais comum), dor pleurítica, taquicardia, tosse seca, hemoptise (raro). Pode ser confundido com pneumonia, ansiedade, exacerbação de DPOC.
TEP submaciço: Dispneia + disfunção de VD (eco ou BNP/troponina elevados) mas PA mantida. Zona cinzenta terapêutica.
TEP maciço: Hipotensão persistente (PAS <90 por >15 min) ou choque obstrutivo ou PCR. Mortalidade >50% sem tratamento.

Fatores de risco (Tríade de Virchow aplicada)

Estase: imobilização (>3 dias, viagem >6h), cirurgia recente, IC, obesidade.
Lesão endotelial: trauma, cirurgia, cateter venoso central, TVP prévia.
Hipercoagulabilidade: neoplasia ativa, trombofilias, ACO/TRH, gestação/puerpério, síndrome nefrótica, COVID-19.

Dica prática: TEP sem fator de risco identificável ("não-provocado") ocorre em ~30% dos casos. Ausência de fatores de risco NÃO exclui TEP. Se probabilidade clínica é alta, investigar independente.

Fluxograma Diagnóstico

Suspeita clínica de TEP Dispneia aguda · Dor pleurítica · Taquicardia Hemodinamicamente estável? (PAS ≥90) Não (PAS<90) TEP MACIÇO POCUS: VD dilatado? → Trombólise empírica Sim Estratificar probabilidade pré-teste Wells simplificado ou Geneva revisado Baixa/Interm. D-dímero (ajustado por idade se >50a) Alta AngioTC direto (não esperar D-dímero) Negativo TEP excluído (se prob. baixa) Positivo AngioTC TEP confirmado? Sim Estratificar gravidade (PESI) + troponina + BNP + eco (VD) Baixo risco (PESI I-II) Anticoagulação + alta precoce Alto risco / submaciço Internação ± trombólise

Diagnósticos Diferenciais

Pneumonia: Febre, tosse produtiva, consolidação em Rx. Mas TEP pode causar febre baixa e infiltrado (infarto pulmonar).

SCA: Dor precordial, ECG alterado, troponina positiva. TEP submaciço também eleva troponina. AngioTC diferencia.

Pneumotórax: Dor pleurítica aguda + dispneia. Rx tórax diferencia.

Exacerbação de DPOC/asma: História prévia, broncoespasmo. Mas TEP pode desencadear broncoespasmo.

Dissecção de aorta: Dor torácica intensa, assimetria de pulsos. AngioTC diferencia.

Ansiedade/hiperventilação: Diagnóstico de exclusão. Não aceitar como diagnóstico sem investigar TEP se probabilidade pré-teste não for baixa.

ECG no TEP: Achados incluem taquicardia sinusal (mais comum), padrão S1Q3T3 (clássico mas presente em <20%), inversão de T em V1-V4 (sobrecarga de VD), BRD novo, desvio de eixo para direita. ECG normal NÃO exclui TEP.

Estratificação de Gravidade

Score de Wells Simplificado (Versão Simplificada — ESC 2019)

Critérios (1 ponto cada): — versão simplificada, diferente da versão clássica que atribui pesos variáveis (1,5–3 pontos por critério).
Sinais/sintomas de TVP · FC >100 · Imobilização ou cirurgia recente · TEP/TVP prévio · Hemoptise · Neoplasia ativa · TEP como diagnóstico mais provável

Interpretação: ≤1 ponto = TEP improvável → D-dímero. ≥2 pontos = TEP provável → AngioTC direta.

Score de Wells para TVP

Critérios:
Neoplasia ativa (+1) · Paralisia/imobilização de MMII (+1) · Repouso >3 dias ou cirurgia <12 sem (+1) · Dor à palpação de trajeto venoso profundo (+1) · Edema de toda a perna (+1) · Edema de panturrilha >3cm vs contralateral (+1) · Edema depressível (cacifo) no membro sintomático (+1) · Veias colaterais superficiais (+1) · TVP prévia documentada (+1) · Diagnóstico alternativo tão ou mais provável (−2)

Interpretação: ≤1 ponto = TVP improvável → D-dímero (se negativo, exclui). ≥2 pontos = TVP provável → USG Doppler venoso diretamente.
D-dímero ajustado por idade: corte = idade × 10 µg/L (= ng/mL FEU) para >50 anos (aumenta especificidade sem perder sensibilidade). Verificar unidade do ensaio local.

PESI Simplificado (sPESI) — após diagnóstico confirmado

Critérios (1 ponto cada):
Idade >80 · Neoplasia · IC ou doença pulmonar crônica · FC ≥110 · PAS <100 · SatO₂ <90%

0 pontos = baixo risco (mortalidade 30 dias ~1%) → candidato a alta precoce/tratamento ambulatorial.
≥1 ponto = alto risco → internação, investigar disfunção de VD.

Submaciço (risco intermediário-alto)

sPESI ≥1 + disfunção de VD (eco: VD/VE ≥1,0 ou hipocinesia) + troponina positiva = grupo onde trombólise é controversa mas pode ser considerada se deterioração clínica.

Nova Classificação AHA/ACC 2026 — Categorias Clínicas A-E

A primeira diretriz conjunta AHA/ACC para TEP (2026) substitui a terminologia "maciço/submaciço/baixo risco" por 5 categorias clínicas (A–E):

  • Categoria A: TEP assintomática — alta segura do PS
  • Categoria B: Sintomática, baixa gravidade clínica — alta precoce possível
  • Categoria C: Score de gravidade elevado + disfunção de VD — monitorização
  • Categoria D: Falência cardiopulmonar iminente (D1-D2) — considerar trombólise/trombectomia
  • Categoria E: Falência cardiopulmonar com hipotensão persistente (E1) — trombólise sistêmica, trombectomia mecânica (Classe IIa), embolectomia cirúrgica

PERT (Pulmonary Embolism Response Team): recomendado para triagem e escalonamento de cuidados.

Nota: Wells e Geneva permanecem válidos para avaliação de probabilidade pré-teste. A nova classificação A-E se aplica APÓS confirmação diagnóstica.

Manejo no PS

TEP maciço (PAS <90 ou choque)

— Expansão volêmica cautelosa (250-500 mL SF — VD já está sobrecarregado, volume excessivo piora)
— Noradrenalina se choque refratário a volume
Trombólise sistêmica: Alteplase 100 mg EV em 2h (ver prescrição abaixo)
— Se contraindicação à trombólise → trombectomia cirúrgica ou por cateter
— Anticoagulação plena com heparina não fracionada (HNF) — preferível no maciço (meia-vida curta, reversível)

TEP submaciço (PA normal + disfunção VD)

— Anticoagulação plena (HNF ou enoxaparina)
— Monitorização em UTI ou semi-intensiva
— Trombólise não de rotina — considerar se deterioração clínica (piora hemodinâmica, aumento de troponina)
— Se deterioração → trombólise de resgate com alteplase

TEP não-maciço (baixo risco)

— Anticoagulação com DOAC (rivaroxabana ou apixabana) é 1ª linha
— Se sPESI = 0, saturação >90%, sem comorbidades descompensadas → candidato a alta precoce (24-48h) ou tratamento domiciliar
— Acompanhamento ambulatorial em 1-2 semanas

Heparina no TEP maciço — iniciar ANTES da AngioTC: Se probabilidade clínica alta e paciente instável, anticoagulação empírica com HNF bolus + infusão enquanto aguarda imagem. Não retardar tratamento por causa do exame.
D-dímero ajustado por idade: Em pacientes >50 anos, usar corte = idade × 10 (ex.: 65 anos → corte de 650 ng/mL). Aumenta especificidade sem perder sensibilidade clinicamente significativa. Aceito pela ESC 2019.

Prescrições

Alteplase (tPA) — Trombólise no TEP Maciço

IndicaçãoTEP maciço com instabilidade hemodinâmica (PAS <90 por >15 min, choque, PCR por TEP). Também como resgate no TEP submaciço com deterioração.
MedicamentoAlteplase (rt-PA)
ApresentaçãoFrasco-ampola 50 mg com diluente (liofilizado para reconstituição)
DoseRegime padrão (ESC 2019): 100 mg EV total — 10 mg bolus rápido (1-2 min) + 90 mg em infusão em 2h. Alternativa acelerada: 0,6 mg/kg em 15 min (máx 50 mg).
Regime na PCR: 50 mg EV em bolus direto. Continuar RCP por pelo menos 60–90 min após trombólise. Segunda dose de 50 mg NÃO é recomendada rotineiramente por nenhuma diretriz de peso (AHA/ACLS 2020, ESC 2019) — uso off-label apenas em cenários extremos sob supervisão de cardiologista/intensivista, com risco hemorrágico cumulativo significativo.
Diluição / PreparoReconstituir com diluente fornecido (água estéril). Concentração final 1 mg/mL. Pode diluir em SF 0,9% para volume final desejado. NÃO agitar — girar suavemente.
Via / VelocidadeEV. Infusão contínua em 2h via BIC (regime padrão). Em PCR: bolus direto (não há tempo para infusão). Usar acesso dedicado (não misturar com outras drogas na mesma linha).
Efeitos adversosHemorragia (principal — intracraniana em 2-3%, hemorragia maior em 10-15%). Reações alérgicas (raro). Angioedema orolingual (raro, mais comum com uso concomitante de IECA).
Ajuste renalSem ajuste. Metabolização hepática (clearance plasmático ~550 mL/min).
InteraçõesContraindicações absolutas: hemorragia ativa, AVC hemorrágico prévio, AVC isquêmico <3 meses, neoplasia intracraniana, cirurgia maior <3 semanas, sangramento GI <1 mês. Relativas: uso de anticoagulantes (INR >1,7 ou TTPA >2x), gestação, HAS grave não controlada (>180/110).
Marca referência BRActilyse® (Boehringer Ingelheim). Única marca disponível no Brasil.
Pérola clínicaNo TEP maciço, o benefício supera o risco hemorrágico na maioria dos casos. Em PCR por TEP, trombólise é indicação classe IIa — não há alternativa melhor disponível emergencialmente. Após trombólise, iniciar HNF sem bolus (infusão contínua) e monitorar TTPA em 4-6h. A resposta geralmente ocorre em 24-72h (melhora hemodinâmica mais rápida).

Heparina Não Fracionada (HNF) — Anticoagulação no TEP

IndicaçãoAnticoagulação no TEP maciço/submaciço (preferível pela meia-vida curta e reversibilidade) ou quando há contraindicação a HBPM (DRC grave, obesidade mórbida, instabilidade que pode exigir procedimento).
MedicamentoHeparina Sódica (não fracionada)
ApresentaçãoFrasco 5 mL com 5.000 UI/mL (25.000 UI total)
Dose⚠ ATENÇÃO — DOSE ESPECÍFICA PARA TEP (diferente da SCA!):
TEP → Bolus: 80 UI/kg EV (máx 10.000 UI) + Infusão: 18 UI/kg/h.
SCA → Bolus: 60 UI/kg (máx 4.000 UI) + Infusão: 12 UI/kg/h (máx 1.000 UI/h) — ver Tema 2.
Ajustar por TTPA a cada 6h (meta: 1,5–2,0× controle ou 60-80 s — AHA/ACC 2025). Se pós-trombólise: OMITIR bolus, iniciar infusão diretamente.
Diluição / PreparoDiluir 25.000 UI (1 frasco) em 250 mL SF 0,9% → 100 UI/mL. Para paciente 80 kg: bolus = 6.400 UI (64 mL); infusão = 1.440 UI/h ≈ 14,4 mL/h.
Via / VelocidadeEV. Bolus em 10 min, depois infusão contínua em BIC. Meia-vida: 60-90 min (dose-dependente). Reversível com protamina.
Efeitos adversosSangramento (principal), HIT tipo II (trombocitopenia induzida por heparina — monitorar plaquetas dia 0, 4 e a cada 2-3 dias), osteoporose (uso prolongado).
Ajuste renalSem ajuste formal, mas monitorar TTPA mais frequentemente em DRC (clearance parcialmente renal). Preferir HNF sobre HBPM em TFG <30.
InteraçõesRisco hemorrágico aditivo com antiplaquetários, trombolíticos, DOACs. Efeito reduzido por protamina (reversor). Interferência com troponina (falso positivo raro em alguns ensaios antigos).
Marca referência BRHepamax® (Blau), Heparin® (Cristália). Genérico: Heparina Sódica.
Pérola clínicaVantagem da HNF: meia-vida curta + reversível com protamina. Ideal quando pode ser necessário procedimento invasivo (trombectomia, cirurgia). Monitorar plaquetas — queda >50% do basal entre dia 5-14 = suspeita de HIT → parar heparina e iniciar argatroban ou fondaparinux.

Enoxaparina — Anticoagulação no TEP Estável

IndicaçãoAnticoagulação no TEP estável (não-maciço) como alternativa à HNF. Preferível na maioria dos casos por não necessitar de monitorização laboratorial contínua.
MedicamentoEnoxaparina Sódica (HBPM)
ApresentaçãoSeringa preenchida 40 mg/0,4 mL, 60 mg/0,6 mL, 80 mg/0,8 mL
Dose1 mg/kg SC 12/12h (dose terapêutica). Alternativa: 1,5 mg/kg SC 1x/dia. Peso >150 kg ou <45 kg: monitorar anti-Xa se disponível. Gestantes: 1 mg/kg SC 12/12h (preferir fracionada).
Diluição / PreparoVia SC, sem diluição. Aplicar na região abdominal (alternar lados). Não aspirar ou massagear após aplicação.
Via / VelocidadeSC. Início de ação: 3-5h para pico. Meia-vida: ~4,5h. Efeito anticoagulante previsível — não necessita monitorização de rotina (exceto populações especiais).
Efeitos adversosSangramento, hematoma no sítio de injeção, trombocitopenia (HIT — menos comum que HNF), hipercalemia (raro), elevação transitória de transaminases.
Ajuste renalTFG 15-30 mL/min: reduzir para 1 mg/kg 1x/dia (não usar 12/12h). TFG <15 ou diálise: preferir HNF. Monitorar anti-Xa se usado em DRC.
InteraçõesRisco hemorrágico aditivo com AAS, clopidogrel, AINEs, DOACs (não associar). Reversão parcial com protamina (60-80% do efeito anti-Xa neutralizado).
Marca referência BRClexane® (Sanofi). Genérico: Enoxaparina Sódica (Eurofarma, Blau, Cristália).
Pérola clínicaTransição para DOAC: se usando enoxaparina como ponte, iniciar rivaroxabana ou apixabana no lugar da próxima dose de enoxaparina (não sobrepor). Se usando como ponte para varfarina: manter até INR 2-3 por ≥24h. No TEP estável, pode-se iniciar DOAC direto (sem heparina) — rivaroxabana 15 mg 12/12h por 21 dias, depois 20 mg 1x/dia.

Rivaroxabana — DOAC para TEP (1ª linha ambulatorial)

IndicaçãoAnticoagulação no TEP estável, como monoterapia sem necessidade de heparina prévia. Primeira linha para tratamento ambulatorial ou transição pós-alta.
MedicamentoRivaroxabana
ApresentaçãoComprimidos de 10 mg, 15 mg e 20 mg
DoseFase intensiva: 15 mg VO 12/12h por 21 dias (com alimentação). Fase manutenção: 20 mg VO 1x/dia (com alimentação). Duração total: mínimo 3 meses; estender conforme risco-benefício.
Diluição / PreparoVia oral. Tomar com alimentos (aumenta biodisponibilidade em ~40%). NÃO triturar o comprimido (revestimento protege farmacocinética — trituração compromete biodisponibilidade e aumenta risco de sangramento). Se disfagia: administrar via sonda nasogástrica com rinsagem abundante de água ou consultar farmácia hospitalar para preparação alternativa.
Via / VelocidadeVO. Início de ação: 2-4h. Pico: ~3h. Meia-vida: 5-9h (jovens) a 11-13h (idosos).
Efeitos adversosSangramento (GI mais comum que com varfarina), anemia, náusea, elevação de transaminases, prurido. Sem necessidade de monitorização laboratorial de rotina.
Ajuste renalTFG 30-50: usar com cautela (mesma dose). TFG 15-30: 15 mg 1x/dia (dados limitados — considerar HNF/varfarina). TFG <15: contraindicada.
InteraçõesInibidores fortes de CYP3A4 e P-gp (cetoconazol, ritonavir, claritromicina) aumentam nível — evitar. Indutores (rifampicina, carbamazepina, fenitoína) reduzem eficácia — evitar. Uso com AAS/clopidogrel: aumenta risco hemorrágico.
Marca referência BRXarelto® (Bayer). Genérico: Rivaroxabana (EMS, Eurofarma — disponível desde 2023).
Pérola clínicaPode ser iniciada diretamente sem heparina prévia no TEP estável (diferente da varfarina). Sempre com alimento — sem comida, a absorção cai significativamente. Reversor específico: andexanet alfa (Andexxa®) — custo elevadíssimo e pouco disponível no BR. Em sangramento grave sem reversor, considerar CCP 4 fatores (ver Tema 6).

Apixabana — DOAC para TEP (alternativa 1ª linha)

IndicaçãoAnticoagulação no TEP estável, como monoterapia (sem heparina prévia). DOAC de 1ª linha equivalente à rivaroxabana (ESC PE 2019, AMPLIFY trial).
MedicamentoApixabana
ApresentaçãoComprimidos de 2,5 mg e 5 mg
DoseFase intensiva: 10 mg VO 12/12h por 7 dias. Fase manutenção: 5 mg VO 12/12h. Duração: mínimo 3 meses; avaliar extensão. Prevenção prolongada (após 6 meses): 2,5 mg 12/12h.
Via / VelocidadeVO. Pode ser tomada com ou sem alimentos. Início de ação: 3-4h. Meia-vida: ~12h.
Efeitos adversosSangramento (menor taxa de sangramento GI que rivaroxabana — AMPLIFY). Anemia, náusea, hematomas.
Ajuste renalTFG 25-50: mesma dose. TFG 15-25: usar com cautela. TFG <15: não recomendada. Sem necessidade de ajuste para peso isolado (diferente de alguns contextos de FA).
InteraçõesInibidores fortes de CYP3A4 e P-gp (cetoconazol, ritonavir) aumentam nível — reduzir dose ou evitar. Indutores (rifampicina) reduzem eficácia — evitar.
Marca referência BREliquis® (BMS/Pfizer). Genérico disponível.
Pérola clínicaVantagem sobre rivaroxabana: não precisa tomar com alimento e tem menor sangramento GI (AMPLIFY). Desvantagem: dose 12/12h (vs 1x/dia na fase de manutenção da rivaroxabana). Na dúvida entre os dois: eficácia equivalente — escolher pelo perfil do paciente e adesão.

Referências

1. AHA/ACC/ACCP/ACEP/CHEST/SCAI 2026 Guideline for Acute PE in Adults, Circulation 2026. — Categorias clínicas A-E. Primeira diretriz conjunta AHA/ACC para TEP.

2. Konstantinides SV et al. 2019 ESC Guidelines for the diagnosis and management of acute pulmonary embolism. Eur Heart J. 2020;41(4):543-603.

3. Kearon C et al. Antithrombotic therapy for VTE disease: CHEST Guideline and Expert Panel Report. Chest. 2016;149(2):315-352.

4. Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Diretrizes Brasileiras para TEP. J Bras Pneumol. 2020.

5. Freund Y et al. Effect of the Pulmonary Embolism Rule-Out Criteria on Subsequent Thromboembolic Events. N Engl J Med. 2018;379(22):2133-2142.

6. Barco S, Konstantinides SV. Risk-adapted management of pulmonary embolism. Thromb Res. 2017;151 Suppl 1:S61-S64.

7. Meyer G et al. Fibrinolysis for patients with intermediate-risk pulmonary embolism (PEITHO). N Engl J Med. 2014;370(15):1402-1411.

12
Endocardite Infecciosa

Abordagem Sindrômica

Papel do plantonista: Endocardite infecciosa (EI) não é diagnóstico nem tratamento definitivo do PS. Sua função é: suspeitar → colher hemoculturas ANTES de ATB → iniciar antibioticoterapia empírica → solicitar eco → internar. O diagnóstico definitivo (Critérios de Duke modificados) evolui em dias.

Quando suspeitar no PS?

Febre + sopro cardíaco novo é a combinação clássica, mas muitos pacientes não apresentam sopro na avaliação inicial. Pensar em EI quando:

— Febre prolongada (≥7 dias) sem foco identificado
— Febre em paciente com prótese valvar, dispositivo intracardíaco ou valvopatia prévia
— Febre em usuário de drogas intravenosas (UDIV)
— Febre + fenômenos embólicos (AVC, embolia pulmonar séptica, isquemia de extremidade, manchas de Janeway)
— Febre + lombalgia (espondilodiscite por disseminação hematogênica)
— Bacteremia persistente por S. aureus sem foco

Critérios de Duke-ISCVID 2023 (atualização ESC 2023)

Critérios maiores:
1. Microbiológico: Hemoculturas positivas para micro-organismos típicos (S. aureus, Streptococcus viridans, HACEK, Enterococcus, entre outros — lista expandida 2023) ou bacteremia persistente. Nota: intervalos entre coletas não são mais obrigatórios (ISCVID 2023).
2. Imagem: Vegetação, abscesso, pseudoaneurisma, deiscência de prótese ou regurgitação valvar nova ao ecocardiograma; OU achados compatíveis em TC cardíaca (vegetação, abscesso paravalvar); OU atividade periprotética anormal ao 18F-FDG PET/CT (novo critério maior — ESC 2023 / Duke-ISCVID 2023)
3. Cirúrgico: Achados intraoperatórios confirmatórios (novo critério maior — ISCVID 2023)

Critérios menores: Predisposição (valvopatia, prótese, UDIV) · Febre ≥38°C · Fenômenos vasculares (embolias, aneurisma micótico, Janeway) · Fenômenos imunológicos (glomerulonefrite, nódulos de Osler, manchas de Roth) · Evidência microbiológica que não preenche critério maior

EI definida: 2 maiores, ou 1 maior + 3 menores, ou 5 menores.
UDIV: Endocardite de câmaras direitas (tricúspide) — febre + embolia pulmonar séptica (nódulos pulmonares bilaterais no Rx/TC). Agente mais comum: S. aureus. Pode não ter sopro audível.

Fluxograma de Abordagem Inicial

Suspeita de Endocardite Infecciosa Febre + sopro / prótese / UDIV / embolias HEMOCULTURAS (3 pares, sítios diferentes) ANTES de iniciar antibiótico — 3 sets de sítios diferentes (intervalo não obrigatório — ISCVID 2023) Sepse / instável? Sim ATB empírico IMEDIATO Não ATB pode aguardar eco Ecocardiograma ETT inicialmente · ETE se prótese, ETT inconclusivo, ou alta suspeita Vegetação ou complicação identificada? Sim Internar ATB EV 4-6 sem Não Repetir ETE em 5-7 dias Indicações cirúrgicas urgentes: IC refratária · Infecção não controlada · Vegetação >10mm com embolia · Abscesso perivalvar · Fungo/MDR No PS: hemocultura (3 pares) + ATB empírico se sepse + eco + internar O tratamento definitivo será guiado pela cultura — colher ANTES do ATB

Diagnósticos Diferenciais

Febre de origem indeterminada: EI é causa clássica de FOI. Se febre >3 semanas sem diagnóstico em paciente com fator de risco → hemoculturas + eco.

Febre reumática aguda: Sopro + febre + artralgia, mas hemoculturas negativas, ASLO elevado, história de faringite estreptocócica recente. Mais comum em crianças/adolescentes.

LES / vasculite: Endocardite de Libman-Sacks (vegetações estéreis). Hemoculturas negativas, FAN+, complemento baixo.

Endocardite marántica: Vegetações estéreis em neoplasia avançada. Hemoculturas negativas.

Bacteremia transitória sem EI: Hemoculturas positivas isoladas (1 par), eco normal, resolução com ATB curto. Acompanhar hemoculturas de controle.

Manejo no PS

Passo a passo no PS

1. Hemoculturas — 3 pares (6 frascos) de sítios venosos diferentes. Intervalo de 30 min entre cada par (se estável). Se sepse → colher os 3 pares em 1h e iniciar ATB.
2. Exames complementares: hemograma, PCR, VHS, creatinina, eletrólitos, função hepática, EAS (hematúria → glomerulonefrite por imunocomplexos), troponina (abscesso septal/miocardite), ECG (BAV novo → abscesso perivalvar).
3. Ecocardiograma: ETT como triagem. ETE se prótese valvar, ETT negativo com suspeita alta, ou suspeita de complicação (abscesso).
4. ATB empírico: iniciar após hemoculturas, antes do resultado.

Escolha do ATB empírico (ESC 2023 / SBC)

Válvula nativa, comunitária: Oxacilina 2g EV 4/4h (cobre Strepto, MSSA) — esquema clássico. Alternativa com cobertura mais ampla (ESC 2023): Amoxicilina-clavulanato 2g EV 6/6h ou Ampicilina-sulbactam 3g EV 6/6h (cobrem também Enterococcus). ESC 2023 não recomenda mais gentamicina de rotina para S. aureus em válvula nativa (nefrotoxicidade sem benefício em mortalidade).
Válvula nativa + risco de MRSA (UDIV, cateter, hemodiálise): Vancomicina 15-20mg/kg EV 12/12h ± Gentamicina
Prótese valvar precoce (<12 meses): Vancomicina + Gentamicina + Rifampicina (cobre MRSA + Gram-negativos)
Prótese valvar tardia (>12 meses): Mesmo esquema que válvula nativa

BAV novo em paciente com EI = abscesso perivalvar até provar o contrário. Indicação cirúrgica urgente. Solicitar ECG seriado e ETE imediato.
Gentamicina na EI: Uso controverso nas diretrizes recentes. ESC 2023 limita gentamicina a EI por Enterococcus e prótese com estafilococos. Em EI por S. aureus em válvula nativa, gentamicina NÃO é mais recomendada (não melhora desfecho e aumenta nefrotoxicidade). Seguir protocolo institucional.

Prescrições

Vancomicina — Empírico para EI com risco de MRSA

IndicaçãoEI empírica quando há risco de MRSA: UDIV, hemodiálise, cateter de longa permanência, colonização conhecida por MRSA, prótese valvar precoce.
MedicamentoCloridrato de Vancomicina
ApresentaçãoFrasco-ampola 500 mg ou 1 g (pó para reconstituição)
Dose15-20 mg/kg EV 12/12h (baseado no peso real). Dose de ataque: 25-30 mg/kg na primeira dose (ASHP/IDSA 2020, máx 3g) (ex.: paciente 70 kg → ~1,75-2,1 g). Manutenção: 15-20 mg/kg 12/12h (ex.: 70 kg → 1-1,4 g 12/12h). Meta de vale: 15-20 mcg/mL (colhido 30 min antes da 4ª dose), ou AUC/MIC 400-600 se disponível.
Diluição / PreparoReconstituir 1 g em 20 mL de água estéril. Diluir em 200-250 mL SF 0,9% ou SG 5% para infusão. Concentração máxima: 5 mg/mL para periférico, 10 mg/mL para central.
Via / VelocidadeEV. Infundir em no mínimo 60 min (cada 500 mg em 30 min). Infusão rápida causa "síndrome do homem vermelho" (flushing, hipotensão — reação histaminérgica, não alergia). Se ocorrer: parar, anti-histamínico, reiniciar mais lento.
Efeitos adversosNefrotoxicidade (monitorar creatinina a cada 48-72h), ototoxicidade, síndrome do homem vermelho, tromboflebite, neutropenia (uso prolongado >2 semanas — monitorar hemograma semanal).
Ajuste renalTFG 30-50: 15 mg/kg 24/24h. TFG 10-30: guiar por nível sérico (colher vale antes da 4ª dose). Hemodiálise: dose pós-diálise guiada por vale. Sempre monitorar vancocinemia na EI.
InteraçõesNefrotoxicidade sinérgica com aminoglicosídeos (gentamicina), anfotericina B, AINEs, contraste iodado. Ototoxicidade aditiva com furosemida. Monitorar função renal diariamente quando associada a gentamicina.
Marca referência BRVancocina® (Aspen — importada). Genérico: Cloridrato de Vancomicina (ABL, Novafarma, Teuto).
Pérola clínicaNa EI, o tratamento é prolongado (4-6 semanas EV). O plantonista inicia o empírico; o ajuste definitivo será feito pela equipe de infectologia após resultado de cultura. Colher vale sérico antes da 4ª dose e ajustar para 15-20 mcg/mL. Se vale <10: aumentar dose; se >20: reduzir e monitorar creatinina.

Oxacilina — Empírico para EI Comunitária (válvula nativa)

IndicaçãoEI de válvula nativa, comunitária, sem fatores de risco para MRSA. Cobre S. aureus MSSA (principal agente), Streptococcus.
MedicamentoOxacilina Sódica
ApresentaçãoFrasco-ampola 500 mg ou 1 g (pó liofilizado)
Dose2 g EV 4/4h (12 g/dia). Dose alta é necessária na EI para atingir concentração adequada na vegetação. Duração: 4-6 semanas (definido pela infectologia).
Diluição / PreparoReconstituir 2 g em 20 mL de água estéril ou SF. Diluir em 100 mL SF 0,9% para infusão.
Via / VelocidadeEV. Infundir em 30-60 min a cada 4h. Acesso venoso central recomendado para tratamento prolongado (risco de flebite em periférico com infusões repetidas).
Efeitos adversosNefrite intersticial (monitorar creatinina e EAS semanal), hepatotoxicidade (elevar transaminases), flebite, rash, febre medicamentosa, neutropenia (uso >2 semanas).
Ajuste renalSem ajuste na DRC (excreção predominantemente biliar). Seguro em hemodiálise na mesma dose.
InteraçõesInativa em mistura direta com aminoglicosídeos (não misturar no mesmo equipo — infundir separadamente). Pode reduzir eficácia de ACO (mecanismo: redução de vitamina K por alteração de flora).
Marca referência BROxacilina genérica (ABL, Novafarma). Amplamente disponível no Brasil.
Pérola clínicaNa EI por MSSA, oxacilina é superior à vancomicina (melhor atividade bactericida, melhor penetração na vegetação). Se cultura identificar MSSA em paciente que iniciou vancomicina → trocar para oxacilina (de-escalonamento). Alergia a penicilina tipo I (anafilaxia): usar cefazolina 2g 8/8h se alergia não grave, ou vancomicina se anafilaxia.

Gentamicina — Sinergismo na EI por Enterococcus

IndicaçãoSinergismo em EI por Enterococcus spp. (ampicilina + gentamicina ou ampicilina + ceftriaxona). Também usada empiricamente na EI de prótese. NÃO mais recomendada de rotina para S. aureus em válvula nativa.
MedicamentoSulfato de Gentamicina
ApresentaçãoAmpola 80 mg/2 mL (40 mg/mL) ou 240 mg/3 mL
DosePara sinergismo (EI): 3 mg/kg/dia EV dividido em 2-3 doses (ex.: 80 mg 8/8h para paciente de 70 kg). Diferente da dose para tratamento isolado de Gram-negativos (dose única diária). Duração: 2 semanas na maioria dos protocolos.
Diluição / PreparoDiluir dose em 50-100 mL SF 0,9%. NÃO misturar com betalactâmicos no mesmo equipo (inativação).
Via / VelocidadeEV em 30-60 min. Infundir separadamente de penicilinas/cefalosporinas.
Efeitos adversosNefrotoxicidade (reversível geralmente), ototoxicidade (vestibular > coclear — pode ser irreversível), bloqueio neuromuscular (raro, em miastenia ou uso de curare).
Ajuste renalObrigatório. TFG 40-60: 3 mg/kg 12/12h. TFG 20-40: 3 mg/kg 24/24h. TFG <20: dose guiada por nível sérico (vale <1 mcg/mL). Monitorar creatinina DIARIAMENTE quando associada a vancomicina (nefrotoxicidade sinérgica). Nível sérico (vale <1 mcg/mL): colher antes da 4ª dose, depois a cada 3-5 dias.
InteraçõesNefrotoxicidade sinérgica com vancomicina (combinação comum mas perigosa — monitorar creatinina diariamente), anfotericina B, AINEs, contraste. Ototoxicidade aditiva com furosemida.
Marca referência BRGaramicina® (Schering-Plough — descontinuada). Genérico: Sulfato de Gentamicina (diversas — amplamente disponível).
Pérola clínicaNa EI por Enterococcus, a alternativa moderna à gentamicina é ampicilina 2g 4/4h + ceftriaxona 2g 12/12h (duplo betalactâmico). Este esquema tem eficácia semelhante com menor nefrotoxicidade, especialmente em idosos e DRC. Discutir com infectologia.

Referências

1. Delgado V, Ajmone Marsan N, de Waha S et al. 2023 ESC Guidelines for the management of endocarditis. Eur Heart J. 2023;44(39):3948-4042.

2. Baddour LM et al. Infective Endocarditis in Adults: Diagnosis, Antimicrobial Therapy, and Management of Complications — AHA Scientific Statement. Circulation. 2015;132(15):1435-1486. | Atualização: ESC 2023 Guidelines for the management of endocarditis (Delgado V et al., Eur Heart J 2023) — referência mais atual.

3. Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz Brasileira de Valvopatias — SBC 2017. Arq Bras Cardiol. 2017;109(2 Supl 2):1-104.

4. Habib G et al. 2015 ESC Guidelines for the management of infective endocarditis. Eur Heart J. 2015;36(44):3075-3128.

5. Fernández-Hidalgo N et al. Contemporary epidemiology and prognosis of health care-associated infective endocarditis. Clin Infect Dis. 2008;47(10):1287-1297.

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Pericardite e Miocardite Agudas

Pericardite Aguda

Definição e diagnóstico (≥2 de 4 critérios)

Critérios diagnósticos (ESC 2015/2025) — pelo menos 2 de 4:
1. Dor torácica típica pericárdica (aguda, pleurítica, melhora sentado inclinado para frente, piora em decúbito e inspiração)
2. Atrito pericárdico (específico, mas presente em <30%)
3. Alterações ECG novas: supra de ST difuso côncavo + infra de PR
4. Derrame pericárdico novo ou em aumento ao eco

Dados complementares: elevação de PCR, VHS e troponina (miopericardite se troponina elevada com pericardite)
Atualização ESC 2025 — Síndrome Inflamatória Miopericárdica

A ESC 2025 introduz o conceito de IMPS (Inflammatory Myopericardial Syndrome) como diagnóstico guarda-chuva para mio e pericardite, reconhecendo a sobreposição frequente entre as duas condições.

Pericardite: Ibuprofeno 600–800 mg 8/8h (dose anti-inflamatória plena) + colchicina (Classe I/A) por 3–6 meses. Colchicina é o último medicamento a ser retirado. Anti-IL-1 (anakinra, rilonacept) recomendados (Classe IIa) para pericardite recorrente ou corticoide-dependente — priorizar sobre corticoide prolongado.

Corticoides: dose baixa (0,2–0,5mg/kg) com desmame lentíssimo (meses). Evitar dose alta e desmame rápido (ciclo de recorrência).

Red flags ESC 2025: febre >38°C, derrame pericárdico grande, tamponamento, troponina elevada (sugere componente miocárdico), não resposta a AINE em 1 semana.

ECG da pericardite vs. IAM

Diferenciação pelo ECG:
Pericardite: supra de ST côncavo ("sorriso"), difuso (não segue território coronariano), infra de PR (patognomônico — melhor em DII e derivações laterais), sem ondas Q, sem imagem recíproca (exceto aVR/V1 com infra de ST).
IAM com supra: supra convexo ("carranca"), segue território coronariano, com imagem recíproca em derivações contralaterais, evolui com ondas Q. Na dúvida: tratar como SCA até provar o contrário.

Etiologias

Viral/idiopática (~80-90%): Coxsackie B, echovírus, EBV, CMV, COVID-19. Maioria autolimitada.
Tuberculose: endêmica no Brasil — considerar em febre arrastada + derrame pericárdico moderado/grande, especialmente se HIV+ ou imunossuprimido. Solicitar ADA no líquido pericárdico.
Autoimune: LES, artrite reumatoide, esclerodermia. Geralmente subaguda.
Pós-IAM: precoce (pericardite epistenocárdica, 1-3 dias) ou tardia (síndrome de Dressler, 2-10 semanas).
Urêmica: DRC em diálise inadequada. Não responde a AINE — indicação de intensificar diálise.
Neoplásica: metástases (pulmão, mama, linfoma). Suspeitar se derrame hemorrágico recorrente.

Estratificação de risco — quem interna?

Preditores de alto risco (internar): febre >38°C, curso subagudo (semanas), derrame pericárdico grande (>20 mm) ou com sinais de tamponamento, troponina elevada (miopericardite), falha com AINE após 7 dias, imunossupressão, uso de anticoagulantes (risco de hemopericárdio), trauma recente, suspeita de TB ou neoplasia.
Baixo risco — alta do PS: Paciente jovem, pericardite viral típica, sem derrame significativo ao eco, sem febre alta, troponina normal ou limítrofe, bom estado geral → AINEs + colchicina + reavaliação em 1 semana.

Fluxograma — Pericardite e Miocardite

Dor torácica pleurítica aguda melhora sentado · piora em decúbito ECG + Eco + PCR/VHS + Troponina Excluir SCA (se dúvida → protocolo de dor torácica) ≥2 critérios de pericardite aguda? Sim Troponina elevada? (+ disfunção VE?) Não Pericardite pura AINE + Colchicina ± Restrição exercício 30d Sim Miopericardite ou Miocardite INTERNAR · Monitorizar Eco seriado · RNM cardíaca Restrição exercício 3-6 meses Preditores de alto risco? (febre, derrame grande, falha AINE) Sim → Internar investigar causa Colchicina: reduz recorrência em 50% (estudo COPE, ICAP) Corticoide: EVITAR na fase aguda (aumenta recorrência) — reservar para refratários a AINE+colchicina, autoimune, ou contraindicação a AINE

Miocardite Aguda

Definição e apresentação

Inflamação do miocárdio com necrose de miócitos não isquêmica. Espectro: de subclínica a choque cardiogênico fulminante. Causa mais comum: viral (parvovírus B19, HHV-6, Coxsackie, COVID-19).

Cenários no PS

1. Pseudoinfarto: Dor torácica + supra de ST + troponina elevada, mas coronárias normais. Jovem, pródromo viral recente.
2. IC aguda de início recente: Dispneia, edema, cardiomegalia em paciente sem cardiopatia prévia. Eco: disfunção global de VE (diferente do IAM que é segmentar).
3. Arritmia: Taquiarritmia ventricular ou BAV em jovem sem cardiopatia prévia.
4. Fulminante: Choque cardiogênico agudo (dias) em paciente previamente hígido. Mortalidade alta sem suporte mecânico, mas sobreviventes geralmente recuperam função.

Armadilha: Jovem com dor torácica + troponina elevada + supra de ST = é IAM até prova em contrário. Mesmo que pareça miocardite, seguir protocolo de SCA (cateterismo). A coronariografia normal é que confirma a suspeita de miocardite. NÃO assumir miocardite sem excluir SCA.

Manejo da Miocardite no PS

— Internação em todos os casos com troponina elevada ou disfunção ventricular
— Monitorização contínua (risco de arritmias fatais — TV/FV)
— Eco beira-leito (avaliar função de VE, derrame pericárdico associado)
— Troponina seriada (curva — padrão diferente do IAM)
RNM cardíaca: exame de escolha para diagnóstico não-invasivo (critérios de Lake Louise: edema + realce tardio não isquêmico). Solicitar assim que estabilizado
— Biópsia endomiocárdica: reservada para miocardite fulminante sem resposta ou suspeita de etiologia específica tratável (miocardite de células gigantes, eosinofílica)

Tratamento

Suporte: Tratar IC conforme diretrizes (IECA/BRA, betabloqueador, diurético se congestão — ver Tema 4). Na fulminante: inotrópicos, vasopressores, suporte mecânico (ECMO/Impella).
Restrição de exercício: Absoluta por 3-6 meses (risco de morte súbita por arritmia).
AINEs: Indicados se componente pericárdico. Evitar em miocardite pura sem pericardite (dados experimentais sugerem piora em modelos animais — evidência fraca em humanos, mas cautela é recomendada).
Imunossupressão: NÃO de rotina. Apenas em etiologias específicas (autoimune, células gigantes, eosinofílica) — decisão do especialista.

Miocardite fulminante — paradoxo prognóstico: Apesar da gravidade aguda extrema (choque, necessidade de ECMO), pacientes que sobrevivem à fase aguda frequentemente recuperam função ventricular quase normal. Justifica agressividade máxima no suporte inicial.

Prescrições

Ibuprofeno — 1ª linha na Pericardite Aguda

IndicaçãoPericardite aguda idiopática/viral. AINE de escolha pela ESC pelo perfil de segurança e possibilidade de titulação.
MedicamentoIbuprofeno
ApresentaçãoComprimidos de 400 mg e 600 mg. Suspensão oral 50 mg/mL.
Dose600–800 mg VO 8/8h (dose anti-inflamatória plena — ESC 2025) por 1-2 semanas, depois desmame: reduzir 200-400 mg por semana ao longo de 2-4 semanas. Sempre associar IBP (omeprazol 20 mg 1x/dia) para proteção gástrica.
Diluição / PreparoVia oral. Tomar com alimentos para reduzir irritação gástrica.
Via / VelocidadeVO. Início de ação: 30-60 min. Pico: 1-2h. Meia-vida: 2-4h. Efeito anti-inflamatório pleno em 48-72h de uso regular.
Efeitos adversosDispepsia, úlcera gástrica, sangramento GI, insuficiência renal (especialmente em desidratados ou DRC), retenção hídrica, HAS, risco cardiovascular (menor que outros AINEs, exceto naproxeno).
Ajuste renalTFG 30-60: reduzir dose e monitorar creatinina. TFG <30: evitar (usar colchicina isolada ou corticoide). Contraindicado em IRA.
InteraçõesAumenta risco de sangramento com anticoagulantes e antiplaquetários. Reduz efeito de IECA/BRA e diuréticos. Nefrotoxicidade aditiva com aminoglicosídeos e contraste. Risco de hipercalemia com espironolactona.
Marca referência BRAdvil® (Haleon), Alivium® (Hypera). Genérico: Ibuprofeno (amplamente disponível).
Pérola clínicaAlternativa: AAS 750-1000 mg 8/8h (preferível se pericardite pós-IAM — AINEs são contraindicados no contexto de IAM recente). Desmame gradual é obrigatório — suspensão abrupta causa recorrência em até 30% dos casos. Se falha após 7 dias com boa adesão → considerar trocar para outro AINE ou adicionar corticoide em baixa dose.

Colchicina — Adjuvante Obrigatório na Pericardite

IndicaçãoAdjuvante ao AINE em toda pericardite aguda (reduz recorrência em ~50%). Pode ser usada como monoterapia se contraindicação a AINEs. Evidência robusta (estudos COPE, ICAP, CORP-2).
MedicamentoColchicina
ApresentaçãoComprimido de 0,5 mg
DosePeso ≥70 kg: 0,5 mg VO 12/12h por 3 meses.
Peso <70 kg: 0,5 mg VO 1x/dia por 3 meses.
Não fazer dose de ataque (diferente do tratamento de gota). Iniciar junto com AINE desde o 1° dia.
Diluição / PreparoVia oral. Pode ser tomada com ou sem alimentos (com alimento reduz diarreia).
Via / VelocidadeVO. Início de ação: anti-inflamatório em dias. Pico plasmático: 1-2h. Meia-vida: 26-31h. Efeito terapêutico acumulativo.
Efeitos adversosDiarreia (mais comum — 10%, geralmente dose-dependente e autolimitada), náusea, dor abdominal, mialgia. Toxicidade grave (rara na dose terapêutica): mielossupressão, neuropatia, rabdomiólise.
Ajuste renalTFG 30-60: 0,5 mg 1x/dia (não usar 12/12h). TFG 15-30: 0,5 mg 1x/dia ou a cada 48h (monitorar toxicidade). TFG <15: EVITAR ou usar com extrema cautela. Contraindicada em diálise (não é dialisável, acumula toxicidade).
InteraçõesCONTRAINDICAÇÃO ABSOLUTA com inibidores fortes de CYP3A4/P-gp: claritromicina, cetoconazol, itraconazol, ritonavir, saquinavir — risco de toxicidade FATAL. Se qualquer destes for necessário: OMITIR colchicina. Evitar: ciclosporina, verapamil, diltiazem (aumentam nível de colchicina). Estatinas: risco aditivo de miopatia — monitorar sintomas musculares.
Marca referência BRColchis® (Apsen). Genérico: Colchicina 0,5 mg (diversas — amplamente disponível e barata).
Pérola clínicaColchicina é o maior avanço no tratamento da pericardite nas últimas décadas. Não omitir. A taxa de recorrência cai de ~30% para ~15% com colchicina adjuvante. Duração mínima: 3–6 meses no primeiro episódio (ESC 2025). Na pericardite recorrente: manter por pelo menos 6 meses. Tolerância melhora se tomada com alimento.

AAS — Pericardite pós-IAM (Dressler)

IndicaçãoPericardite pós-IAM (epistenocárdica ou síndrome de Dressler). AINEs não-AAS são evitados no pós-IAM (risco de interferência com remodelamento miocárdico e cicatrização).
MedicamentoÁcido Acetilsalicílico (AAS)
ApresentaçãoComprimidos de 100 mg, 325 mg, 500 mg
Dose750-1000 mg VO 8/8h por 1-2 semanas, depois desmame: reduzir 250-500 mg por semana ao longo de 3-4 semanas. Associar IBP (omeprazol 20 mg 1x/dia). Colchicina adjuvante na mesma dose.
Diluição / PreparoVia oral. Tomar com alimentos. Comprimidos não tamponados: tomar com água abundante.
Via / VelocidadeVO. Início de ação analgésica: 30 min. Efeito anti-inflamatório: requer doses altas (≥2 g/dia) — diferente da dose antiplaquetária (100 mg/dia que o paciente já usa pós-IAM).
Efeitos adversosDispepsia, úlcera gástrica, sangramento GI (dose-dependente), zumbido/surdez (salicilismo em doses altas), broncoespasmo em asmáticos sensíveis, síndrome de Reye (crianças — não aplicável aqui).
Ajuste renalEvitar doses altas em TFG <30 (acúmulo de salicilato). Preferir colchicina isolada + corticoide em baixa dose se DRC grave.
InteraçõesPotencializa anticoagulantes (risco hemorrágico significativo — no pós-IAM, paciente frequentemente em dupla antiagregação + anticoagulante). Monitorar sinais de sangramento. Ototoxicidade com furosemida em doses altas.
Marca referência BRAspirina® (Bayer). AAS genérico (diversas). Amplamente disponível em todas as apresentações.
Pérola clínicaNo pós-IAM, a dose anti-inflamatória (750-1000 mg 8/8h) é ADICIONAL à dose antiplaquetária (100 mg/dia que o paciente já usa) — são indicações distintas e não substituem uma à outra. Desmame é obrigatório para evitar recorrência. Se Dressler refratária ao AAS → corticoide em baixa dose (prednisona 0,2-0,5 mg/kg/dia) com desmame muito lento.

Prednisona — Pericardite Refratária ou Autoimune

IndicaçãoPericardite refratária a AINE + colchicina, pericardite autoimune (LES), contraindicação a AINEs (DRC, úlcera ativa). Não usar como 1ª linha — aumenta taxa de recorrência.
MedicamentoPrednisona
ApresentaçãoComprimidos de 5 mg e 20 mg
Dose0,2-0,5 mg/kg/dia VO (ESC recomenda a menor dose eficaz — evitar doses altas como 1 mg/kg). Dose típica: 15-25 mg/dia. Manter por 2-4 semanas, depois desmame muito gradual: reduzir 2,5-5 mg a cada 2-4 semanas. Sempre associar colchicina para reduzir recorrência no desmame.
Diluição / PreparoVia oral. Tomar pela manhã (mimetiza ritmo circadiano de cortisol). Com alimento.
Via / VelocidadeVO. Início de ação: 4-6h. Efeito anti-inflamatório pleno: 24-48h. Meia-vida biológica: 18-36h.
Efeitos adversosHiperglicemia (monitorar em diabéticos), insônia, ganho de peso, HAS, osteoporose (uso >3 meses), supressão adrenal (se uso >2 semanas — não suspender abruptamente), susceptibilidade a infecções, úlcera gástrica (associar IBP).
Ajuste renalSem ajuste formal. Seguro em DRC (uma das vantagens sobre AINEs).
InteraçõesHiperglicemia potencializada por tiazídicos. Reduz efeito de anti-hipertensivos. Risco de hipocalemia com diuréticos de alça. Aumenta clearance de fenitoína e varfarina. Evitar vacinas vivas durante uso.
Marca referência BRMeticorten® (Schering-Plough). Genérico: Prednisona (amplamente disponível e barata).
Pérola clínicaO maior erro na pericardite recorrente é corticoide em dose alta e desmame rápido. Isso cria ciclo de recorrência-corticoide dependência. ESC 2015 recomenda dose baixa (0,2-0,5 mg/kg) e desmame lentíssimo (meses). Se paciente já corticoide-dependente → considerar anakinra (anti-IL1) como alternativa — encaminhar ao reumatologista.

Referências

1. Adler Y et al. 2015 ESC Guidelines for pericardial diseasesSubstituída por: ESC 2025 Guidelines for Myocarditis and Pericarditis (Eur Heart J 2025). Conceito IMPS. Anti-IL-1 para recorrência.

2. Imazio M et al. A randomized trial of colchicine for acute pericarditis (COPE). N Engl J Med. 2013;369(16):1522-1528.

3. Imazio M et al. Colchicine for Recurrent Pericarditis (CORP-2). Ann Intern Med. 2014;160(8):556-564.

4. Caforio ALP et al. Current state of knowledge on aetiology, diagnosis, management, and therapy of myocarditis: ESC Working Group Position Statement. Eur Heart J. 2013;34(33):2636-2648. → Incorporada nas ESC 2025 Guidelines.

5. Ammirati E et al. Clinical Presentation and Outcome in a Contemporary Cohort of Patients With Acute Myocarditis. Circulation. 2018;138(11):1088-1099.

6. Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz de Doenças do Pericárdio e Miocardite. Arq Bras Cardiol. 2013.

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Sedação e IOT no PS

Abordagem da Via Aérea no PS

Regra de ouro: A melhor IOT é a planejada. Avalie ANTES de sedar: preditores de via aérea difícil, plano A/B/C, material checado, equipe posicionada. IOT de emergência sem preparo = complicações evitáveis.

Indicações de IOT no PS

— Insuficiência respiratória refratária a VNI (SpO₂ <90% apesar de O₂ em alto fluxo)
— Proteção de via aérea: Glasgow ≤8, reflexo de tosse/deglutição abolido
— Antecipação de deterioração (edema de glote, queimadura de via aérea, anafilaxia grave)
— Procedimentos que exigem sedação profunda prolongada
— Choque refratário com necessidade de redução do consumo de O₂

Avaliação pré-IOT — "LEMON"

Look externally — obesidade, pescoço curto, micrognatia, macroglossia, barba, edema facial
Evaluate 3-3-2 — abertura oral <3 dedos, distância mento-hioide <3 dedos, distância hioide-cartilagem tireoidea <2 dedos
Mallampati — classe III/IV (só vê palato duro ou nada)
Obstruction — estridor, tumor, abscesso, corpo estranho
Neck mobility — restrição cervical, colar, artrite reumatoide, espondilite

Intubação de Sequência Rápida (ISR)

Decisão de intubar Indicação confirmada · Equipe pronta 1. PREPARAÇÃO (7 P's) Plano · Posição · Pré-oxigenação · Pré-tratamento Paralisia+Indução · Passagem do tubo · Pós-IOT 2. PRÉ-OXIGENAÇÃO (3 min) Máscara NR 15L + cânula nasal 15L (oxigenação apneica) 3. INDUÇÃO + BLOQUEIO NEUROMUSCULAR Hipnótico (cetamina/etomidato/propofol) + BNM (succinilcolina/rocurônio) 4. LARINGOSCOPIA + PASSAGEM DO TUBO 45-60 s após BNM · Máx 2 tentativas VL / 1 tentativa VD 5. CONFIRMAÇÃO Capnografia (ETCO₂) + ausculta + Rx Sucesso Fixar Pós-IOT Falha Plano B BVM → DSG Ventila? Não CRIC emergência DSG = dispositivo supraglótico (máscara laríngea) · CRIC = cricotireoidostomia

Via Aérea Difícil

"Não intube, não ventile" (NINV): Cenário mais temido. Se falhou IOT E falhou BVM/DSG → cricotireoidostomia cirúrgica imediata. Não há tempo para hesitar. Técnica: incisão vertical na pele → incisão horizontal na membrana cricotireoidea → bougie → tubo 6.0.

Escolha do hipnótico conforme cenário

Hemodinamicamente estável: Propofol 1,5-2 mg/kg ou Etomidato 0,3 mg/kg
Choque / hipotensão: Cetamina 1-2 mg/kg (mantém tônus simpático) ou Etomidato 0,3 mg/kg
Broncoespasmo: Cetamina (broncodilatadora)
Status epilepticus: Propofol (anticonvulsivante) ou Midazolam 0,2-0,3 mg/kg
Hipertensão intracraniana: Propofol (reduz PIC) ou Etomidato

Escolha do BNM

Succinilcolina 1,5 mg/kg (dose padrão RSI): Início 45-60 s, duração 6-10 min. Vantagem: curta ação. Contraindicações: hipercalemia, queimados >48h, denervação, miopatia, história pessoal/familiar de hipertermia maligna.
Rocurônio 1,2 mg/kg (dose ISR): Início 60 s, duração 45-60 min. Reversível com sugamadex (16 mg/kg para reversão imediata). Preferir se contraindicação a succinilcolina ou se se deseja duração mais longa.

Protocolo CICV (Can't Intubate, Can't Ventilate): Se após IOT falha + ventilação com máscara/supraglótico falha → Sugammadex 16 mg/kg EV em bolus (reverte rocurônio em ~3 min, restaurando ventilação espontânea). Ter sempre sugammadex disponível quando usar rocurônio na ISR. Se succinilcolina foi o BNM usado → aguardar 6-10 min (efeito cessa sozinho). Cricotireoidostomia cirúrgica é o plano final se todas as alternativas falharem.

Cuidados Pós-IOT

— Confirmar posição: capnografia com curva (padrão-ouro), ausculta 5 pontos, Rx tórax
— Fixar tubo (distância comissura labial: homens ~23 cm, mulheres ~21 cm — valores de referência; individualizar pela altura do paciente: altura(cm)/10 + 5 para homens, altura(cm)/10 + 4 para mulheres)
— Iniciar sedação contínua + analgesia (evitar que paciente acorde em BNM residual)
— VM protetora: VT 6-8 mL/kg peso predito, PEEP 5-8, FiO₂ titular para SpO₂ 92-96%
— Solicitar gasometria arterial em 30 min
— Passar SNG/SOG (descomprimir estômago pós-IOT)
— Cabeceira 30-45° (prevenção PAV)

Prescrições

Cetamina — Indução para ISR

IndicaçãoHipnótico de escolha em choque, broncoespasmo e tamponamento. Mantém drive respiratório parcial e tônus simpático.
MedicamentoCloridrato de Cetamina
ApresentaçãoFrasco 500 mg/10 mL (50 mg/mL)
Dose1-2 mg/kg EV em bolus lento (60-90 s). Paciente 70 kg: 70-140 mg (1,4-2,8 mL). Reduzir dose em idosos e debilitados.
Diluição / PreparoPode ser pura ou diluir em SF. Para 100 mg: aspirar 2 mL da solução 50 mg/mL.
Via / VelocidadeEV bolus lento 60-90 s. Início: 30-60 s. Duração: 10-15 min. IM possível (4-5 mg/kg) se sem acesso EV — início em 3-5 min.
Efeitos adversosHipersalivação, emergência disfórica (midazolam 1-2 mg profilático), laringoespasmo (raro), hipertensão, taquicardia.
Ajuste renalSem ajuste.
InteraçõesEvitar com teofilina (convulsão). Simpaticomimético aditivo com vasopressores.
Marca referência BRKetamin® (Cristália). Genérico disponível.
Pérola clínicaDose IM é o "plano de resgate" quando não há acesso venoso em paciente agitado/combativo. Associar atropina 0,01 mg/kg se preocupação com hipersalivação.

Etomidato — Indução Hemodinamicamente Neutra

IndicaçãoHipnótico para ISR quando se deseja mínimo impacto hemodinâmico. Não causa hipotensão nem hipertensão significativas.
MedicamentoEtomidato
ApresentaçãoAmpola 20 mg/10 mL (2 mg/mL)
Dose0,3 mg/kg EV em bolus. Paciente 70 kg: 21 mg (~10,5 mL).
Diluição / PreparoUsar puro EV. Sem diluição necessária.
Via / VelocidadeEV bolus em 30-60 s. Início: 15-30 s. Duração: 5-10 min.
Efeitos adversosMioclonias (benignas — não confundir com convulsão), supressão adrenal transitória (dose única sem relevância clínica), dor à injeção, náusea.
Ajuste renalSem ajuste.
InteraçõesMínimas. Potencializa depressão do SNC com opioides e benzodiazepínicos (esperado).
Marca referência BREtomidato-Lipuro® (B. Braun). Genérico: Etomidato (Cristália).
Pérola clínicaSupressão adrenal por dose única é clinicamente irrelevante (dura 6-12h, sem impacto em mortalidade — Jabre et al., Lancet 2009). Etomidato é aceitável em dose única mesmo na sepse; cetamina (1-2 mg/kg) é alternativa razoável em choque séptico se houver preocupação com supressão adrenal (ACEP 2017). Controverso apenas em infusão contínua (proibida).

Succinilcolina — BNM Despolarizante

IndicaçãoBNM para ISR quando se deseja curta duração de ação. Ideal se preocupação com via aérea difícil (efeito passa em 6-10 min).
MedicamentoCloreto de Suxametônio (Succinilcolina)
ApresentaçãoAmpola 100 mg/2 mL (50 mg/mL) ou frasco 500 mg/10 mL
Dose1-1,5 mg/kg EV em bolus rápido. Paciente 70 kg: 70-105 mg. IM: 3-4 mg/kg (se sem acesso).
Diluição / PreparoBolus EV puro. Armazenar refrigerada (2-8°C).
Via / VelocidadeEV bolus rápido. Início: 45-60 s (fasciculações → paralisia). Duração: 6-10 min.
Efeitos adversosHipercalemia transitória (+0,5 mEq/L), bradicardia (especialmente em doses repetidas ou crianças), fasciculações, hipertermia maligna (raro, genético), aumento de pressão intraocular/intragástrica.
Ajuste renalContraindicada se K+ >5,5 mEq/L (risco de hipercalemia fatal).
InteraçõesEfeito prolongado por anticolinesterásicos (neostigmina), inibidores de colinesterase (organofosforados), lítio, magnésio EV.
Marca referência BRQuelicin® (Eurofarma). Genérico: Suxametônio.
Pérola clínicaContraindicações absolutas: hipercalemia, queimados >48h, desnervação (AVC >72h, lesão medular), miopatias, rabdomiólise, hipertermia maligna. Nestes casos → rocurônio 1,2 mg/kg + sugamadex disponível.

Rocurônio — BNM Não-Despolarizante

IndicaçãoBNM para ISR como alternativa à succinilcolina. Preferir quando há contraindicação a succinilcolina ou necessidade de bloqueio prolongado.
MedicamentoBrometo de Rocurônio
ApresentaçãoFrasco 50 mg/5 mL (10 mg/mL) ou 100 mg/10 mL
DoseISR: 1,2 mg/kg EV. Paciente 70 kg: 84 mg. Dose convencional: 0,6 mg/kg (início mais lento ~90 s). Manutenção: 0,1-0,2 mg/kg conforme necessidade.
Diluição / PreparoBolus EV puro. Armazenar refrigerado.
Via / VelocidadeEV bolus. Início: 60 s (dose ISR). Duração: 45-60 min (dose ISR).
Efeitos adversosParalisia prolongada (principal preocupação se não puder ventilar), taquicardia leve, reação alérgica (raro).
Ajuste renalDuração pode ser prolongada em hepatopatia (metabolização hepática). Sem ajuste formal em DRC.
InteraçõesEfeito potencializado por aminoglicosídeos, magnésio, bloqueadores de canal de cálcio. Antagonizado por sugamadex (reversor específico).
Marca referência BREsmeron® (Organon/MSD). Genérico: Brometo de Rocurônio (Cristália, Blau).
Pérola clínicaSugamadex 16 mg/kg EV reverte rocurônio em ~3 min (reversão completa imediata). É o "seguro" para usar rocurônio na ISR — se não conseguir intubar nem ventilar, sugamadex reverte paralisia. Custo alto (~R$800-1200 por dose), mas salva vida no NINV. Verificar disponibilidade no seu PS.

Fentanil — Analgesia e Sedação Pós-IOT

IndicaçãoAnalgesia contínua pós-IOT. Também usado como pré-tratamento na ISR (atenua resposta simpática à laringoscopia em pacientes com HIC ou cardiopatia).
MedicamentoCitrato de Fentanila
ApresentaçãoAmpola 50 mcg/mL (2 mL, 5 mL ou 10 mL)
DosePré-tratamento ISR: 1-3 mcg/kg EV lento (3-5 min antes da indução). Sedação contínua: 25-200 mcg/h em BIC (titular conforme RASS). Bolus de resgate: 25-50 mcg EV.
Diluição / PreparoInfusão: 10 ampolas (2500 mcg / 50 mL) em seringa de 50 mL → 50 mcg/mL. Ou diluir em SF 0,9% para volume desejado.
Via / VelocidadeEV em BIC. Bolus lento (rigidez torácica se rápido). Início: 1-2 min. Meia-vida contexto-sensível: aumenta com uso prolongado.
Efeitos adversosDepressão respiratória, rigidez torácica ("chest wall rigidity" — dose alta em bolus rápido), hipotensão, bradicardia, íleo, prurido.
Ajuste renalAcúmulo de metabólitos em DRC — preferível à morfina (sem metabólitos ativos renais). Reduzir dose em TFG <30.
InteraçõesDepressão SNC aditiva com todos os sedativos. IMAO: risco de síndrome serotoninérgica. Inibidores CYP3A4 aumentam nível.
Marca referência BRFentanest® (Cristália). Genérico amplamente disponível.
Pérola clínicaRigidez torácica por fentanil (infusão rápida >5 mcg/kg) pode impossibilitar ventilação — tratar com BNM (succinilcolina ou rocurônio). Sempre infundir lentamente. Na sedação pós-IOT, meta RASS −2 a −3 (sedação leve, acordável).

Midazolam — Sedação Contínua Pós-IOT

IndicaçãoSedação contínua pós-IOT em associação com fentanil. Também usado como hipnótico para ISR em status epilepticus.
MedicamentoCloridrato de Midazolam
ApresentaçãoAmpola 50 mg/10 mL (5 mg/mL) ou 15 mg/3 mL
DoseISR (status epilepticus): 0,2-0,3 mg/kg EV. Sedação contínua: 0,02-0,1 mg/kg/h em BIC. Paciente 70 kg: 1-7 mg/h. Titular por RASS.
Diluição / PreparoInfusão: 5 ampolas (250 mg / 50 mL) pura em seringa → 5 mg/mL. Ou diluir 100 mg em 100 mL SF → 1 mg/mL.
Via / VelocidadeEV em BIC. Início: 2-3 min. Meia-vida contexto-sensível: acumula significativamente após 24-48h → dificulta extubação.
Efeitos adversosHipotensão (principalmente em idosos e hipovolêmicos), depressão respiratória, delirium (uso prolongado), tolerância rápida.
Ajuste renalMetabólito ativo (alfa-hidroximidazolam) acumula em DRC → sedação prolongada. Reduzir dose em TFG <30. Preferir propofol se sedação curta.
InteraçõesDepressão SNC aditiva. Inibidores CYP3A4 (fluconazol, claritromicina) aumentam nível. Reversível com flumazenil (0,2 mg EV).
Marca referência BRDormonid® (Roche). Genérico amplamente disponível.
Pérola clínicaTendência atual: sedação baseada em analgesia (fentanil ou dexmedetomidina) com mínimo de midazolam. Midazolam acumula em 24-48h e prolonga VM. Se sedação >48h prevista → considerar propofol ou dexmedetomidina como alternativas.

Referências

1. Brown CA, Sakles JC, Mick NW. The Walls Manual of Emergency Airway Management. 5th ed. Wolters Kluwer; 2018.

2. Higgs A et al. Guidelines for the management of tracheal intubation in critically ill adults. Br J Anaesth. 2018;120(2):323-352.

3. Mosier JM et al. Tracheal Intubation in the Critically Ill — INTUBE Study. JAMA. 2021;325(12):1213-1224.

4. Casey JD et al. Bag-Mask Ventilation during Tracheal Intubation of Critically Ill Adults (PreVent). N Engl J Med. 2019;380(9):811-821.

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Distúrbios Eletrolíticos

Potássio

Hipercalemia (K+ >5,5 mEq/L)

ECG é obrigatório e determina urgência. Progressão: T apiculadas → achatamento de P → alargamento de QRS → onda sinusoidal → FV/assistolia. Se QRS largo ou arritmia → gluconato de cálcio IMEDIATAMENTE, antes de qualquer outra medida.

Estabilizar membrana: Gluconato de cálcio 10% 10-20 mL EV em 2-3 min (efeito em 1-3 min, dura 30-60 min). Repetir se ECG não melhorar.
Shift (mover K+ para intracelular): Insulina regular 5-10 UI EV (considerar 5 UI em idosos/DRC/peso <60 kg) + Glicose 50% 25-50 mL EV (efeito em 15-30 min, dura 4-6h). Salbutamol 10-20 mg nebulizado (efeito em 15-30 min). Bicarbonato de sódio 8,4% 50 mEq EV se acidose metabólica.
Remover K+ do corpo: Furosemida 40-80 mg EV (se função renal preservada). Resina de troca: poliestirenossulfonato de cálcio (Sorcal®) 30-60 g VO/retal. Hemodiálise de urgência se DRC/anúria/refratária.

Monitorar glicemia após insulina: Hipoglicemia ocorre em ~20% dos pacientes tratados com insulina para hipercalemia. Monitorar glicemia capilar a cada 30 min por 4h. Se DM2 com glicemia <250: dar glicose junto. Se não-diabético: sempre dar glicose junto.

Hipocalemia (K+ <3,5 mEq/L)

Leve (3,0-3,5): Reposição VO — KCl xarope 6% 15-30 mL 3-4x/dia ou KCl comprimido 600 mg 2-3x/dia.
Moderada (2,5-3,0): KCl EV em solução periférica — máx 40 mEq/L, velocidade máx 10 mEq/h (periférico). Via central: até 20 mEq/h com monitorização cardíaca contínua obrigatória. Corrigir hipomagnesemia concomitante (sem Mg, K não corrige).
Grave (<2,5) ou sintomática (arritmia, fraqueza respiratória): KCl EV em acesso central — até 40 mEq/h com monitorização contínua. ECG seriado.

Regra prática de reposição: Para cada 1 mEq/L de queda no K+ sérico, o déficit corporal total é ~200-400 mEq. K+ de 2,0 = déficit de ~400-800 mEq. Repor gradualmente com monitorização.
Cetoacidose euglicêmica por SGLT2i: Pacientes em uso de dapagliflozina, empagliflozina ou canagliflozina podem apresentar cetoacidose com glicemia normal ou levemente elevada (<250 mg/dL). Suspeitar se acidose metabólica com ânion gap elevado + cetonúria/cetonemia em paciente com SGLT2i. Gatilhos: jejum prolongado, cirurgia, infecção, redução de insulina. Tratamento: suspender SGLT2i + insulina EV + cristaloide + glicose (manter glicemia 150-250 durante correção). Cada vez mais frequente com a popularização dessas drogas para IC e DRC.

Sódio

Hiponatremia (Na+ <135 mEq/L)

Hiponatremia sintomática grave (convulsão, coma, Na+ <120): NaCl 3% 100-150 mL EV em 20 min (bolus). Pode repetir até 2x se sem melhora. Meta: elevar Na+ 4-6 mEq/L nas primeiras 6h (alvo mínimo eficaz). Limite em 24h: hiponatremia crônica (>48h ou duração desconhecida) → máx 8 mEq/L/24h (ERC/ERA 2024, risco de mielinólise pontina osmótica se ultrapassar). Se hiponatremia aguda (<48h, ex: pós-operatório, polidipsia): pode-se aceitar até 10 mEq/L em 24h (AAN 2022). Nota: meta ideal nas primeiras 24h é 4-8 mEq/L — corrigir o mínimo necessário para cessar sintomas.

Classificação por volemia:
Hipovolêmica (desidratação, diuréticos, vômitos): SF 0,9% para corrigir volemia → Na+ normaliza.
Euvolêmica (SIADH, hipotireoidismo, insuficiência adrenal): restrição hídrica 800-1000 mL/dia ± furosemida + sal.
Hipervolêmica (IC, cirrose, síndrome nefrótica): restrição hídrica + furosemida. Tratar causa base.

Fórmula de Adrogué-Madias: Variação esperada do Na+ por litro de solução infundida = (Na+ da solução − Na+ do paciente) / (água corporal total + 1). Água corporal total = peso × 0,6 (homem) ou × 0,5 (mulher). Use a calculadora da seção de ferramentas.

Hipernatremia (Na+ >145 mEq/L)

Quase sempre por perda de água livre (desidratação, diabetes insipidus, perdas insensíveis em febre). Tratamento: repor água livre — SG 5% EV ou água via SNG. Velocidade: reduzir Na+ máx 10 mEq/L em 24h (se crônica). Se aguda (<48h): pode corrigir mais rápido.

Cálcio

Hipercalcemia (Ca total >10,5 ou Ca iônico >5,4 mg/dL)

Grave (>14 mg/dL) ou sintomática: SF 0,9% 200-300 mL/h (expansão vigorosa) → furosemida 20-40 mg EV após repleção volêmica → ácido zoledrônico 4 mg EV em 15 min (efeito em 2-4 dias) ou pamidronato 60-90 mg EV em 2-4h. Calcitonina 4 UI/kg SC/IM 12/12h (efeito rápido em 4-6h mas taquifilaxia em 48h).
Se neoplasia refratária: denosumab. Se linfoma/sarcoidose: corticoide (hidrocortisona 200 mg/dia).

Hipocalcemia (Ca iônico <4,0 mg/dL ou Ca total <8,0 corrigido)

Sintomática (tetania, Trousseau, Chvostek, QTc longo, convulsão): Gluconato de cálcio 10% 10-20 mL EV em 10 min (1-2 ampolas). Pode repetir. Depois: infusão contínua 0,5-2 mg/kg/h de cálcio elementar. Corrigir hipomagnesemia concomitante (sem Mg, Ca não corrige).

Magnésio

Hipomagnesemia (Mg <1,5 mg/dL)

Grave (<1,0) ou sintomática (arritmia, convulsão, torsades): Sulfato de magnésio 2 g EV em 15-20 min, depois 4-8 g em 24h em infusão contínua.
Leve a moderada: MgO 400 mg VO 2-3x/dia. A absorção VO é limitada — diarreia é comum.

"Sem magnésio, nada funciona": Hipomagnesemia perpetua hipocalemia e hipocalcemia. Se K+ ou Ca++ não corrigem com reposição adequada → dosar e repor Mg primeiro.

Prescrições

Gluconato de Cálcio 10% — Hipercalemia / Hipocalcemia

IndicaçãoHipercalemia com alterações de ECG (estabilização de membrana). Hipocalcemia sintomática. Intoxicação por BCC.
MedicamentoGluconato de Cálcio 10%
ApresentaçãoAmpola 10 mL (10% = 93 mg de cálcio elementar por ampola)
DoseHipercalemia: 10-20 mL (1-2 ampolas) EV em 2-3 min. Repetir em 5 min se ECG não melhorar. Hipocalcemia: 10-20 mL EV em 10 min, depois infusão contínua.
Diluição / PreparoBolus: pode ser puro EV lento. Infusão: diluir 6 ampolas (60 mL) em 440 mL SG 5% → 500 mL. NÃO misturar com bicarbonato (precipita).
Via / VelocidadeEV lento (2-3 min bolus). Periférico aceitável se diluído. Cuidado com extravasamento (necrose tecidual). Central preferível para infusão contínua.
Efeitos adversosBradicardia se infusão rápida, hipotensão, flebite, necrose por extravasamento. Hipercalcemia iatrogênica.
Ajuste renalSem ajuste na emergência. Monitorar cálcio sérico após. Em DRC: cuidado com hipercalcemia — reposição mais cautelosa.
InteraçõesNÃO misturar com bicarbonato, fosfatos ou ceftriaxona na mesma linha (precipitação). Potencializa toxicidade digitálica — usar com cautela extrema em pacientes digitalizados.
Marca referência BRGluconato de Cálcio 10% (diversas — Isofarma, Halex Istar). Institucional.
Pérola clínicaNa hipercalemia, o cálcio NÃO reduz o K+ sérico — apenas estabiliza a membrana cardíaca. É a primeira medida se ECG alterado, seguida imediatamente por insulina+glicose para fazer o shift. Efeito dura 30-60 min.

Insulina Regular + Glicose — Shift de Potássio

IndicaçãoHipercalemia >6,0 mEq/L ou com alterações de ECG (após gluconato de cálcio). Move K+ para intracelular.
MedicamentoInsulina Regular Humana + Glicose 50%
ApresentaçãoInsulina Regular: frasco 100 UI/mL. Glicose 50%: ampola 10 mL (5 g por ampola).
DoseInsulina Regular 5-10 UI EV (considerar 5 UI em idosos, DRC, peso <60 kg — mesma eficácia com menor risco de hipoglicemia) + Glicose 50% 25-50 mL EV (conforme glicemia basal). Se glicemia >250: pode omitir glicose. Se <250: dar junto. Efeito: reduz K+ em 0,5-1,0 mEq/L em 15-30 min. Monitorar glicemia capilar em 1h, 2h e 4h após.
Diluição / PreparoAspirar 10 UI de insulina em seringa + flush EV direto. Glicose 50% em bolus lento pela mesma via (separado da insulina).
Via / VelocidadeEV. Insulina em bolus. Glicose em 5 min. Monitorar glicemia capilar a cada 30 min por 4h.
Efeitos adversosHipoglicemia (principal — 15-20% dos pacientes). Monitorar compulsoriamente.
Ajuste renalEm DRC: insulina tem meia-vida aumentada → risco maior de hipoglicemia. Reduzir para 5 UI se TFG <15 e monitorar mais frequentemente.
InteraçõesEfeito de shift aditivo com salbutamol nebulizado (associar para sinergia). Betabloqueadores mascaram sintomas de hipoglicemia.
Marca referência BRHumulin R® (Lilly), Novolin R® (Novo Nordisk). Glicose 50% institucional.
Pérola clínicaProtocolo moderno: alguns serviços usam 5 UI de insulina (em vez de 10) com mesma eficácia e menos hipoglicemia — especialmente em idosos, DRC e peso <60 kg. Considerar se o serviço adota esse protocolo.

NaCl 3% (Salina Hipertônica) — Hiponatremia Grave

IndicaçãoHiponatremia sintomática grave (convulsão, coma, Na+ <120 mEq/L). Emergência neurológica.
MedicamentoSolução de NaCl 3%
ApresentaçãoBolsa pronta 500 mL (NaCl 3%) ou preparar: 60 mL NaCl 20% + 440 mL SF 0,9% = ~3%.
DoseBolus: 100-150 mL EV em 20 min. Pode repetir até 2x (total 300-450 mL) se sem melhora clínica. Diferenciar aguda vs crônica: Hiponatremia AGUDA (<48h, ex: pós-operatório): meta 4-6 mEq/L nas primeiras 2-4h, aceita-se até 10 mEq/L em 24h. Hiponatremia CRÔNICA (>48h ou duração desconhecida): máximo 8 mEq/L em 24h — risco de mielinólise pontina osmótica se ultrapassar.
Diluição / PreparoSolução pronta ou diluir conforme acima. Rotular claramente "HIPERTÔNICA — NÃO confundir com SF 0,9%".
Via / VelocidadeEV, preferencialmente por acesso central (irritante para veias periféricas, mas aceitável em emergência). Bolus em 20 min.
Efeitos adversosMielinólise pontina osmótica (se correção >8 mEq/L/24h em hiponatremia crônica), sobrecarga volêmica, hipernatremia iatrogênica, flebite.
Ajuste renalCuidado em IC e DRC — risco de hipervolemia. Monitorar Na+ a cada 2-4h após início.
InteraçõesDiuréticos de alça podem causar overcorreção (perdem água livre). Se Na+ subiu demais → desmopressina 2 mcg EV + SG 5% para "relow" (re-rebaixar Na+ intencionalmente).
Marca referência BRNaCl 3% — preparação hospitalar ou Baxter (bolsa pronta, disponibilidade variável).
Pérola clínicaSe corrigiu rápido demais: Desmopressina (DDAVP) 2 mcg EV a cada 8h + SG 5% 3 mL/kg/h para "rebaixar" o Na+ intencionalmente. Mielinólise pontina é devastadora e irreversível — melhor prevenir com monitorização frequente do Na+.

Sulfato de Magnésio — Reposição

IndicaçãoHipomagnesemia grave, torsades de pointes, eclâmpsia, broncoespasmo refratário.
MedicamentoSulfato de Magnésio 50% (MgSO₄)
ApresentaçãoAmpola 10 mL a 50% (500 mg/mL = 5 g por ampola = 40 mEq de Mg)
DoseTorsades/emergência: 2 g EV em 5-20 min (dose padrão ACLS; não infundir em menos de 5 min — risco de hipotensão reflexa). Reposição: 2 g EV em 20 min, depois 4-8 g em 24h em infusão. Eclâmpsia: 4 g EV em 20 min + 1-2 g/h em BIC.
Diluição / PreparoDiluir 4 g (8 mL da solução 50%) em 100 mL SF 0,9%. Para BIC: 8 g em 250 mL SF → ~32 mg/mL.
Via / VelocidadeEV. Bolus de emergência em 2-5 min. Infusão: máx 2 g/h (mais rápido causa hipotensão e rubor). Monitorar reflexo patelar (ausência = toxicidade).
Efeitos adversosHipotensão, rubor facial, náusea (infusão rápida). Toxicidade: arreflexia → depressão respiratória → parada cardíaca. Antídoto: gluconato de cálcio 1 g EV.
Ajuste renalDRC: Mg é excretado pelo rim — reduzir dose em 50% e monitorar nível sérico. TFG <15: não usar em infusão contínua sem monitorização de Mg sérico a cada 4h.
InteraçõesPotencializa BNM (succinilcolina, rocurônio) — cuidado se pós-IOT recente. Antagonista: gluconato de cálcio.
Marca referência BRSulfato de Magnésio 50% — Isofarma, Halex Istar. Institucional.
Pérola clínicaReflexo patelar é o monitor clínico de toxicidade: Presente = seguro. Ausente = parar infusão + gluconato de cálcio. Na eclâmpsia, verificar a cada 1h. Nível sérico terapêutico: 4-7 mEq/L (eclâmpsia) ou 2-4 mEq/L (reposição).

Referências

1. Palmer BF, Clegg DJ. Diagnosis and treatment of hyperkalemia. Cleve Clin J Med. 2017;84(12):934-942.

2. Verbalis JG et al. Diagnosis, evaluation, and treatment of hyponatremia: expert panel recommendations. Am J Med. 2013;126(10 Suppl 1):S1-42.

3. Sterns RH. Disorders of plasma sodium — causes, consequences, and correction. N Engl J Med. 2015;372(1):55-65.

4. Sociedade Brasileira de Nefrologia. Diretrizes para Distúrbios Eletrolíticos. J Bras Nefrol. 2020.

16
Rebaixamento de Consciência

Abordagem Sindrômica

ABC PRIMEIRO: Paciente rebaixado = via aérea ameaçada. Antes de investigar causa: garantir A (via aérea pérvia, aspirar), B (oxigenar, SpO₂ >92%), C (acesso, PA, FC). Glasgow ≤8 → considerar IOT para proteção.

Glasgow — interpretação rápida

Abertura ocular: Espontânea (4) · Ao chamado (3) · À dor (2) · Nenhuma (1)
Resposta verbal: Orientada (5) · Confusa (4) · Palavras inapropriadas (3) · Sons (2) · Nenhuma (1)
Resposta motora: Obedece comandos (6) · Localiza dor (5) · Flexão normal (4) · Flexão anormal (3) · Extensão (2) · Nenhuma (1)

Pupilas (acrescentar ao GCS): Ambas reativas (0) · Uma não reativa (−1) · Nenhuma reativa (−2). GCS-P = GCS − pontuação pupilar.

Mnemônico "AEIOU-TIPS" — causas de RNC

A — Álcool / Acidose
E — Epilepsia / Encefalopatia (hepática, urêmica, hipertensiva, de Wernicke)
I — Insulina (hipo/hiperglicemia) / Infecção (meningite, encefalite, sepse)
O — Opioides / Overdose
U — Uremia
T — Trauma (HSD, HED, contusão) / Temperatura (hiper/hipotermia)
I — AVC Isquêmico ou hemorrágico (stroke)
P — Psicogênico / Porfiria
S — Síncope / Status epilepticus não-convulsivo

Fluxograma de Avaliação

Paciente com RNC (Glasgow <15) ABC · Glicemia capilar · Pupilas Tratar causas reversíveis imediatas Hipoglicemia → Glicose 50% · Opioide → Naloxona · BZD → Flumazenil · Tiamina Sinais focais ou meningismo? Focais TC de crânio Meningismo TC + Punção lombar Não Investigação metabólica / tóxica Gasometria · Eletrólitos · Função renal/hepática · Amônia · Toxicológico Se negativo e RNC persiste: EEG (status não-convulsivo?) · RNM encéfalo · Avaliação neurológica Sempre colher: glicemia, hemograma, gasometria, eletrólitos (Na, K, Ca, Mg), ureia/creatinina, TGO/TGP, amônia, coagulograma, troponina, toxicológico urinário, TSH (se suspeita), cortisol (se insuficiência adrenal possível)

Causas Principais no PS

Hipoglicemia: Causa mais rapidamente reversível. Glicemia capilar é OBRIGATÓRIA em todo RNC. Tratar com Glicose 50% 20-50 mL EV (titular em alíquotas de 10 mL) antes mesmo do resultado laboratorial se suspeita alta.
AVC (isquêmico/hemorrágico): Déficit focal agudo. TC de crânio sem contraste imediata. Se isquêmico <4,5h → avaliar trombólise.
Meningite/Encefalite: Febre + rigidez de nuca + RNC. ATB empírico ANTES da punção lombar se for demorar. Ceftriaxona 2g + Dexametasona 10 mg EV.
Encefalopatia hepática: Hepatopatia conhecida, flapping (asterixis), amônia elevada. Lactulose + rifaximina.
Intoxicação exógena: História de ingesta, pupilas (mióticas = opioide; midriáticas = simpatomimético), toxidrome. Antídoto se disponível.
Status epilepticus não-convulsivo: RNC sem causa aparente, especialmente se história de epilepsia. EEG para diagnóstico.

Manejo

1. ABC + glicemia capilar + pupilas (primeiros 2 min)
2. "Coma cocktail" (se causa desconhecida): Tiamina 100 mg EV + Glicose 50% 40 mL EV + Naloxona 0,4 mg EV (se suspeita de opioide)
3. TC de crânio (se sinais focais, suspeita de AVC, trauma, anticoagulação)
4. Laboratório completo (gasometria, eletrólitos, função renal/hepática, amônia, toxicológico)
5. Tratar causa específica identificada
6. Proteger via aérea se Glasgow ≤8 sem melhora rápida

Tiamina ANTES da glicose: Em pacientes com risco de Wernicke (etilistas crônicos, desnutridos), dar tiamina 100-200 mg EV antes ou junto com a glicose. A glicose sem tiamina pode precipitar encefalopatia de Wernicke (tríade: confusão + oftalmoplegia + ataxia — na prática, a tríade completa é rara).

Prescrições

Glicose 50% — Hipoglicemia

IndicaçãoHipoglicemia sintomática (RNC, convulsão, sudorese, taquicardia) ou glicemia capilar <70 mg/dL com sintomas.
MedicamentoGlicose 50% (Dextrose 50%)
ApresentaçãoAmpola 10 mL a 50% (5 g por ampola) ou 20 mL a 50% (10 g por ampola)
Dose20-50 mL EV em alíquotas de 10 mL (10-25 g de glicose), reavaliando glicemia capilar entre cada bolus. Repetir se necessário. Evitar hiperglicemia rebote. Após recuperação: iniciar SG 10% 100 mL/h para manter glicemia estável.
Diluição / PreparoBolus EV puro por acesso periférico calibroso. Solução hiperosmolar — risco de flebite.
Via / VelocidadeEV em 3-5 min. Início: 1-3 min. Se sem acesso EV: glucagon 1 mg IM (demora 10-15 min para efeito).
Efeitos adversosFlebite, hiperglicemia rebote, edema se infusão excessiva.
Ajuste renalSem ajuste.
InteraçõesDar JUNTO com tiamina em etilistas/desnutridos (prevenir Wernicke).
Marca referência BRGlicose 50% — Isofarma, Halex Istar. Institucional.
Pérola clínicaSe hipoglicemia por sulfonilureia (glibenclamida, glicazida): recorrência é regra. Manter SG 10% contínuo + monitorar 24-48h. Octreotida 50 mcg SC 8/8h pode ser necessária como adjuvante.

Naloxona — Reversão de Opioide

IndicaçãoRNC com suspeita de intoxicação por opioide (miose bilateral, bradipneia, hipotensão). Diagnóstica e terapêutica.
MedicamentoCloridrato de Naloxona
ApresentaçãoAmpola 0,4 mg/mL (1 mL)
Dose0,4-2 mg EV. Titular: iniciar 0,04-0,1 mg se dependente de opioide (evitar abstinência abrupta). Repetir a cada 2-3 min até resposta. Dose máxima empírica: 10 mg (se sem resposta → não é opioide). Meia-vida: 30-90 min (opioide pode durar mais → re-sedação).
Diluição / PreparoDiluir 1 ampola (0,4 mg) em 9 mL SF → 0,04 mg/mL (facilita titulação). IM/SC/IN possível se sem acesso EV.
Via / VelocidadeEV em bolus (preferível). IM se sem acesso (início 2-5 min). Intranasal: 4 mg por narina (Narcan® nasal spray) ou 8 mg (Kloxxado®) — início 3-5 min.
Efeitos adversosAbstinência aguda em dependentes (agitação, vômitos, taquicardia, hipertensão, sudorese). Edema pulmonar (raro). Arritmia.
Ajuste renalSem ajuste.
InteraçõesAntagoniza todos os opioides. Pode precipitar abstinência em uso crônico de opioide.
Marca referência BRNarcan® (importado, pouco disponível). Genérico: Naloxona (Cristália, Hipolabor).
Pérola clínicaRe-sedação: Se opioide de longa ação (metadona, fentanil transdérmico), o efeito da naloxona passa antes do opioide → re-sedação em 30-90 min. Considerar infusão contínua: 2/3 da dose eficaz por hora em BIC. Observar por no mínimo 4h após última dose.

Tiamina (Vitamina B1) — Profilaxia de Wernicke

IndicaçãoProfilaxia/tratamento de encefalopatia de Wernicke em etilistas crônicos, desnutridos, hiperemese gravídica, pós-bariátrica. Dar ANTES ou JUNTO com glicose.
MedicamentoCloridrato de Tiamina (Vitamina B1)
ApresentaçãoAmpola 100 mg/mL (1 mL)
DoseProfilaxia: 100-200 mg EV 1x/dia por 3-5 dias. Wernicke confirmada/suspeita: 500 mg EV 8/8h por 3-5 dias, depois 250 mg/dia até melhora.
Diluição / PreparoDiluir em 100 mL SF 0,9% para infusão. Pode ser EV direto lento (risco de anafilaxia raro).
Via / VelocidadeEV em 30 min (infusão) ou IM. Início: imediato. VO possível (100 mg VO 3x/dia) mas absorção errática em etilistas.
Efeitos adversosReação anafilactóide (muito raro EV — ter adrenalina disponível). Dor no sítio de injeção IM.
Ajuste renalSem ajuste. Hidrossolúvel, excretada por via renal.
InteraçõesNenhuma clinicamente significativa. Pode ser administrada junto com glicose e naloxona.
Marca referência BRBenerva® (Roche — descontinuado em EV). Tiamina genérica injetável (Hypofarma, Isofarma). Disponível no SUS.
Pérola clínicaA tríade clássica de Wernicke (confusão + oftalmoplegia + ataxia) está presente em <20% dos casos. Na prática, qualquer etilista com RNC deve receber tiamina EV empiricamente. O custo é mínimo e a consequência de não tratar (Korsakoff) é irreversível.

Referências

1. Edlow JA et al. Diagnosis of reversible causes of coma. Lancet. 2014;384(9959):2064-2076.

2. Teasdale G et al. The Glasgow Coma Scale at 40 years: standing the test of time. Lancet Neurol. 2014;13(8):844-854.

3. Wijdicks EFM. The practice of emergency and critical care neurology. Oxford University Press; 2010.

4. Sociedade Brasileira de Neurologia. Diretrizes para abordagem do coma no PS. 2019.

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Dispneia Não-Cardiogênica

Abordagem da Dispneia Aguda

Diferenciar cardiogênica vs não-cardiogênica: BNP/NT-proBNP (elevado na IC), Rx tórax (congestão vs hiperinsuflação vs consolidação vs pneumotórax), eco beira-leito (função VE), POCUS pulmonar (linhas B difusas = edema; deslizamento pleural = exclui pneumotórax).

Crise Asmática

Classificação de gravidade

Leve-moderada: Fala frases, FC <120, SpO₂ 90-95%, PFE >50% do previsto.
Grave: Fala palavras, FC >120, FR >30, SpO₂ <90%, uso de musculatura acessória, PFE <50%.
Quase-fatal: Confusão, tórax silencioso, bradicardia, hipotensão, cianose. IOT iminente.

Tratamento escalonado

1° Linha (todos): Salbutamol nebulizado 2,5-5 mg (10-20 gotas) + Ipratrópio 0,5 mg (40 gotas) a cada 20 min por 3 doses. O₂ para SpO₂ 93-95%.
2° Corticoide sistêmico (todos, exceto crise leve isolada): Prednisona 40-60 mg VO ou Metilprednisolona 40-60 mg EV. Iniciar na 1ª hora.
3° Se grave: Sulfato de magnésio 2 g EV em 20 min. Considerar salbutamol EV em bomba.
4° Se quase-fatal/refratária: Adrenalina 0,3-0,5 mg IM. Cetamina 0,5-1 mg/kg EV (broncodilatador). Preparar para IOT (última opção — broncoespasmo dificulta ventilação mecânica).

IOT na asma quase-fatal: Usar cetamina como indutor (broncodilatadora). Pós-IOT: VT baixo (6 mL/kg), FR baixa (10-12), tempo expiratório longo (I:E 1:4 ou 1:5), PEEP baixa. Tolerar hipercapnia permissiva. Auto-PEEP é o maior risco — pode causar pneumotórax e choque obstrutivo.

Exacerbação de DPOC

Tratamento:
— Broncodilatadores: Salbutamol + Ipratrópio nebulizados (mesma dose da asma)
— Corticoide: Prednisona 40 mg VO por 5 dias (REDUCE trial) ou Metilprednisolona 40 mg EV
— O₂ controlado: Meta SpO₂ 88-92% (hiperóxia suprime drive respiratório em retentores de CO₂)
— VNI (CPAP/BiPAP): Indicada se pH <7,35 com PaCO₂ elevada. Reduz IOT e mortalidade. Pressões: IPAP 10-15, EPAP 5-8
— Antibiótico: Se purulência de escarro aumentada + dispneia + volume de escarro. Amoxicilina-clavulanato 875/125 mg 12/12h VO ou Azitromicina 500 mg/dia por 3 dias

VNI antes de IOT na DPOC: Tentativa obrigatória antes de intubar (exceto se PCR, RNC grave, vômitos). Reduz mortalidade em 50% (NNT=5). Não atrasar se indicada. Reavaliação em 1-2h: se piora de pH/gasometria → IOT.

Pneumotórax

Espontâneo primário (PSP — sem doença pulmonar): Classificação BTS 2023: medir ao nível do hilo (não mais no ápice). Pequeno (<2 cm no hilo) e assintomático/minimamente sintomático → observação + O₂ suplementar (acelera reabsorção). Grande (≥2 cm) ou sintomático: 1ª linha = dispositivo ambulatorial (válvula de Heim / Rocket pleural vent — BTS 2023, Classe I); 2ª linha = aspiração simples; dreno torácico apenas se falha das opções anteriores.
Espontâneo secundário (DPOC, fibrose): Sempre drenar (pulmão doente não tolera colapso). Internação obrigatória.
Hipertensivo: Diagnóstico CLÍNICO (não esperar Rx). Descompressão imediata: punção no 4°-5° EIC linha axilar anterior (preferido, BTS 2023) ou 2° EIC linha hemiclavicular com jelco 14G, seguida de drenagem torácica em selo d'água.

Atualização BTS 2023 — Mudanças Importantes no Pneumotórax

1) Medição: Ao nível do hilo (não mais no ápice). <2 cm = pequeno.
2) PSP grande: Dispositivos ambulatoriais (válvula de Heim) são agora 1ª linha — reduzem internação sem aumentar complicações (RAMPP trial, Lancet 2020).
3) Aspiração: Continua como opção, mas não é mais a única 1ª linha.
4) Descompressão de tensão: Via lateral (4°-5° EIC axilar anterior) preferida sobre a via anterior (2° EIC MCL) — menor risco de falha em obesos.

Prescrições

Salbutamol + Ipratrópio — Nebulização

IndicaçãoBroncoespasmo agudo (asma, DPOC, broncoespasmo alérgico). Base do tratamento de emergência.
MedicamentoSulfato de Salbutamol (beta-2 agonista) + Brometo de Ipratrópio (anticolinérgico)
ApresentaçãoSalbutamol: solução para nebulização 5 mg/mL (1 gota = 0,25 mg). Ipratrópio: solução 0,25 mg/mL (20 gotas = 0,5 mg)
DoseSalbutamol 10-20 gotas (2,5-5 mg) + Ipratrópio 20-40 gotas (0,25-0,5 mg) + SF 0,9% 3-5 mL. Nebulizar com O₂ 6-8 L/min. Repetir a cada 20 min (até 3 doses na 1ª hora), depois a cada 1-4h.
Diluição / PreparoMisturar ambos no copo do nebulizador + SF. Nebulizar por 10-15 min.
Via / VelocidadeInalatória. Se grave/não-cooperativo: nebulização contínua (salbutamol 10-15 mg/h). Alternativa: spray + espaçador (4-8 jatos a cada 20 min — eficácia equivalente).
Efeitos adversosTaquicardia, tremor, hipocalemia (salbutamol). Boca seca, glaucoma (ipratrópio — cuidado com máscara que escape para olhos).
Ajuste renalSem ajuste.
InteraçõesTaquicardia aditiva com teofilina e catecolaminas. Hipocalemia com diuréticos e corticoides (monitorar K+).
Marca referência BRAerolin® (GSK) + Atrovent® (Boehringer). Genéricos disponíveis. Combivent® (combinação fixa — pouco usado em emergência).
Pérola clínicaNa crise grave, ipratrópio nas primeiras 3 doses melhora desfecho; após estabilizar, pode manter só salbutamol. Spray + espaçador é tão eficaz quanto nebulizador e mais rápido — considerar se muitos pacientes simultâneos.

Metilprednisolona — Corticoide EV

IndicaçãoCrise asmática moderada-grave, exacerbação de DPOC, anafilaxia (adjuvante). Iniciar na 1ª hora — efeito pleno em 4-6h.
MedicamentoSuccinato Sódico de Metilprednisolona
ApresentaçãoFrasco-ampola 125 mg e 500 mg (pó liofilizado + diluente)
Dose40-125 mg EV 1x (dose única no PS). Manutenção: 40-60 mg EV 6/6h se internação. Transição para VO (prednisona) assim que tolerar.
Diluição / PreparoReconstituir com diluente fornecido. Bolus EV direto ou diluir em 50-100 mL SF em 15-30 min.
Via / VelocidadeEV em bolus lento (2-3 min) ou infusão em 15-30 min. Início: 1-2h (efeito anti-inflamatório não é imediato).
Efeitos adversosHiperglicemia (monitorar em diabéticos), insônia, HAS, retenção hídrica. Dose única: efeitos mínimos.
Ajuste renalSem ajuste.
InteraçõesHiperglicemia com insulina/hipoglicemiantes (ajustar). Hipocalemia com diuréticos e salbutamol.
Marca referência BRSolu-Medrol® (Pfizer). Genérico: Metilprednisolona (diversas).
Pérola clínicaSe paciente tolera VO: Prednisona 40-60 mg VO é tão eficaz quanto EV e mais barata. Reservar EV para vômitos ou dispneia grave impedindo deglutição. Duração total: 5 dias (DPOC — REDUCE trial) a 5-7 dias (asma).

Referências

1. GINA — Global Strategy for Asthma Management | 2023 → GINA 2025: biomarcadores T2, step 4 dose média ICS-LABA, fenoterol não recomendado.

2. GOLD — Global Initiative for COPD | 2024 → GOLD 2026: conceito de 'disease activity', biológicos (dupilumab, mepolizumab) evidência A, ensifentrine.

3. Leatherman JW, McArthur C, Shapiro RS. Effect of prolongation of expiratory time on dynamic hyperinflation in mechanically ventilated patients with severe asthma. Crit Care Med. 2004;32(7):1542-1545.

4. Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Diretrizes de Asma e DPOC. J Bras Pneumol. 2020.

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Infecções no PS

Sepse — Hour-1 Bundle

Sepse = emergência tempo-dependente. Cada hora de atraso no ATB aumenta mortalidade em ~4-8%. Bundle da 1ª hora: Lactato · Hemoculturas · ATB empírico · Cristaloide 30 mL/kg se hipotensão ou lactato ≥4. Em pacientes com IC ou DRC, individualizar volume — bolus de 250-500mL com reavaliação clínica (sinais de congestão, resposta de PA/FC) antes de completar 30mL/kg. · Vasopressor se PAM <65 após fluidos.

Critérios de Sepse (Sepsis-3)

Sepse: Infecção suspeita + SOFA ≥2 pontos (ou aumento ≥2 do basal). Na prática do PS: qSOFA (≥2 de: PAS ≤100, FR ≥22, RNC) pode alertar para gravidade, mas SSC 2021 recomenda NÃO usar qSOFA como ferramenta isolada de triagem (baixa sensibilidade ~50% — perde metade dos sépticos). Preferir avaliação clínica + SOFA completo ou NEWS/MEWS como triagem institucional.
Choque séptico: Sepse + necessidade de vasopressor para PAM ≥65 + lactato >2 mmol/L apesar de ressuscitação volêmica adequada. Mortalidade >40%.

Ressuscitação volêmica

Cristaloide 30 mL/kg nas primeiras 3h se hipotensão ou lactato ≥4 mmol/L. Ringer Lactato preferível (menos acidose hiperclorêmica). Após 30 mL/kg: reavaliar responsividade a fluidos (elevação passiva de pernas, variação de pulso, POCUS de VCI). Se refratário → noradrenalina.

Escolha empírica de ATB conforme foco suspeito:
Pulmonar comunitário: Ceftriaxona + Azitromicina (ou Levofloxacino)
Urinário: Ceftriaxona (ou Ciprofloxacino se sem uso recente de quinolona)
Abdominal: Ceftriaxona + Metronidazol (ou Piperacilina-Tazobactam)
Pele/partes moles: Oxacilina (ou Vancomicina se MRSA)
SNC: Ceftriaxona + Vancomicina + Dexametasona
Sem foco: Piperacilina-Tazobactam ou Meropenem (se risco de MDR)

Pneumonia Adquirida na Comunidade (PAC)

Ambulatorial (sem comorbidades): Amoxicilina 500 mg–1 g 8/8h VO por 5 dias (ATS/IDSA 2019 recomenda 1 g; SBC aceita 500 mg).
Ambulatorial (com comorbidades — DM, IC, DPOC, etilismo): Amoxicilina-clavulanato 875/125 mg 12/12h + Azitromicina 500 mg/dia VO por 5 dias.
Internação (enfermaria): Ceftriaxona 1-2 g EV/dia + Azitromicina 500 mg EV/dia. Transição para VO quando afebril 48h, estável.
UTI: Ceftriaxona 2 g EV/dia + Azitromicina 500 mg EV/dia (ou Levofloxacino 750 mg). Se suspeita de Pseudomonas: Piperacilina-Tazobactam + Levofloxacino. Se suspeita de MRSA: + Vancomicina ou Linezolida.

CURB-65 — estratificação rápida

Confusão mental · Ureia >43 mg/dL · Respiratória FR ≥30 · Blood pressure PAS <90 ou PAD ≤60 · Idade ≥65 anos
0-1: ambulatorial · 2: internação breve · ≥3: UTI (mortalidade >20%)

ITU / Pielonefrite

Cistite não-complicada (mulher): Nitrofurantoína 100 mg 6/6h VO por 5 dias. Alternativa: Fosfomicina 3 g VO dose única.
Pielonefrite não-complicada: Ciprofloxacino 500 mg 12/12h VO por 7 dias (se sem uso recente de quinolona). Alternativa EV: Ceftriaxona 1 g/dia.
ITU complicada (homem, cateter, gestante, obstrução, DRC, imunossuprimido): Ceftriaxona 1-2 g EV/dia. Ajustar por cultura. Gestante: Ceftriaxona (quinolona contraindicada).

Meningite Bacteriana

ATB na 1ª hora salva vida. Se suspeita clínica (febre + rigidez de nuca + RNC): colher hemoculturas → iniciar ATB empírico + Dexametasona ANTES da punção lombar. Se TC necessária antes da PL (sinais focais, Glasgow <12, imunossuprimido): ATB ANTES da TC. Não atrasar tratamento por nenhum exame.

Empírico adulto comunitário: Ceftriaxona 2 g EV 12/12h + Vancomicina 15-20 mg/kg EV 12/12h + Dexametasona 10 mg EV 6/6h (iniciar antes ou junto com 1ª dose de ATB — reduz mortalidade por pneumococo).
Se >50 anos ou imunossuprimido: Adicionar Ampicilina 2 g EV 4/4h (cobertura de Listeria).
Meningite por herpes (encefalite herpética): Aciclovir 10 mg/kg EV 8/8h se suspeita (confusão + febre + convulsão + alteração em temporal na TC/RNM).

Prescrições

Ceftriaxona — ATB de Amplo Espectro

IndicaçãoPAC internada, ITU complicada/pielonefrite, meningite, sepse (empírico), peritonite. Cefalosporina de 3ª geração — cobertura para Gram+ (exceto MRSA/Enterococcus) e Gram- (exceto Pseudomonas).
MedicamentoCeftriaxona Dissódica
ApresentaçãoFrasco-ampola 500 mg ou 1 g (pó para reconstituição)
DosePAC/ITU: 1-2 g EV 1x/dia. Meningite: 2 g EV 12/12h (4 g/dia). Endocardite: 2 g EV 12/12h.
Diluição / PreparoReconstituir 1 g em 10 mL de água estéril. Diluir em 50-100 mL SF 0,9% para infusão. NÃO diluir em Ringer com cálcio (precipitação).
Via / VelocidadeEV em 30 min. IM possível (com lidocaína 1% como diluente). Meia-vida: 6-8h (permite dose 1x/dia para maioria das indicações).
Efeitos adversosDiarreia, rash, elevação de transaminases, lama biliar/colelitíase (uso prolongado), C. difficile, reação Jarisch-Herxheimer (sífilis).
Ajuste renalSem ajuste em DRC (excreção biliar 40%). Segura em hemodiálise (não é dialisável — manter dose).
InteraçõesNÃO misturar com cálcio (precipitação — especialmente em neonatos, fatal). Potencializa efeito de anticoagulantes orais (redução de vitamina K intestinal).
Marca referência BRRocefin® (Roche). Genérico: Ceftriaxona (amplamente disponível).
Pérola clínicaA ceftriaxona é o "canivete suíço" do PS brasileiro. Cobre maioria das infecções comunitárias. Limitações: não cobre MRSA, Pseudomonas, Enterococcus, anaeróbios. Se suspeita desses agentes → associar ou trocar.

Piperacilina-Tazobactam — Sepse Abdominal / Sem Foco

IndicaçãoSepse abdominal, infecção sem foco definido, infecção hospitalar, pneumonia aspirativa. Amplo espectro: Gram+, Gram- incluindo Pseudomonas, anaeróbios.
MedicamentoPiperacilina Sódica + Tazobactam Sódico
ApresentaçãoFrasco-ampola 4,5 g (4 g piperacilina + 0,5 g tazobactam)
Dose4,5 g EV 6/6h (infusão estendida de 4h) ou 8/8h. Meningite: não penetra SNC adequadamente — não usar. Dose máxima: 18 g/dia.
Diluição / PreparoReconstituir em 20 mL de água estéril. Diluir em 100-250 mL SF 0,9%. Infusão estendida: diluir em 250 mL e correr em 4h (otimiza PK/PD — tempo acima da MIC).
Via / VelocidadeEV. Infusão estendida (4h) é superior à intermitente (30 min) em eficácia — adotar se BIC disponível.
Efeitos adversosDiarreia, rash, C. difficile, neutropenia (uso >14 dias), nefrite intersticial, convulsão (raro, em DRC).
Ajuste renalTFG 20-40: 4,5 g 8/8h. TFG <20: 4,5 g 12/12h. Hemodiálise: 2,25 g 8/8h + dose extra pós-diálise.
InteraçõesNefrotoxicidade aditiva com vancomicina (combinação comum mas monitorar creatinina diariamente). Inativa aminoglicosídeos se misturados na mesma linha.
Marca referência BRTazocin® (Pfizer). Genérico: Piperacilina + Tazobactam (Eurofarma, Novafarma).
Pérola clínicaInfusão estendida (4h) demonstrou redução de mortalidade em estudos observacionais de sepse grave. Adotar como padrão se a estrutura do PS permitir (necessita BIC para cada dose). NÃO cobre MRSA — associar vancomicina se suspeita.

Noradrenalina — Vasopressor na Sepse

IndicaçãoChoque séptico com PAM <65 mmHg apesar de ressuscitação volêmica (30 mL/kg de cristaloide). 1ª linha. Iniciar precocemente (não esperar término dos 30 mL/kg se PAM muito baixa).
MedicamentoHemitartarato de Norepinefrina
ApresentaçãoAmpola 4 mg/4 mL ou 8 mg/4 mL
DoseIniciar 0,1 mcg/kg/min. Titular a cada 5-10 min para PAM ≥65. Dose usual: 0,1-0,5 mcg/kg/min. Dose alta: >1 mcg/kg/min (considerar corticoide adjuvante — hidrocortisona 50 mg 6/6h).
Diluição / Preparo4 ampolas (16 mg) em 234 mL SG 5% → 64 mcg/mL. Paciente 70 kg a 0,1 mcg/kg/min = 7 mcg/min ≈ 6,5 mL/h.
Via / VelocidadeEV em BIC. Acesso central preferível. Periférico calibroso aceitável nas primeiras horas (monitorar extravasamento — fentolamina local se extravasar).
Efeitos adversosIsquemia periférica, arritmia, hipertensão se dose excessiva. Necrose por extravasamento.
Ajuste renalSem ajuste.
InteraçõesEfeito potencializado por IMAO e tricíclicos. Se dose >0,25 mcg/kg/min → associar vasopressina 0,03 UI/min (Surviving Sepsis 2021). Se choque refratário a 2 vasopressores → hidrocortisona 50mg EV 6/6h (200mg/dia).
Marca referência BRHyponor® (Hypofarma), Norepine® (Blau). Genérico disponível.
Pérola clínicaInício precoce de noradrenalina (junto com fluidos, não após) melhora desfecho na sepse (estudo CENSER). Se PAM <50 → iniciar noradrenalina imediatamente por periférico enquanto punciona acesso central. Não perder tempo.

Aciclovir — Encefalite Herpética

IndicaçãoSuspeita de encefalite herpética (HSV-1): febre + confusão/alteração comportamental + convulsão ± lesão temporal na TC/RNM. Iniciar empiricamente — NÃO aguardar PCR do LCR.
MedicamentoAciclovir sódico (EV)
ApresentaçãoFrasco-ampola 250 mg (pó liofilizado para reconstituição)
Dose10 mg/kg EV 8/8h (usar peso ideal). Duração: 14-21 dias. Em imunossuprimidos: considerar 21 dias.
Diluição / PreparoReconstituir 250 mg em 10 mL de água destilada. Depois diluir em SF 0,9% ou SG 5% para concentração final ≤7 mg/mL (ex: 750 mg em ~110 mL). Estável por 24h em TA.
Via / VelocidadeEV em infusão lenta — mínimo 1 hora por dose. Infusão rápida aumenta risco de nefrotoxicidade (cristalúria).
Efeitos adversosNefrotoxicidade (cristalúria — principal; prevenir com hidratação vigorosa), flebite no local da infusão, náusea, cefaleia. Raro: neurotoxicidade (tremor, confusão, mioclonia — mais comum em DRC).
Ajuste renalClCr 25-50: 10 mg/kg 12/12h. ClCr 10-25: 10 mg/kg 24/24h. ClCr <10 ou hemodiálise: 5 mg/kg 24/24h (dar após HD). Manter hidratação EV vigorosa em todos os pacientes.
InteraçõesNefrotoxicidade potencializada por: aminoglicosídeos, anfotericina B, contraste iodado, AINEs. Probenecida aumenta nível sérico. Monitorar função renal diariamente.
Marca referência BRZovirax® IV (GSK). Genérico: Aciclovir (Teuto, EMS, Cristália).
Pérola clínicaMortalidade da encefalite herpética sem tratamento: ~70%. Com aciclovir precoce: ~15-20%. O atraso de horas importa. Se suspeita clínica → iniciar aciclovir imediatamente, mesmo antes da PL e da RNM. O diagnóstico definitivo (PCR HSV no LCR) pode levar 24-48h — não esperar para tratar.

Referências

1. Evans L et al. — SSC International Guidelines | 2021 → SSC 2024 Update (129 statements, 46 novos). Cuidado individualizado. POCUS condicional. Follow-up pós-alta.

2. Metlay JP et al. Diagnosis and Treatment of Adults with Community-Acquired Pneumonia — ATS/IDSA Guideline. Am J Respir Crit Care Med. 2019;200(7):e45-e67.

3. van de Beek D et al. ESCMID guideline: diagnosis and treatment of acute bacterial meningitis. Clin Microbiol Infect. 2016;22 Suppl 3:S37-62.

4. Sociedade Brasileira de Infectologia. Diretrizes Brasileiras para Sepse. ILAS — Instituto Latino-Americano da Sepse. 2021.

19 Anafilaxia +

Critérios Diagnósticos (WAO 2020)

Anafilaxia é provável quando QUALQUER UM dos 3 critérios:
1. Início agudo (min-horas) com envolvimento de pele/mucosa (urticária, angioedema, prurido, flushing) + PELO MENOS 1: comprometimento respiratório (dispneia, broncoespasmo, estridor, hipoxemia) OU hipotensão/sinais de disfunção orgânica
2. ≥2 dos seguintes após exposição a alérgeno provável: pele/mucosa · respiratório · hipotensão · sintomas GI persistentes (cólica, vômitos)
3. Hipotensão isolada após exposição a alérgeno CONHECIDO para o paciente (PAS <90 ou queda >30% da basal)

Fluxograma de Manejo

SUSPEITA DE ANAFILAXIA ADRENALINA 0,3-0,5mg IM (1:1.000) face anterolateral da coxa — REPETIR 5-15min se necessário MEDIDAS SIMULTÂNEAS Decúbito dorsal + elevar MMII · O₂ alto fluxo · 2 acessos calibrosos SF 0,9% 500-1000mL bolus rápido · Monitorização contínua ADJUVANTES (2ª linha — NÃO substituem adrenalina) Difenidramina 50mg EV · Famotidina 20mg EV · Metilprednisolona 125mg EV (corticoide PODE reduzir bifásica — evidência fraca, WAO 2024) Refratária? NÃO Observar 6-12h SIM ANAFILAXIA REFRATÁRIA Adrenalina EV em BIC: 0,1-1 mcg/kg/min (diluir 1mg em 250mL SF) Se em uso de betabloqueador → Glucagon 1-5mg EV em 5min Broncoespasmo: Salbutamol NBZ Estridor/edema VAS: IOT precoce

Detalhes do Manejo

Adrenalina IM é a ÚNICA droga que salva vida na anafilaxia. Anti-histamínicos e corticoides são adjuvantes — nunca substituem a adrenalina. Atraso na adrenalina = principal fator associado a óbito. Não existe contraindicação absoluta à adrenalina na anafilaxia (incluindo idosos, cardiopatas e gestantes).

Critérios de alta:
— Melhora completa dos sintomas por ≥6h (≥12h se anafilaxia grave, refratária ou bifásica prévia)
— Prescrever auto-injetor de adrenalina (EpiPen® / caneta de adrenalina) — treinar uso
— Prednisona 40-60mg VO/dia por 3-5 dias (prevenção de reação bifásica — ocorre em ~5% dos casos, até 72h)
— Encaminhar ao alergista para investigação do gatilho
— Orientar: retornar imediatamente se recorrência de sintomas

Prescrições

Adrenalina IM — 1ª Linha na Anafilaxia

IndicaçãoPrimeiro tratamento em TODA anafilaxia. Não esperar progressão. Aplicar ao diagnóstico clínico.
MedicamentoAdrenalina (epinefrina) solução 1:1.000 (1 mg/mL)
ApresentaçãoAmpola 1 mg/1 mL
DoseAdulto: 0,3-0,5 mg IM (0,3-0,5 mL da ampola 1:1.000). Crianças: 0,01 mg/kg IM (máx 0,3 mg). Repetir a cada 5-15 min se necessário (maioria responde com 1-2 doses).
Via / VelocidadeIM na face anterolateral da coxa (vasto lateral). NUNCA subcutâneo (absorção lenta e errática). NUNCA EV em bolus nesta concentração (risco de arritmia fatal).
Efeitos adversosTaquicardia, tremor, palidez, ansiedade, cefaleia — todos transitórios e aceitáveis no contexto de anafilaxia. Arritmia grave é rara na dose IM recomendada.
Ajuste renalSem ajuste.
InteraçõesPacientes em uso de betabloqueador podem ter resposta reduzida → usar glucagon 1-5 mg EV como adjuvante. Uso concomitante de IMAO pode potencializar efeito — ainda assim, NÃO contraindicar adrenalina na anafilaxia.
Marca referência BRAdrenalina® (Hipolabor, Cristália). Genérico amplamente disponível.
Pérola clínicaO erro mais comum é a subdosagem e o atraso. Não tenha medo de dar adrenalina. Dose de 0,5 mg IM é segura em adultos. O risco de NÃO dar adrenalina é incomparavelmente maior que o risco de dá-la.

Adrenalina EV em BIC — Anafilaxia Refratária

IndicaçãoAnafilaxia refratária a ≥2 doses de adrenalina IM, com hipotensão persistente ou broncoespasmo grave.
MedicamentoAdrenalina (epinefrina) solução 1:1.000 diluída
ApresentaçãoAmpola 1 mg/1 mL
Dose0,1-1 mcg/kg/min EV em BIC. Iniciar 0,1 mcg/kg/min e titular por PA e sintomas.
Diluição / Preparo1 mg (1 ampola) em 250 mL SF 0,9% → 4 mcg/mL. Paciente 70 kg a 0,1 mcg/kg/min = 7 mcg/min = 105 mL/h.
Via / VelocidadeEV em BIC. Acesso central preferível, mas periférico aceitável na urgência. Monitorização cardíaca contínua obrigatória.
Efeitos adversosTaquiarritmia, hipertensão, isquemia miocárdica (monitorar ECG). Extravasamento pode causar necrose local.
Ajuste renalSem ajuste.
Marca referência BRMesma ampola da adrenalina IM (1 mg/mL).
Pérola clínicaA transição IM → EV BIC ocorre quando a adrenalina IM não está sustentando resposta. Neste cenário, o paciente geralmente já deveria estar em UTI ou sala de emergência com monitorização plena. Não usar adrenalina EV em bolus na anafilaxia (exceto PCR) — risco de arritmia fatal.

Referências

1. Cardona V et al. World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020. World Allergy Organ J. 2020;13(10):100472. | GA2LEN Consensus Report 2024 (J Allergy Clin Immunol 2025): novos critérios unificados de anafilaxia. Neffy® (epinefrina nasal) aprovada FDA/EMA 2024. Grading system CoFAR atualizado.

2. Shaker MS et al. Anaphylaxis — A 2020 Practice Parameter Update, Systematic Review, and GRADE Analysis. J Allergy Clin Immunol. 2020;145(4):1082-1123.

3. Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI). Diretrizes para o manejo da anafilaxia. 2022.

Referências cruzadas: PCR/ACLS (se evolução para PCR) · Sedação e IOT (se edema de VAS com necessidade de IOT) · Dispneia Não-Cardiogênica (broncoespasmo refratário)
20 AVC Agudo +

Triagem e Reconhecimento

FAST: Face (assimetria facial) · Arm (queda de braço) · Speech (fala arrastada/incompreensível) · Time (hora do início — anotar!).
Tempo é cérebro: ~1,9 milhão de neurônios são perdidos por minuto de oclusão. Porta-agulha ideal: <60 min. Cada minuto conta.

Abordagem inicial:
— Glicemia capilar IMEDIATA (hipoglicemia mimetiza AVC)
— TC de crânio SEM contraste urgente (excluir hemorragia — obrigatório antes de trombólise)
— PA basal (NÃO reduzir agressivamente antes de definir conduta)
— ECG (FA como causa embólica)
— Laboratoriais: hemograma, coagulograma, eletrólitos, creatinina, glicemia, troponina

NIHSS — National Institutes of Health Stroke Scale

Pontuação total: 0-42. Quanto maior, mais grave.
0 = sem déficit · 1-4 = menor · 5-15 = moderado · 16-20 = moderado-grave · 21-42 = grave
ItemAvaliaçãoPontuação
1a. Nível de consciênciaAlerta / Sonolento / Estupor / Coma0-3
1b. Perguntas (mês + idade)Ambas corretas / 1 correta / Nenhuma0-2
1c. Comandos (abrir/fechar olhos, apertar/soltar mão)Ambos / 1 / Nenhum0-2
2. Olhar conjugadoNormal / Paralisia parcial / Desvio forçado0-2
3. Campo visualNormal / Hemianopsia parcial / Completa / Bilateral0-3
4. Paralisia facialNormal / Menor / Parcial / Completa0-3
5. Motor MMSS (D e E)Mantém 10s / Pronação / Contra gravidade / Sem gravidade / Plegia0-4 cada
6. Motor MMII (D e E)Mantém 5s / Contra gravidade / Sem gravidade / Algum mov / Plegia0-4 cada
7. Ataxia de membrosAusente / 1 membro / 2 membros0-2
8. SensibilidadeNormal / Perda parcial / Perda severa0-2
9. LinguagemNormal / Afasia leve / Grave / Muda/global0-3
10. DisartriaNormal / Leve-moderada / Grave/muda0-2
11. Extinção/InatençãoNormal / 1 modalidade / 2 modalidades0-2

Trombólise Endovenosa

Janela terapêutica: Até 4,5 horas do início dos sintomas (ou de quando foi visto normal pela última vez — "last known well").
PA-alvo pré-trombólise: <185/110 mmHg. Se acima → Labetalol EV, Nicardipina EV ou Esmolol EV para atingir meta ANTES de infundir trombolítico (AHA/ASA 2026). Evitar nitroprussiato sempre que possível no AVCi (risco de aumento da PIC).

Alteplase (rt-PA) — regime padrão:
0,9 mg/kg (máx 90 mg)
— 10% da dose em bolus EV em 1 min
— 90% restante em infusão contínua em 60 min
— NÃO administrar AAS, heparina ou anticoagulante nas primeiras 24h pós-trombólise
— TC de controle em 24h antes de iniciar antiagregação

Tenecteplase no AVCi — AHA/ASA 2026 (Classe IIa)

Tenecteplase 0,25mg/kg (máx 25mg) em bolus EV único é uma alternativa razoável à alteplase (Classe IIa, AHA/ASA 2026) para AVCi dentro de 4,5h. Vantagem prática: bolus único em 5–10 segundos, sem infusão de 1 hora. Estudos AcT e TASTE-A demonstraram não-inferioridade.

Janela expandida (Classe IIa): Trombólise pode ser razoável entre 4,5–9h (ou wake-up stroke) se imagem avançada mostrar tecido salvável.

Janela estendida (Classe IIb): Trombólise 4,5–24h em pacientes selecionados com oclusão de grande vaso e tecido salvável que NÃO podem ser submetidos a trombectomia mecânica.

Trombectomia Mecânica

Indicação principal: AVCi por oclusão de grande vaso (LVO) — ACM M1, ACI intracraniana, basilar.
Janela até 6h: NIHSS ≥6 + LVO confirmada por angioTC/angioRNM. Estudos: MR CLEAN, ESCAPE, EXTEND-IA, SWIFT PRIME, REVASCAT.
Janela estendida 6-24h: Critérios de imagem avançada (mismatch perfusão/core). Estudos: DAWN (mismatch clínico-radiológico) e DEFUSE-3 (mismatch perfusão). Necessitam TC perfusão ou RNM difusão/perfusão.

Trombólise antes da trombectomia (bridging) é recomendada quando indicada (AHA/ASA 2026). Administrar alteplase/TNK primeiro e encaminhar para trombectomia o mais rápido possível. Nota: dados recentes (MR CLEAN-NO IV, DIRECT-MT) sugerem que trombectomia direta SEM bridging pode ser não-inferior em centros com sala pronta — conduta ainda em debate. Transferir para centro com neurointervenção se não disponível localmente.

AVC Hemorrágico (AVCh)

Manejo imediato:
— PA-alvo: PAS <140 mmHg nas primeiras 6h se PAS 150-220 (INTERACT-2) — Nicardipina ou Labetalol EV (AHA/ASA 2022, 1ª linha); Esmolol ou Nitroprussiato como alternativas
— Reverter anticoagulação se em uso (ver Tema 6 — Emergências em Anticoagulação)
— Neurocirurgia se: hematoma cerebelar >3 cm, hidrocefalia aguda, hematoma lobar >30 mL com deterioração
NÃO dar antiagregante, anticoagulante ou trombolítico
— Cabeceira 30°, controle de glicemia (140-180), normotermia, profilaxia de convulsão se crise na apresentação

Prescrições

Alteplase (rt-PA) — Trombólise no AVCi

IndicaçãoAVCi com início <4,5h, sem contraindicações à trombólise, PA <185/110, TC sem hemorragia.
MedicamentoAlteplase (rt-PA)
ApresentaçãoFrasco-ampola 50 mg com diluente
Dose0,9 mg/kg (máx 90 mg). 10% em bolus EV em 1 min + 90% em BIC em 60 min.
Diluição / PreparoReconstituir com diluente fornecido (1 mg/mL). Separar volume do bolus (10%) em seringa. Restante em BIC. Não agitar.
Via / VelocidadeEV. Bolus em 1 min + infusão 60 min. Acesso dedicado.
Efeitos adversosHemorragia intracraniana sintomática (~6%). Angioedema orolingual (raro, mais com IECA). Sangramento sistêmico.
Ajuste renalSem ajuste.
InteraçõesContraindicado se: plaquetas <100.000, INR >1,7, TTPA >40s, uso de DOACs <48h (exceto se anti-Xa/dTT normais), AVC/TCE grave <3 meses, cirurgia maior <14 dias.
Marca referência BRActilyse® (Boehringer Ingelheim).
Pérola clínicaSe PA >185/110: reduzir ANTES de trombólise com Labetalol, Nicardipina ou Esmolol EV (AHA/ASA 2026). Evitar nitroprussiato no AVCi (risco de aumento da PIC — consistente com Tema 5). Manter PA <180/105 nas 24h pós-trombólise. Monitorar PA a cada 15 min nas primeiras 2h, depois 30/30 min por 6h, depois 1/1h até 24h.

Esmolol — Controle de PA no AVC

IndicaçãoRedução aguda de PA no AVCi (pré-trombólise) ou AVCh (meta PAS <140).
MedicamentoEsmolol (betabloqueador ultra-curto)
ApresentaçãoFrasco 2.500 mg/250 mL (10 mg/mL — pronto para infusão) ou ampola 100 mg/10 mL (10 mg/mL) para bolus.
DoseBolus: 500 mcg/kg em 1 min. Manutenção: 50-300 mcg/kg/min em BIC. Titular a cada 4 min.
Diluição / PreparoJá disponível pronto para infusão (10 mg/mL) ou diluir concentrado em SF/SG5%.
Via / VelocidadeEV em BIC. Meia-vida: 9 min (efeito cessa rapidamente ao parar).
Efeitos adversosBradicardia, hipotensão, broncoespasmo. Menos intensos que outros BB devido à meia-vida ultra-curta.
Ajuste renalSem ajuste.
InteraçõesEvitar com verapamil/diltiazem EV (risco de BAV/assistolia). Cuidado em asmáticos (broncoespasmo).
Marca referência BRBrevibloc® (Baxter). Genérico disponível.
Pérola clínicaA vantagem do esmolol no AVC é a meia-vida ultra-curta (~9 min). Se o paciente deteriorar neurologicamente (possivelmente por hipoperfusão), basta parar a droga e o efeito cessa em minutos. Isso dá segurança para titular PA agressivamente.

Referências

1. Powers WJ et al. Guidelines for the Early Management of Patients with Acute Ischemic Stroke — AHA/ASA 2019. Stroke. 2019;50(12):e344-e418. → Atualizada: AHA/ASA 2026 Guideline (Stroke 2026;57). TNK 0,25mg/kg Classe IIa. Janela expandida 4,5-9h com imagem.

2. Menon BK et al. AcT-STROKE: Tenecteplase versus Alteplase for Acute Ischemic Stroke. NEJM. 2024.

3. Nogueira RG et al. DAWN Trial: Thrombectomy 6 to 24 Hours after Stroke with a Mismatch. NEJM. 2018;378(1):11-21.

4. Albers GW et al. DEFUSE-3: Thrombectomy for Stroke at 6 to 16 Hours with Selection by Perfusion Imaging. NEJM. 2018;378(8):708-718.

5. Anderson CS et al. INTERACT-2: Rapid Blood-Pressure Lowering in Patients with Acute Intracerebral Hemorrhage. NEJM. 2013;368(25):2355-2365.

Referências cruzadas: Crises Hipertensivas (manejo de PA) · Emergências em Anticoagulação (reversão para AVCh) · Arritmias (FA como causa embólica) · CHA₂DS₂-VA (estratificação pós-AVC — ESC 2024)
21 Intoxicações Exógenas +

Abordagem Geral

ABCDE primeiro, antídoto depois. Estabilizar via aérea, ventilação e circulação antes de pensar em descontaminação ou antídoto. A maioria dos óbitos ocorre por falha de suporte básico, não por falta de antídoto.

Descontaminação gastrointestinal:
Carvão ativado 1g/kg (máx 50g) VO ou SNG: eficaz se <1-2h da ingestão. NÃO usar em: cáusticos, hidrocarbonetos, álcoois, metais pesados (ferro, lítio), RNC sem IOT (risco de aspiração)
Lavagem gástrica: indicação muito restrita (ingestão letal <1h, substância não adsorvida pelo carvão). Contraindicada em cáusticos e hidrocarbonetos
Irrigação intestinal total (PEG): para substâncias de liberação lenta, body packers, ferro, lítio

Toxidromes — Reconhecimento por Padrão

ToxidromeSinaisAgentes
ColinérgicoSLUDGE: Salivação, Lacrimejamento, Urina, Diarreia, GI (cólica), Êmese + miose + bradicardia + broncoespasmoOrganofosforados, carbamatos, pilocarpina
Anticolinérgico"Quente como uma lebre, seco como um osso, vermelho como uma beterraba, louco como um chapeleiro" — midríase, taquicardia, pele seca, retenção urinária, deliriumAtropina, anti-histamínicos, tricíclicos, antipsicóticos
SimpaticomiméticoMidríase, taquicardia, HAS, hipertermia, agitação, diaforeseCocaína, anfetaminas, MDMA
Sedativo-hipnóticoRNC, miose (opioide) ou pupilas normais (BZD), bradicardia, hipotensão, hipotermiaOpioides, benzodiazepínicos, barbitúricos, álcool
SerotoninérgicoTríade: alteração mental + hiperatividade autonômica + clônus/hiperreflexia. Diaforese, diarreiaISRS + IMAO, tramadol, linezolida, triptanos
Síndrome extrapiramidalRigidez, distonia, acatisia, tremor, bradicinesiaHaloperidol, metoclopramida, antipsicóticos

Principais Antídotos

TóxicoAntídotoDose
ParacetamolN-acetilcisteína (NAC)150 mg/kg em 1h → 50 mg/kg em 4h → 100 mg/kg em 16h
OpioideNaloxona0,04-0,4 mg EV, titular (evitar despertar abrupto)
BenzodiazepínicoFlumazenil0,2 mg EV em 30s → 0,3 mg → 0,5 mg (máx 3 mg). CUIDADO: convulsão em dependentes ou se co-ingestão com tricíclicos
OrganofosforadoAtropina + PralidoximaAtropina 2-4 mg EV a cada 5 min até secar secreções. Pralidoxima 1-2g EV em 30 min
TricíclicoNaHCO₃ 8,4%1-2 mEq/kg EV bolus se QRS >100ms. Manter pH 7,45-7,55
BetabloqueadorGlucagon5-10 mg EV em 2 min → BIC 2-5 mg/h. Se refratário: insulina hiperinsulinêmica euglicêmica
Bloq. canal Ca²⁺Insulina + CálcioInsulina 1 UI/kg bolus + BIC 1-10 UI/kg/h + Glicose. CaCl₂ 10% 20 mL EV em 10 min
FerroDeferoxamina15 mg/kg/h EV (máx 80 mg/kg/dia ou 6 g/dia — o que for menor). Monitorar cor da urina (vin rosé = quelante ativo)
Metanol / EtilenoglicolFomepizol (ou etanol)Fomepizol: 15 mg/kg EV → 10 mg/kg 12/12h ×4 doses → 15 mg/kg 12/12h (autoindução após 48h). Se indisponível: etanol EV (meta alcoolemia 100-150 mg/dL) + HD
CianetoHidroxocobalamina5 g EV em 15 min (Cyanokit®)
DigoxinaAnticorpos anti-digoxina (Fab)Dose baseada no nível sérico. Se desconhecido: 10-20 frascos empiricamente
Sd. SerotoninérgicaCiproheptadina12 mg VO ataque → 4-8 mg VO q6h (máx 32 mg/dia). Via oral/SNG apenas (não existe parenteral). Critérios de Hunter para diagnóstico.

Intoxicações Específicas de Alta Relevância

Paracetamol (Acetaminofeno)

Dose tóxica: >150 mg/kg ou >7,5g em adultos em dose única.
Clínica: Fases — 0-24h: náusea leve ou assintomático (perigoso!); 24-72h: elevação de transaminases, dor em HCD; 72-96h: pico de lesão hepática (IRA, coagulopatia, encefalopatia); >96h: recuperação ou óbito.
Diagnóstico: Nível sérico de paracetamol 4h pós-ingestão + Nomograma de Rumack-Matthew.
Tratamento: NAC (N-acetilcisteína) — iniciar se nível acima da linha de tratamento no nomograma OU se ingestão >150mg/kg e nível indisponível. NAC é eficaz mesmo tardiamente — iniciar se dúvida.

Tricíclicos (Amitriptilina, Nortriptilina, Clomipramina)

Tríade letal: Convulsão + QRS largo + hipotensão.
ECG é obrigatório: QRS >100 ms → risco de arritmia. QRS >160 ms → risco de TV. R em aVR >3 mm → mau prognóstico.
Tratamento: NaHCO₃ 8,4% 1-2 mEq/kg EV bolus se QRS >100 ms — repetir até QRS estreitar. Manter infusão de NaHCO₃ (150 mEq em 1L SG5% a 150-200 mL/h) para pH 7,45-7,55. Se convulsão: BZD (diazepam 10mg EV). NUNCA fenitoína (piora bloqueio de sódio). NUNCA flumazenil.

Betabloqueadores

Clínica: Bradicardia + hipotensão + hipoglicemia (propranolol).
Tratamento: Glucagon 5-10 mg EV → BIC 2-5 mg/h. Se refratário: insulina hiperinsulinêmica euglicêmica (insulina regular 1 UI/kg bolus + 1-10 UI/kg/h + dextrose) — tratamento de escolha em intoxicação grave. Vasopressores se necessário. Marcapasso transvenoso se BAV.

Bloqueadores de Canal de Cálcio

Clínica: Bradicardia (verapamil, diltiazem) + hipotensão + hiperglicemia (diferencial com BB).
Tratamento: Cálcio EV (CaCl₂ 10% 20 mL em 10 min, repetir). Insulina hiperinsulinêmica euglicêmica (tratamento de escolha na intoxicação grave). Vasopressores. Glucagon pode ajudar. Se refratário: emulsão lipídica 20% (Intralipid®).

Organofosforados (Inseticidas)

Clínica: Toxidrome colinérgico (SLUDGE) + miose + bradicardia + fasciculações + insuficiência respiratória.
Tratamento: Descontaminação (retirar roupas, lavar pele — usar EPI!). Atropina 2-4 mg EV a cada 5 min até secar secreções (podem ser necessários 10-20+ mg). Pralidoxima 1-2g EV em 30 min → BIC 500 mg/h (reativa acetilcolinesterase se <24-48h). IOT precoce se insuficiência respiratória.

Prescrições

N-Acetilcisteína (NAC) — Intoxicação por Paracetamol

IndicaçãoNível sérico acima da linha de tratamento (Nomograma Rumack-Matthew), ingestão >150 mg/kg com nível indisponível, ou insuficiência hepática com história de paracetamol.
MedicamentoN-Acetilcisteína (NAC)
ApresentaçãoAmpola 300 mg/3 mL (100 mg/mL) — EV. Sachê 600 mg — VO (diluir em suco/cola).
Dose EVProtocolo clássico 3-bag (21h): 150 mg/kg em 200 mL SG5% em 1h → 50 mg/kg em 500 mL SG5% em 4h → 100 mg/kg em 1000 mL SG5% em 16h. Total: 300 mg/kg em 21h.
Protocolo modificado 2-bag (20h — AACT 2024): 200 mg/kg em 500 mL SG5% em 4h → 100 mg/kg em 1000 mL SG5% em 16h. Total: 300 mg/kg em 20h. Menor incidência de reações anafilactóides vs protocolo clássico (Bateman 2014).
Dose VO140 mg/kg ataque → 70 mg/kg 4/4h por 17 doses adicionais (72h total). Vômitos frequentes — usar ondansetrona 4-8 mg EV pré-dose.
Via / VelocidadeEV (preferível) ou VO. EV: a 1ª dose (150 mg/kg) corre em 1h — monitorar reação anafilactoide (urticária, broncoespasmo) especialmente nesta fase. Se reação: pausar, tratar, retomar em velocidade menor.
Efeitos adversosReação anafilactoide (~10-20% — dose-dependente, mais na 1ª infusão): urticária, flushing, broncoespasmo. Geralmente leve. Náusea/vômitos (VO).
Ajuste renalSem ajuste. NAC é dialisável mas raramente necessário ajuste.
Marca referência BRFluimucil® (Zambon) — apresentação EV e VO. Genérico disponível.
Pérola clínicaNAC é eficaz mesmo iniciada tardiamente (>24h). Se há dúvida, iniciar NAC e reavaliar com nível sérico e transaminases. O custo do tratamento desnecessário é baixo (reação anafilactoide geralmente leve). O custo de não tratar é insuficiência hepática fulminante.

Atropina — Intoxicação por Organofosforados/Carbamatos

IndicaçãoToxidrome colinérgico por organofosforados ou carbamatos (SLUDGE + miose + bradicardia + broncoespasmo).
MedicamentoSulfato de Atropina
ApresentaçãoAmpola 0,25 mg/mL ou 0,5 mg/mL (1 mL)
Dose2-4 mg EV a cada 5-10 min até secar secreções pulmonares (endpoint terapêutico). Podem ser necessários 10-20+ mg em intoxicações graves. Dobrar dose se sem resposta após 2 doses. Crianças: 0,02-0,05 mg/kg.
Via / VelocidadeEV em bolus rápido. IM se sem acesso EV.
Efeitos adversosTaquicardia (esperado e aceitável neste contexto), midríase, retenção urinária, xerostomia, agitação.
Ajuste renalSem ajuste.
InteraçõesAssociar Pralidoxima 1-2g EV em 30 min → BIC 500 mg/h (reativa AChE). Iniciar pralidoxima idealmente <24h da exposição.
Marca referência BRAtropina® (Isofarma, Hypofarma). Genérico amplamente disponível.
Pérola clínicaO endpoint da atropina é secar secreções pulmonares, NÃO midríase ou taquicardia. Não tenha medo de doses altas — o paciente intoxicado por organofosforado tem colinérgico massivo e tolera doses que seriam tóxicas em pessoas normais. A causa de óbito é insuficiência respiratória por broncoespasmo + secreção.

Bicarbonato de Sódio 8,4% — Intoxicação por Tricíclicos

IndicaçãoQRS >100 ms em intoxicação por tricíclicos. Também: hipotensão refratária ou arritmia ventricular por tricíclicos.
MedicamentoBicarbonato de Sódio 8,4% (1 mEq/mL)
ApresentaçãoFrasco 250 mL (250 mEq) ou ampola 10 mL (10 mEq)
DoseBolus: 1-2 mEq/kg EV (50-100 mL para 70kg). Repetir a cada 3-5 min se QRS persistir alargado. Manutenção: 150 mEq em 1L SG5% a 150-200 mL/h para manter pH 7,45-7,55.
Via / VelocidadeEV em bolus rápido (emergência). Manutenção em BIC. Monitorar pH arterial (gasometria seriada) e ECG contínuo.
Efeitos adversosAlcalose metabólica, hipocalemia (monitorar K+), hipernatremia, sobrecarga de volume.
Ajuste renalCuidado em DRC (risco de hipernatremia e sobrecarga). Usar com monitorização rigorosa.
Marca referência BRGenérico: Bicarbonato de Sódio 8,4% (Isofarma, Equiplex, Samtec).
Pérola clínicaO mecanismo é duplo: alcalinização sérica + sobrecarga de sódio → ambos diminuem ligação do tricíclico aos canais de sódio cardíacos. QRS estreitando = tratamento funcionando. Manter ECG contínuo. Se QRS >160 ms → alto risco de TV → bolus agressivo. Se TV → NaHCO₃ + lidocaína (NUNCA amiodarona ou procainamida — alargam mais o QRS).

Referências

1. Brent J et al. Critical Care Toxicology — Diagnosis and Management of the Critically Poisoned Patient. 2nd ed. Springer. 2017.

2. Hendrickson RG. Acetaminophen. In: Nelson LS et al., eds. Goldfrank's Toxicologic Emergencies. 11th ed. McGraw-Hill. 2019.

3. ANVISA / CIATox — Centro de Informação e Assistência Toxicológica. Protocolos de atendimento. 2023.

Referências cruzadas: PCR/ACLS (PCR em intoxicação) · Sedação e IOT (IOT no intoxicado) · Dissecção de Aorta (cocaína + dor torácica) · Distúrbios Eletrolíticos (hipercalemia por intoxicação)
Tabela de Drogas Vasoativas — Referência Rápida +
Concentrações-padrão e velocidades de infusão para pacientes de 70kg e 80kg. Todas as drogas em BIC. Ajustar peso real do paciente. Conferir diluição local.
Droga Diluição Padrão Dose Usual mL/h (70kg) mL/h (80kg) Ação Principal
Noradrenalina 4 amp (16mg) + 234mL SG5% = 64mcg/mL 0,1–1 mcg/kg/min 6,5–65 7,5–75 Vasopressor α1 (1ª escolha no choque séptico)
Dobutamina 1 amp (250mg) + 230mL SG5% = 1mg/mL 2,5–20 mcg/kg/min 10,5–84 12–96 Inotrópico β1 (IC descompensada — perfil frio)
Nitroprussiato 1 amp (50mg) + 248mL SG5% = 200mcg/mL 0,5–5 mcg/kg/min 10,5–105 12–120 Vasodilatador arterial + venoso (emergência hipertensiva)
Nitroglicerina (NTG) 1 amp (25mg) + 245mL SG5% = 100mcg/mL 5–200 mcg/min 3–120 3–120 Vasodilatador venoso > arterial (EAP, SCA)
Esmolol Solução pronta 10mg/mL 50–300 mcg/kg/min 21–126 24–144 β-bloqueador ultra-curto (FA rápida, dissecção, peri-IOT)
Adrenalina 4 amp (4mg) + 246mL SF = 16mcg/mL 0,01–0,5 mcg/kg/min 2,6–131 3–150 Inotrópico + vasopressor (anafilaxia, bradicardia, choque)
Vasopressina 1 amp (20UI) + 100mL SF = 0,2UI/mL 0,03–0,04 UI/min (dose fixa) 9–12 9–12 Vasopressor V1 (adjuvante à noradrenalina na sepse)
Milrinona 1 amp (20mg) + 80mL SF = 200mcg/mL 0,375–0,75 mcg/kg/min (sem bolus) 7,9–15,7 9–18 Inodilatador (IC refratária à dobutamina, HP)
Levosimendan 12,5mg/100mL SG5% = 125mcg/mL 0,05–0,2 mcg/kg/min (sem bolus — ESC HF 2023) 1,7–6,7 1,9–7,7 Calcio-sensibilizador (IC refratária a dobu, em uso de BB). Infusão 24h; efeito persiste 7-10 dias. Simdax®
Dica prática: Imprimir esta tabela e plastificar para uso beira-leito. As velocidades de infusão foram calculadas para facilitar ajuste rápido sem necessidade de calculadora.
Referências cruzadas: IC Descompensada · Crises Hipertensivas · Sepse · Anafilaxia
Checklist Pré-IOT — Imprimível +
Use Ctrl+P (ou Cmd+P) para imprimir apenas este checklist. Os cards foram otimizados para impressão em folha A4. Plastifique para reutilização.

1. Material

  • Videolaringoscópio (1ª escolha — DAS 2024)
  • Laringoscópio direto como backup (lâmina 3 e 4)
  • Tubo orotraqueal (7.0, 7.5, 8.0)
  • Guia/Bougie (disponível em todas as tentativas)
  • Cuff testado com seringa 10mL
  • Fixação do tubo (cadarço/adesivo)
  • SGA 2ª geração: i-gel ou LMA Supreme (Plano B)
  • Kit cricotireoidostomia cirúrgica (Plano C — scalpel-bougie-tube)
  • Aspirador montado e funcionando
  • Capnógrafo / detector de CO₂
  • Ventilador mecânico pronto

2. Drogas

  • Fentanil 1-3mcg/kg (analgesia — DAS 2024; doses ≥5mcg/kg podem causar rigidez)
  • Lidocaína 1,5mg/kg (se reatividade de VA)
  • Indutor: Cetamina OU Propofol OU Etomidato
  • BNM: Succinilcolina OU Rocurônio
  • Sugammadex disponível (se rocurônio)
  • Adrenalina pronta (se instabilidade)
  • Atropina pronta (se bradicardia)
  • Efedrina/Fenilefrina (vasopressor de resgate)
  • Midazolam/Propofol (sedação pós-IOT)

3. Equipe / Plano

  • Líder da via aérea definido
  • Auxiliar para drogas definido
  • Auxiliar para aspiração definido (pressão cricóide: controversa — liberar se prejudica visão, DAS 2024)
  • LEMON avaliado (via aérea difícil?)
  • Plano A: Videolaringoscopia ± bougie (DAS 2024)
  • Plano B: SGA 2ª geração (i-gel / LMA Supreme)
  • Plano C: FONA — scalpel-bougie-tube (DAS 2024)
  • Posicionamento otimizado (rampa/sniffing)
  • Pré-oxigenação ≥3 min com O₂ 100%
  • Oxigenação apneica: O₂ nasal 15L/min mantido durante laringoscopia (DAS 2024)

4. Pós-IOT

  • Capnografia com curva confirmada
  • Ausculta 5 pontos
  • Fixação do tubo (H ~23cm / M ~21cm — individualizar por altura)
  • Ventilador: VT 6-8mL/kg, PEEP 5-8, FiO₂ titular
  • Sedação contínua iniciada
  • Rx tórax solicitado
  • Gasometria arterial em 30min
  • SNG/SOG se indicada
  • Cabeceira elevada 30-45°
Referência cruzada: Sedação e IOT no PS (detalhamento completo de drogas e técnica)

Calculadoras Clínicas

Preencha os campos e o resultado aparece automaticamente. Todos os cálculos são locais (offline).

HEART Score — Dor Torácica no PS

Estratifica risco de evento cardíaco adverso maior (MACE) em 6 semanas.

Pontuação: 0

Wells Simplificado — TEP (Versão Simplificada — ESC 2019)

Probabilidade pré-teste de tromboembolismo pulmonar.

Pontuação: 0

sPESI — Gravidade do TEP Confirmado

Estratifica risco de mortalidade em 30 dias após diagnóstico de TEP.

Pontuação: 0

CHA₂DS₂-VA — Risco de AVC na FA (ESC 2024)

Indica necessidade de anticoagulação em fibrilação atrial não-valvar. ESC 2024 removeu sexo feminino como fator independente (máx 8 pontos).

Idade (selecione apenas uma):
Pontuação: 0

CRUSADE — Risco de Sangramento em SCA

Estima risco de sangramento maior intra-hospitalar em SCA sem supra de ST.

Pontuação: calculando...
REF

Referências Bibliográficas & Guidelines Consultados

+
Sobre esta seção

Todas as informações clínicas deste guia foram auditadas contra os guidelines mais recentes listados abaixo. Última auditoria completa: 25 de Abril de 2026. Total de itens verificados: 515+. Total de prescrições auditadas: 89. Zero erros críticos de dose encontrados.

Cardiologia — SCA, Arritmias, IC

GuidelineSociedadeAno
ACS Guideline (STEMI + NSTEMI)AHA/ACC2025
Antiplatelet/Anticoagulant Therapy in ACSAHA/ACC — JACC2025
NSTE-ACS GuidelinesESC2023
STEMI GuidelinesESC2023
Atrial Fibrillation Guidelines (AF-CARE, CHA₂DS₂-VA)ESC2024
SVT GuidelinesESC2019
Heart Failure (Focused Update)ESC2023
Heart Failure GuidelineAHA/ACC2022
Chest Pain Evaluation and DiagnosisAHA/ACC2021

PCR, ACLS & Ressuscitação

GuidelineSociedadeAno
ACLS — Part 9: Adult Advanced Life SupportAHA2025
European Resuscitation Council GuidelinesERC2025
Consensus on Science with Treatment Recommendations (CoSTR)ILCOR2025
TTM2 Trial (Temperature Management)NEJM2021
ALPS Trial (Amiodarone vs Lidocaine)NEJM2016

Hipertensão & Doença Aórtica

GuidelineSociedadeAno
Hypertension GuidelineAHA/ACC2025
Arterial Hypertension GuidelinesESC2024
Peripheral Arterial and Aortic Diseases (Dissecção)ESC2024
Aortic Disease GuidelineAHA/ACC2022

Anticoagulação & Hemostasia

GuidelineSociedadeAno
SSC Guidance on DOAC ReversalISTH2024
CRASH-2 Trial (Ácido Tranexâmico)Lancet2010
RE-VERSE AD (Idarucizumab)NEJM2017

TEP & Tromboembolismo

GuidelineSociedadeAno
Pulmonary Embolism Guideline (Categorias A-E)AHA/ACC2026
Pulmonary Embolism GuidelinesESC2019
Antithrombotic Therapy for VTE — CHESTACCP2021

Endocardite, Pericardite & Miocardite

GuidelineSociedadeAno
Infective Endocarditis Guidelines + Duke-ISCVID CriteriaESC2023
Myocarditis and Pericarditis Guidelines (IMPS)ESC2025
Pericardial Diseases GuidelinesESC2015
COPE / ICAP / CORP-2 Trials (Colchicina)NEJM / Eur Heart J2013–2014

Via Aérea & Sedação

GuidelineSociedadeAno
Difficult Airway Management GuidelinesDAS (Difficult Airway Society)2025
Walls Manual of Emergency Airway Management5th Ed

Eletrólitos & Metabólico

GuidelineSociedadeAno
Electrolyte and Acid-Base GuidelinesKDIGO2024
Clinical Practice Guideline on DysnatraemiaERC/ERA2024
Management of Hyperkalaemia in AdultsUK Kidney Association2023
Hyponatremia Practice GuidelineAAN (Am. Acad. Neurology)2022

Pneumologia

GuidelineSociedadeAno
GOLD Report (DPOC)GOLD2025
GINA Report (Asma)GINA2025
Pleural Disease Guideline (Pneumotórax)BTS2023
Pneumothorax GuidelineERS/EACTS/ESTS2024

Sepse & Infecções

GuidelineSociedadeAno
Surviving Sepsis Campaign: International GuidelinesSCCM / ESICM2021
SSC Update (129 statements)SCCM2024
Community-Acquired Pneumonia GuidelinesATS/IDSA2019
Johns Hopkins Antibiotic GuideJohns HopkinsAtualizado continuamente

Anafilaxia

GuidelineSociedadeAno
Anaphylaxis GuidelinesWAO (World Allergy Organization)2020
GA²LEN Anaphylaxis ConsensusGA²LEN / EAACI2024

AVC

GuidelineSociedadeAno
Early Management of Acute Ischemic Stroke (TNK IIa, janela expandida)AHA/ASA2026
Spontaneous Intracerebral Hemorrhage GuidelineAHA/ASA2022
DAWN Trial (Trombectomia 6-24h)NEJM2018
DEFUSE-3 Trial (Trombectomia 6-16h)NEJM2018

Toxicologia

GuidelineSociedadeAno
N-Acetylcysteine 2-Bag Protocol (Acetaminophen)FDA / AACT2024
Goldfrank's Toxicologic Emergencies11th Ed, 2019
Position Statements (Activated Charcoal, Gastric Lavage)AACT / EAPCCT2005 (revalidado)

Síncope & Outros

GuidelineSociedadeAno
Syncope GuidelinesESC2018
Tamponade / PericardiocentesisESC (Pericardial Diseases)2015 / 2025
Canadian Syncope Risk Score (validação)CMAJ2016
Nota sobre verificação de doses

Todas as 89 prescrições deste guia tiveram suas doses verificadas individualmente contra as fontes primárias (guidelines acima), Lexicomp, StatPearls e bulas FDA/ANVISA. A verificação foi realizada em 25/04/2026. Recomenda-se reauditoria a cada 6 meses ou quando houver publicação de novo guideline relevante.